Portugueses compram mais medicamentos caros para a hipertensão do que suecos e ingleses

Vice-presidente da Associação de Farmácias defende que ministério deve apostar na promoção do uso racional de fármacos

Portugal é o país "com pior qualidade de prescrição na hipertensão arterial" da União Europeia, considera a direcção da Associação Nacional de Farmácias (ANF). Quase um terço dos medicamentos para a hipertensão consumidos no país integram o grupo terapêutico mais caro em detrimento de outros mais baratos e que são "muito similares", explica a ANF, que cita um trabalho do seu Centro de Estudos e Avaliação em Saúde (Cefar) para sustentar esta afirmação.

Ontem, o presidente interino da ANF, Paulo Duarte, defendeu que o Ministério da Saúde (MS) "pouco tem feito" para a promoção do uso racional do medicamento, dando o exemplo dos antidiabéticos e também dos anti-hipertensores. "Em Portugal, continuamos a usar alguns medicamentos mais caros", lamentou. "É preciso gerir melhor", e não só cortar os preços de medicamentos, política que já levou ao fecho de "meia centena" de farmácias.

O estudo do Cefar a que o PÚBLICO teve acesso concluiu que Portugal é o país com maior consumo do grupo terapêutico mais caro para a hipertensão arterial (Antagonistas dos Receptores de Angiotensina - ARA), que em 2012 representaram 32,4% do total dos medicamentos para esta patologia. "Um valor cerca de três vezes superior ao do Reino Unido, onde esta percentagem é de apenas 11%, 2,5 vezes superior à da Dinamarca, com 12,8%, ou cerca do dobro da Suécia, que tem 17,9%", refere a ANF, que nota que o consumo deste tipo de medicamentos cresceu 252% em Portugal, entre 2004 e 2012.

O preço médio dos ARA varia entre os 0,32 cêntimos (simples) e 0,65 cêntimos (em associação), enquanto chamados inibidores da enzima de conversão de angiotensina (IECA) custam 0,15 cêntimos e 0,40 cêntimos, nas versões simples e em associação. Portugal é, ainda, o país que apresenta o menor consumo de diuréticos (15,5% em 2012), contra cerca de 40% na Dinamarca e na Suécia, refere o Cefar.

Apesar de o memorando de entendimento assinado com a troika em Maio de 2011 ter imposto normas de prescrição para o controlo da despesa pública com medicamentos e de a DGS ter publicado em Setembro desse ano uma norma de orientação clínica (NOC) sobre o tratamento de hipertensão arterial, no ano passado o aumento do uso dos ARA continuou, recorda a ANF, acrescentando que "a evidência científica internacional descreve a importância de indicadores de qualidade de prescrição associados a critérios farmacoeconómicos". A direcção da ANF lembra, a propósito, que "o próprio EURO-MED-STAT, um grupo de trabalho da Comissão Europeia, monitoriza a qualidade de prescrição na hipertensão arterial com recurso ao indicador de utilização dos ARA". "Portugal apresenta o pior indicador a este nível e tem vindo a piorar", sublinha.

A ANF cita um relatório do Infarmed para concluir que há uma "enorme diferença" no padrão de utilização de medicamentos do aparelho cardiovascular em Portugal em comparação com o observado em Inglaterra. Neste país, "os ARA só devem ser utilizados em situações específicas para os quais os IECA não tenham demonstrado ser efectivos".