Uma compositora a viver nos EUA, às voltas com a memória, na Gulbenkian

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Daniel Blaufuks

Andreia Pinto-Correia trabalha nos EUA e hoje e amanhã a Orquestra Gulbenkian irá tocar obras suas marcadas pela ideia de memória. Começou no jazz, mas hoje é uma referência da criação musical erudita

É a primeira vez que trabalha com a Fundação Gulbenkian e não esconde o entusiasmo. "Estou feliz porque venho aqui desde criança com os meus pais e para mim representa um regresso a casa." Hoje e amanhã, no Grande Auditório, a Orquestra Gulbenkian dirigida por Joana Carneiro, com a soprano Ana Maria Pinto como solista, vai tocar três obras que compõem um tríptico (Elegia a Al-Um" tamid, Xántara e Alfama) de Andreia Pinto-Correia, 41 anos, compositora portuguesa radicada nos EUA, já distinguida com relevantes prémios de composição (Alpert Residency Prize ou o Fromm Music Foundation Award de Harvard), para além de ter sido a primeira portuguesa a ver uma peça executada no Carneggie Hall.

A imprensa americana elogia a delicadeza, a elegância e a construção harmónica da sua música. Ela curiosamente começou pelo jazz e não pela música erudita.

Quando partiu para os EUA com uma bolsa de estudo, a meio dos anos 1990, ia com a expectativa de se tornar saxofonista de jazz, mas é compositora de clássica. Como recorda esses anos?

Fui para os EUA, em 1994, com uma bolsa da Berklee College of Music de Boston para estudar saxofone na área do jazz, embora em Portugal tenha estudado também clássica. Estive lá apenas alguns meses, porque tive um acidente [com a mão direita] e regressei a Portugal, onde permaneci seis anos. Depois regressei sem saber bem o que fazer, impossibilitada de tocar um instrumento ao alto nível, e estudei orquestração, direcção de orquestra, repertório, acabando por enveredar pela composição em clássica e jazz. Nessa fase escrevia mais para orquestras de jazz e foi assim que comecei a dirigir a minha big band. Em 2003, quando acabei o curso, fui para Nova Iorque, onde conheci [o músico e compositor] Bob Brookmeyer, o meu primeiro professor de composição, com o qual acabei por estudar três anos.

Quando teve a noção que iria enveredar pela composição?

Foi natural. Logo depois da primeira composição fui recebendo encomendas e escrevendo. Quando dei por mim, já tinha a minha orquestra jazz, dirigia e tinha concertos. A transição para a clássica acabou por ser natural. O Bob Brookmeyer apercebeu-se que a forma como pensava a música era mais apropriada para grandes orquestras e incentivou-me. Quando me candidatei a doutoramento, há seis anos, cortei então com o jazz.

De solista para a composição, do jazz para a clássica. Essa aprendizagem inicial teve consequências na forma como compõe e sente que acabou por representar uma mais-valia para si?

Sim. O que me custou foi passar de solista para compositora porque desde criança imaginava tocar um instrumento. Mudar do jazz para a clássica, não. Quando escrevia para jazz já sentia que não era o meu ambiente. Em 2006, quando escrevi pela primeira vez para orquestra, senti que era aquilo. No primeiro grande festival senti complexos porque vinha de uma área diferente e estava ao lado de compositores da minha idade com histórias do género: "Comecei a escrever a primeira sinfonia aos sete anos." Mas fui percebendo que tinha vantagens, porque em muitas circunstâncias dirigi a minha música. O facto de ter sido solista também me ajudou. Até o facto de ter cantado num coro.

As três peças que vem agora apresentar, directa ou indirectamente, parecem constituir evocações ou memórias de Portugal, o que acaba por não ser novidade no seu percurso.

Sim, quase todas as minhas peças são sobre Portugal. Tem provavelmente a ver com o facto de estar inserida noutra cultura. Estas três foram escritas num período de ano e meio e acabam por estar relacionadas, ao nível das técnicas, das harmonias e dos gestos que se desenvolvem ao longo do tríptico.

Essa dimensão da memória, seja numa vertente mais íntima, seja de carácter universal, é aquilo que as liga?

Nas minhas últimas peças a questão da memória, em diferentes vertentes, está sempre presente: tanto a memória pessoal como a memória a-histórica. Há também uma certa nostalgia. Estas peças foram escritas numa altura em que três pessoas [a avó, o mentor Bob Brookmeyer e o amigo Bernardo Sassetti] que me eram próximas faleceram. Há também essa melancolia e um ambiente que envolve memórias minhas, mas que não são inevitavelmente traduzidas para quem ouve - ou seja, as pessoas podem retirar das peças o que quiserem.

No processo de criação parte sempre de um ambiente emocional, dessa memória dos sítios e das pessoas?

Sim, embora estas peças tenham variado na forma como as construí. Quando escrevi Xantara estava num sítio belíssimo, no meio da floresta, numa casa com paredes de vidro, sozinha, com um piano de cauda. Às tantas apercebia-me do ritmo dos animais: sabia que às 15h vinham os veados, por exemplo. Entrei nessa atmosfera. Das três é a única que trabalhei muito ao piano. Antes de me sentar a escrever, construía teias de harmonia, experimentava possibilidades. As outras têm mais a ver com o meu processo normal, que é escrever, desenvolver, ir construindo.

Uma das peças, Alfama, tem texto, o que não é muito comum nas suas composições, e agora em estreia vai adicionar-lhe a voz de uma soprano. Sentiu essa necessidade?

Já tinha em mente a voz. Foi como se a tivesse construído em torno de uma voz inexistente. Depois, na estreia, na Califórnia, percebi que gostava de integrar uma soprano na peça. Vai acontecer aqui pela primeira vez.

A segunda parte do concerto é ocupada pelo pianista americano Uri Caine que é alguém que também se posiciona entre a clássica e o jazz. O que lhe sugere esse contacto?

Nele essa ligação é evidente. Eu não a concretizo de forma directa. Ele é extraordinário. Estou feliz por vê-lo.

O seu grande projecto para este ano é Olhos, espelho e luz, peça sobre textos do Sermão da Sexagésima do Padre António Vieira. Quer falar dele?

É um monodrama para tenor solista e ensemble de sopros, e vai ser estreada na Universidade de Minnesota em Dezembro, sendo tocada depois noutras universidades. Mas, para já, vou ter um concerto no Boston Portuguese Festival. Em Maio, outra estreia, The tree, em colaboração com a pintora Darina Karpov e em Julho, uma outra, com os solistas da Boston Symphony. Depois uma peça para os 20 anos da Culturgest. Vai ser um ano muito preenchido.