Zygmunt Bauman, o homem líquido

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olivier roller

Polaco de nascimento mas britânico por opção, o inventor da teoria da modernidade líquida é um dos intelectuais mais respeitados deste tempo que ele próprio definiu como irremediavelmente incerto.

Nasceu em Poznan, Polónia, em 1925, mas é também britânico por adopção desde 1971. No começo da Segunda Guerra Mundial deslocou-se para a URSS com a família, de origem judaica, fugindo do nazismo. No fim do conflito regressou à Polónia e foi professor na Universidade de Varsóvia até 1968, ano em que emigrou de novo por razões políticas, tendo ministrado aulas em universidades dos EUA, de Israel, da Austrália e do Canadá, antes de assentar em Inglaterra. Aos 88 anos afirma-se essencialmente como europeu e é professor jubilado da Universidade de Leeds.

Zygmunt Bauman tingiu fama com títulos como Modernidade e Holocausto, na década de 1980, ou Modernidade Líquida, em 2000, sendo responsável por uma prodigiosa produção ensaística. Acabou por ficar conhecido junto de um público mais vasto pela criação de conceitos como a teoria da modernidade líquida, que define o nosso tempo como uma era de mudanças e movimentos constantes, onde nada solidifica, tudo é instável, fragmentado e disperso, determinado pelo curto prazo e pela incerteza permanente.

E isso tanto é perceptível na forma como nos relacionamos com o tempo ("Tempo Líquido"), como na vivência nas cidades onde somos obrigados a coabitar com os Outros ("Medo Líquido") ou nas relações afectivas ("Amor Líquido"). Nada é suficientemente determinado - nem as ideias, nem as relações, nem os empregos, nem a crise actual, causada pela dissociação entre as escalas das forças económicas globais e dos poderes políticos nacionais.

Numa compilação de textos do ano passado (This Is Not A Diary) confessava que a obra de José Saramago o havia marcado: "Sempre que leio um dos seus livros aprendo imenso sobre a condição humana", afirma. Em Fevereiro surpreendeu muita gente ao enaltecer o gesto de renúncia de Bento XVI: "Trouxe o papado a um nível humano, confessando-se publicamente e admitindo que todos os seres humanos, até o Papa, têm limites."

Na sua opinião, o gesto restaurou a dignidade moral da igreja, no sentido em que o Papa mostrou que é um ser humano como outros. Quando lhe perguntamos sobre o novo Papa Francisco, é mais cauteloso: "Ainda é cedo para formar uma opinião, mas parece ser um novo fenómeno na história da igreja", diz. "Nenhum outro Papa - até onde a memória histórica alcança - exaltou a crença de que a Igreja é para os pobres e desde o primeiro dia do seu pontificado [Francisco] não deixou dúvidas de que quer agir de acordo com esse preceito. A sua afirmação é particularmente relevante num tempo onde a desigualdade cresce a uma velocidade sem precedentes, sendo hoje o principal problema do nosso mundo."

Bauman foi casado com a escritora Janina (morreu em 2010) durante 62 anos, sinal de que a durabilidade das relações não o assusta. Mas à sua volta continua a recolher sinais de que o "mercado" das relações humanas não é diferente dos "mercados" financeiros. "Quanto mais fácil se torna terminar relacionamentos, menos motivação existe para negociar ou vencer as dificuldades que qualquer relação sofre ocasionalmente." Com uma agravante: "A fome de amor tende a ser hoje ainda mais difícil de satisfazer, num contexto de culto do conforto e da comodidade, onde o esforço é redundante e o trabalho duro repulsivo, contribuindo para que os prazeres do amor pareçam inacessíveis. Mas o amor, no fim de contas, estende todo o seu charme quando consiste em viver-para-o-outro. É uma das chaves da felicidade mas é exigente, não é receita para uma vida fácil ou de conforto pessoal."

Desde há uns anos que Bauman é um dos intelectuais mais respeitados em todo o mundo, o que não deixa de ser interessante, tendo em conta que também o seu papel parece em transição, como tantas outras dimensões na modernidade líquida.

"Sim, é verdade, o papel tradicional dos intelectuais, que consistia em assumir os valores da nação, a sua defesa e implementação, também é vítima de outros processos da condição humana", afirma. Ou seja, processos de fragmentação, individualização e privatização. E existe um outro fenómeno, identifica: "Cada um tende a refugiar-se no seu nicho profissional - os cirurgiões defendendo os hospitais, os académicos as universidades, os artistas as galerias de arte - e há poucos a preocuparem-se com temas que não digam respeito aos seus interesses particulares."

Mas não é o fim do mundo, ainda não chegámos ao ponto de não retorno, afirma ele. Há um velho mundo a morrer, e o novo ainda não nasceu, por isso os intelectuais são cada vez mais necessários na formulação das perguntas certas, contribuindo para criar a diferença entre aceitar o destino ou traçar um caminho. V.B.