Egipto, à beira da bancarrota, anuncia que acordo com FMI está quase pronto

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Protestos contra o FMI no Cairo

Governo tem focado cortes nos subsídios que beneficiam os mais pobres e arrisca mais contestação a somar à instabilidade

Já é raro encontrar bombas de gasolina abertas nestes dias nas cidades egípcias. Quando não estão fechadas, enchem-se com filas de carros, autocarros e minibus, e os ânimos por vezes aquecem: todos querem aproveitar o combustível, que começa a faltar. Não só para os condutores urbanos: agricultores dizem que não têm o suficiente para os tractores que hão-de colher cereais em breve, antes que apodreçam nos campos. Os preços têm aumentado, e aumentado. Tudo isto enquanto o clima político continua instável, e economistas avisam que o dinheiro dá para esticar apenas mais três meses.

Se o Governo não conseguir resolver esta crise, a económica, a próxima revolução será a das pessoas com fome, ouviu uma e outra vez a rádio pública norte-americana NPR nas ruas da capital.

Conversações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para um empréstimo de 3,7 mil milhões de euros estão a chegar a bom porto, disse o ministro do Planeamento, Ashraf al-Araby, enquanto uma delegação do FMI visita o Cairo.

Um acordo tem estado pendente e conversações entre responsáveis egípcios e do organismo internacional têm tido lugar de modo intermitente durante os últimos dois anos, desde a revolução que derrubou o antigo Presidente, Hosni Mubarak. Um acordo seria importante não só pelas verbas em si, mas porque serviria para abrir portas a outras ajudas e a credibilizar a economia egípcia perante investidores.

O FMI pede a redução drástica de subsídios nos combustíveis a farinha, que não são sustentáveis e carregam o défice (os subsídios com energia são responsáveis por cerca de 30% dos gastos públicos). O Governo, liderado por Mohammed Morsi, da Irmandade Muçulmana, tem anunciado aumentos de impostos - alguns reverteu mas outros não.

O economista Moustafa Bassiouny, do Instituto Signet, diz que os subsídios distorcem o mercado e são a principal razão para o défice. E, em declarações à norte-americana National Public Radio, deixa um alerta: as reservas do Governo serão suficientes para três meses, não mais.

Analistas apontam que o Governo preferiria esperar até às eleições para tomar estas medidas radicais, mas a sensação geral é de que a situação está já muito má e não deverá ser possível esperar mais.

Por outro lado, o aumento significativo do preço de combustível ou pão, altamente subsidiados, poderá provocar uma explosão social num país onde os preços médios de bens básicos já têm vindo a subir e o mercado negro de gasolina a prosperar.

Nas suas casas ou nas ruas, os egípcios seguem a novela das negociações com o FMI com medo. "Nos últimos três meses, nunca paguei a mesma coisa pelo mesmo produto", comentou Mohammed Mohammed, um técnico de 59 anos, à agência francesa AFP. "Isto vai piorar dpeois do acordo com o FMI."

Moustafa Bassiouny comenta que o fim de certos subsídios, como os do gás usado para cozinhar (um corte no subsídio levou a um aumento de 60% no gás para uso doméstico) não é a solução, pois este é necessário para os mais pobres e não representa uma poupança significativa. Além de que, acrescenta, outros subsídios que beneficiam classes mais altas não são cortados.

"O Governo está a canalizar directamente todo o efeito do corte de subsídios para os segmentos mais pobres da sociedade", acusou. "Isto não é apenas ineficaz em termos fiscais, mas inconsistente em termos morais".

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