"Sei, portanto, que sou este" - o novo atelier-museu do pintor Júlio Pomar abre em Lisboa

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Sara Antónia Matos dirige o atelier-museu, que acolhe o acervo da Fundação Júlio Pomar ENRIC VIVES-RUBIO

A partir das 14h de hoje, a entrada é livre e às 19h o pintor faz visita guiada ao museu, "um pólo especializado" na sua obra

Do outro lado da rua estreita, paredes brancas do seu museu frente a paredes brancas da sua casa, Júlio Pomar continua a pintar. Sofre "de crise do retrato como de crises de fígado - mas não tenho crises de fígado", ri-se, esclarecendo. Os retratos são "um somatório de problemas" e é neles que está a trabalhar: em curso está um retrato "do meu amigo António Lobo Antunes" e "um quadro que retoma o diálogo entre Fernando Pessoa e Alfredo Marceneiro". E "mais umas quantas coisas" em processo, frente ao Atelier-Museu Júlio Pomar que hoje se inaugura em São Bento, paredes branco-Álvaro Siza pintadas de fresco.

"Estou sempre a trabalhar em várias peças ao mesmo tempo, sou um indivíduo de vontade fraca", ri-se novamente. "Naturalmente", vai aparecer pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, umas vezes anunciado, outras de surpresa. Ver, 12 anos depois do "pontapé de saída cheio de coragem" do então presidente da Câmara de Lisboa João Soares, um museu dedicado exclusivamente a si "é uma sensação um bocado esquisita", diz o pintor.

"Não é propriamente o próprio virado do avesso, nem o próprio a ver-se ao espelho", tenta explicar. "Aqui", no novo museu a si dedicado, "não posso dar-me a esse jogo, são coisas que estão arrumadas definitivamente". "Sei, portanto, que sou este", remata, desculpando-se por estar "a brincar aos poetas".

Este é então Júlio Pomar, em modo museu que esteve para ser atelier - "uma ideia um bocado despropositada", diz agora o artista - e cuja primeira exposição é Em Torno do Acervo. A Fundação Júlio Pomar é a depositante do acervo e Sara Antónia Matos é a directora e a comissária deste arranque no antigo armazém da Livraria Sá da Costa na Rua do Vale, transformado por Álvaro Siza. "Um espaço agradável ao corpo", como descreve Sara, adquirido há 12 anos pela Câmara de Lisboa para ser o atelier de Pomar. Mas, diz a directora do museu, "a obra foi-se prolongando" - delonga e 900 mil euros de custos que o actual presidente da autarquia, António Costa, atribuiu em Janeiro à regulamentação "muito pesada e que complica muito" - e o pintor decidiu, dado que "o espaço também ganhou uma magnitude, que merecia ser devotado ao público", que o atelier "ia ser um museu".

O desafio de um museu dedicado a um único artista é "enorme", diz Sara Matos. Pensando a longo prazo, quer apostar na investigação, sem "fechar este museu numa única mostra que esgotaria as abordagens" - e o próprio número de visitantes. Não haverá então exposição permanente, mas pelo menos dois ciclos expositivos por ano - esta fica até 29 de Setembro, seguida de uma mostra dedicada à relação de Pomar com a literatura e à dimensão crítica da sua obra. O atelier-museu, aliás, vai editar até ao final do ano os textos críticos de Pomar - a fundação vai depositar no atelier-museu também o seu espólio documental - e fazer jus ao valor arquitectónico do edifício que habita com colóquios sobre arquitectura. O primeiro é a 6 de Julho, programado por Nuno Grande e que terá a presença de Álvaro Siza para discutir a arquitectura museológica.

Pólo especializado

O objectivo que se propõe Sara Antónia Matos é que "este museu seja uma espécie de pólo especializado sobre a obra" de Pomar, com um orçamento que não revela, mas que provém em parte da autarquia, de receitas do Turismo de Lisboa (e com o apoio da Fundação Júlio Pomar, que, por seu turno, tem a Caixa Geral de Depósitos e a Fidelidade Mundial como mecenas). A escultora e professora de 34 anos partiu das mais de seis décadas de obra do pintor para a conclusão de que esse corpo de trabalho que atravessou períodos-chave do século XX "mostra também como é que as artes plásticas em si se desenvolveram".

Para já, abre-se a porta para quatro núcleos, da fase neo-realista às décadas de 1980/90. Sob o telhado ripado em branco não moram obras mais conhecidas como O Gadanheiro (1945) ou O Almoço do Trolha (1946-50, talvez a pintura mais celebrada da fase neo-realista de Júlio Pomar). "Optámos por mostrar obras menos conhecidas. As obras que ficam no meio, ou registos intermediários, são tão importantes quanto os outros, porque permitem mostrar percursos ou indicar caminhos que mais à frente são abertos", justifica Sara Matos.

Entre as perto de cem obras desta exposição (de um acervo de 400) há uma dúzia emprestada por várias instituições, da Gulbenkian à Culturgest, passando pelo Ministério das Finanças, Secretaria de Estado da Cultura ou por coleccionadores privados como Manuel de Brito. Ajudaram a completar o valioso espólio da Fundação Júlio Pomar, do envolvimento com o real e as sombras do período neo-realista à exploração do "gesto expressionista, quando entre a linha e a mancha temos a sensação de que as figuras avançam sobre nós", como descreve a directora, já na década de 1960.

Subimos as escadas acompanhados pelas xilogravuras e trabalhos em papel de crânios, animais ensanguentados, alguns dos quais "decorreram de ilustrações para obras literárias como o Purgatório, de Dante. "Mostram que há uma relação com esse mundo dos mitos, da literatura, da poesia, que ele tanto explora, mas também uma dimensão de encomenda que é difícil de assumir pelos artistas contemporâneos."

Cá em cima, o impulso neovanguardista, anos 1970 com peluche e afins, inclusão de materiais do quotidiano na pintura. E o "período de inseminação" no Brasil no final das décadas de 1980.

Júlio Pomar está prestes a atravessar a rua e deixar o museu em que sabe que é aquele para voltar ao seu espaço de trabalho, onde começa diariamente pelas sete da manhã. Aos 87 anos, "estou habituado a olhar para as minhas coisas, vejo o que estou a fazer todos os dias quando entro no atelier - e depois fico à espera que se inicie uma conversa, que as pinturas me digam" o que há a fazer.