Museu do Chiado quer mostrar arte sem o filtro da heterossexualidade

Skipping, de Elisabetta di Sopra (Itália), e Undressing, de Nilbar Güres (Turquia)
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Skipping, de Elisabetta di Sopra (Itália), e Undressing, de Nilbar Güres (Turquia) DR

Sexo e poder, género e arte. Trinta e três artistas, todas mulheres e todas em vídeo, abordam a partir de hoje e até 30 de Junho o feminismo, o lesbianismo, o transgénero e a identidade em Lisboa

Ela faz do hip hop a sua arma para cantar a rejeição - o namorado trocou-a por "uma preta" com "rabo de balão", queixando-se que "a Ásia está fora de moda" e que está "farta de ser um alvo neste supermercado étnico". Com pompons de cheerleader, colar de flores havaiano e cenário trópico-qualquer coisa, das Filipinas para o Museu do Chiado eis Lilibeth Cuenca Rassmussen em Absolute Exotic, linguagem politicamente incorrecta para fazer pensar em vingança, racismo e preconceito. Está na secção O Exotismo é uma Arma, uma de doze em que foi repartida a mostra internacional de vídeo Hetero q.b.. Trinta e três artistas, doze portuguesas, todas mulheres a falar e a produzir discurso sobre feminismo(s), identidade de género, etnia e muito mais.

Desejo, corpo, idade, urina em público (Itziar Okariz), bordéis na Turquia (Sükran Moral), exotismo, as implicações do olhar, um checkpoint na Palestina (Razan Akramawy), um casal de lésbicas no meio da visita de Bento XVI a Lisboa ou de uma celebração de uma claque do Benfica (Ana Pérez-Quiroga e Patrícia Guerreiro). Ou ainda a Síria através do véu, as narrativas europeias sobre o corpo feminino iraniano (Maria Kheirkhah) ou uma artista israelita que tem um alter-ego masculino que é um judeu ortodoxo homossexual (Oreet Ashery).

Emília Tavares, curadora de Fotografia e Novos Média do museu, e Paula Rousch, artista plástica e investigadora, lançam a partir de hoje sessões contínuas de vídeos Hetero Q.B., comissárias de uma exposição colectiva que quer fazer o museu pisar o terreno social.

E o terreno está minado (são temas "delicados", como categoriza Emília Tavares) e cada vez mais disperso: os novos feminismos, que emanam dos países ditos periféricos, cosem-se com novos discursos e o seu tecido faz-se do transgénero, do gay, do queer e estende-se ao étnico, ao religioso. Identidades, portanto, em curtas e longas, vistas exclusivamente por mulheres.

Tudo porque "os museus têm que ser cada vez menos espaços só de legitimação e devem estar a par do que está a acontecer socialmente - ir ao encontro do que está a preocupar, a chocar ou não com a vida das pessoas", explica Emília Tavares ao PÚBLICO. E tanto Paula Rousch, que também participa como artista nesta exposição com Maria Lusitano em Exchanging gifts out there in the orient sobre a surrealista francesa Valentine Penrose, quanto a curadora do Museu do Chiado sentem que também o museu lisboeta devia, como outras "instituições que têm responsabilidades na arte contemporânea pela Europa e pelo mundo", abordar a temática do género.

Porque no circuito da arte em Portugal estas temáticas surgem sobretudo "integradas noutros discursos mas não como discurso individualizado", segundo Emília Tavares, há artistas portuguesas ao lado das da África do Sul, da China, da Índia, do Brasil ou da Estónia - "o fim do regime soviético fez expandir de forma brutal estas questões nestes países". Portugal é ainda periférico no género.

Paula Roush, que trabalha em Londres, acrescenta que "na representação da arte contemporânea nas instituições já existe uma sexualidade, mas há sempre o filtro da heterossexualidade. Somos sempre um bocadinho comedidos". Hetero q.b., portanto, como lhe disse numa conversa informal o artista e comissário António Lobo, e que deu título, "inclusivo e interpelativo", descreve Emília Tavares, à exposição.

Num dos seus vídeos para Hetero q.b., a artista Zanele Muholi coloca o corpo de mulher negra sobre um fundo branco e recita o sensual e dorido poema de Yvonne Onakeme Etaghene (2004): "I ache for you. I am unable to articulate. Desire throbbing like a heart beat inside me.". O corpo retorce-se, o olhar questiona-se, a hipersexualização do negro confronta-nos.

É uma performance, entre várias deste conjunto de vídeos a exibir semanalmente na sala polivalente do museu, e Emília Tavares sublinha a prevalência da performance como "via de abordagem de todas estas questões". Corporiza-se a temática, visto que há também uma tendência à "pessoalização", "um jogar com o íntimo porque muitos destes trabalhos partem da biografia, do corpo, da sexualidade e o acto performativo tem também um carácter mais provocatório", e interpela-se o espectador.

O suporte vídeo não só prolonga a existência de algumas destas performances, como é um meio "muito democrático e globalizante - não é por acaso que muitas destas artistas têm os seus vídeos disponíveis online, de uma forma muito mais interventiva que vai para além do resguardo, da redoma artística", refere Emília Tavares. Paula Roush acrescenta que "o vídeo está ligado também a uma área de actuação social, uma abordagem muito associada às questões sobre mulheres" e "permite o video essay, muito interessante para quem trabalha nestas margens interdisciplinares ao montar um discurso, uma vídeo-história, através de imagens".

O método para chegar ao Hetero q.b. final é queer, descreve Paula Roush. Entre estas 33 artistas há nomes firmados no circuito internacional da arte, mas também muitas que circulam por outros caminhos, em festivais especializados em questões de género, em grupos feministas. Foi preciso escavar "uma genealogia paralela à da arte oficial, uma outra história à qual se acede sem ser pela metodologia dos livros, dos museus", mas sim através dos arquivos feministas, das conversas de café, explorar novos terrenos.

Como fazem muitos dos trabalhos, que não se focam só em mulheres e homens, em preconceito ou discriminação, reflectindo a complexidade da realidade social e cultural e do enquadramento destes temas identitários e que muito têm a ver também com o poder.

A figura de Valentim de Barros, o artista e bailarino que se travestia e que esteve internado durante 48 anos no Pavilhão de Segurança do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, paira sobre Hetero q.b., servindo de "referente para muitas questões que se levantam neste programa - há obras de artistas que vivem em contextos muito repressivos em que a sua afirmação de género é um acto francamente revolucionário", diz Emília Tavares. Mas também "simbolizando o entrelaçamento do sexo e do poder, para levantar a questão da visibilidade deste tipo de trabalho no nosso país", diz Roush. A programação segue dentro de momentos.