"Este século vai ser dedicado a recasar o poder e a política"

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Aos 87 anos, Zygmunt Bauman é uma das grandes figuras do pensamento ocidental dr

Zygmunt Bauman e José Rodrigues dos Santos encerraram ontem o Festival Literário da Madeira. Até a política redescobrir o seu poder "vamos continuar a cair de crise em crise", disse Bauman

Há um objecto que o sociólogo Zygmunt Bauman não larga: o cachimbo. Aos 87 anos, quase sempre vestido de preto, cabelos brancos no ar e um olhar vivíssimo, o enérgico Bauman fuma também cigarros. E foi isso que fez, fumar um cigarro, depois de quase duas horas de debate no lotado Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, com o jornalista e escritor de best-sellers português José Rodrigues dos Santos. Os dois encerraram ontem os quatro dias do Festival Literário da Madeira (FLM).

Bauman continua também com sentido de humor. A introdução da moderadora Diana Pimentel ia longa quando ele aproximou a sua cadeira da dela e a interrompeu: "Posso começar?" Gerou uma gargalhada na plateia, e iniciou o seu discurso panorâmico de mais de 500 anos de história europeia para concluir que estamos num período de interregno - o que conhecemos já não funciona, a nova ordem ainda não se instalou. "Não sou profeta, mas este século XXI vai ser dedicado a recasar o poder e a política. Até lá, vamos continuar a cair de crise em crise."

Traçando a história do Estado-nação europeu, forjado na ideia de território e soberania sobre esse espaço, Bauman lembrou que o poder e a política estão separados: neste momento, o poder é global e a capacidade política de decisão é local. A unidade do Estado e da nação era feita no espaço territorial, as nações decidiam quem mandava entre as suas fronteiras, mas, hoje, exemplos como Facebook e a facilidade de comunicação ilustram que já não faz sentido falar de território. E a forma como os Estados esperam pelas reacções das bolsas às suas decisões prova que nenhum Estado pode reclamar plena soberania sobre o seu território, acrescentou. "A soberania é uma ficção."

Depois da panorâmica, José Rodrigues dos Santos fez um retrato da história do euro. Contou que um primeiro-ministro um dia lhe disse que a sua função era ser eleito e manter-se no poder o máximo de tempo possível, para dizer: "A forma como a democracia é gerida tem que suscitar interrogações."

Rodrigues dos Santos acha que daqui a uns anos o euro vai acabar, resultado das "incongruências do projecto europeu". Bauman concorda: "Imagino que se alguém de Marte visse a Europa, pensaria que foi criada por um parlamento de especulação financeira. Isto é uma ilustração da guerra entre poder e política."

Mais do que o conceito "líquido", imagem de marca do seu pensamento que foi útil há uns anos para "visualizar o tipo de condições em que estávamos", Bauman prefere agora usar a palavra "interregno".

Professor emérito de ociologia na Universidade de Leeds, no Reino Unido, publicou dezenas de livros - da análise das classes sociais (como Memories of Class, 1982) à crítica política dos sistemas totalitários (como Modernity and The Holocaust, 1989) ou à globalização (Globalization: The Human Consequences, 1998), Bauman tocou nas mais diversas áreas. O seu "manual" Thinking Sociologically, estudado nos cursos de Sociologia no Reino Unido, dá pistas para entender o seu pensamento: vê a sociologia como a capacidade de "desfamiliarizar o familiar", uma ciência que parte do ponto de vista colectivo e olha para os indivíduos como fazendo parte de "redes de dependência". No centro do seu pensamento está a ideia de que na última metade do século XX mudámos de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores, ideia essencial no seu conceito de "modernidade líquida", uma metáfora para explicar a fluidez, incerteza e irregularidade da vida moderna.

Colocar Bauman e José Rodrigues dos Santos num frente-a-frente espelha, um pouco, o espírito do FLM, explica o director Francesco Valentini: Bauman é uma figura de referência do pensamento ocidental, Rodrigues dos Santos, que editou no ano passado A Mão do Diabo (vai na 13.ª edição), tem uma "grande capacidade de divulgar a literatura". A Nova Delphi, dirigida por Valentini, publicou a obra de Bauman Europa Líquida - na verdade, uma entrevista ao autor feita pelo jornalista italiano Giuliano Battiston.

Portugal primeiro

Depois de Naomi Wolf ter posto o festival em polvorosa com a sua intervenção sobre o seu último livro, Vagina, ainda não publicado em Portugal, Bauman foi a segunda estrela internacional a chegar à Madeira (ver edição de sexta-feira). Centrado nas Conversas Cruzadas, debates que partem de títulos de livros, o FLM recebeu cerca de 40 autores, da nova geração portuguesa, como João Tordo, Raquel Ochoa ou Tiago Patrício, a autores conhecidos há muito pelo público português (Ana Luísa Amaral, Pedro Mexia, Maria do Rosário Pedreira ou Rui Zink). Economia, guerra, religião, mulheres foram temas à volta dos quais falaram os convidados.

O festival vai na terceira edição e tem a certeza de que terá uma quarta em 2014. Actualmente sem financiamento público directo, mas com parcerias com diversas entidades, do turismo à cultura, quer tornar-se sustentável daqui a dois anos, diz Francesco Valentini, que não especifica o seu orçamento (entre os 40 e os 100 mil euros, diz). Ambições: entrar no roteiro dos festivais internacionais de literatura e, com a sua programação, atrair turismo cultural, "fazer o festival crescer ainda mais".

Segundo Valentini, 35% das receitas do festival já são do turismo. Os objectivos de "trazer à Madeira um evento cultural que não fosse só regional, mas nacional e internacional" foram atingidos. Valenti é um advogado italiano especializado em Direito Comercial e Fiscal a viver desde 1996 no Funchal, tem uma "paixão antiga pela leitura" e decidiu criar a editora e o festival em 2010: "Há amigos que abrem um restaurante; eu abri uma editora", diz, a sorrir.

A Nova Delphi publica autores portugueses e estrangeiros e está em Portugal e na Itália. Para o ano quer incentivar a exportação da literatura portuguesa e, portanto, vai "envolver editoras estrangeiras", trazendo editores e agentes que possam estar interessados em comprar autores lusófonos. Depois do mote "manifesto à arte", que incentiva "a participação e liberdade", o director está a pensar centrar o programa numa zona geográfica, mas sempre com uma ideia: "A literatura portuguesa está no centro, as outras são convidadas."

A jornalista viajou a convite do Festival Literário da Madeira

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