Paulo Portas anula prova polémica para futuros diplomatas

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MNE diz que a repetição da prova se deve ao facto de esta não ter assegurado condições de igualdade DANIEL ROCHA

Ministério invoca substituição de enunciados rasurados. PÚBLICO noticiou questões polémicas do exame

O ministro Paulo Portas assinou na terça-feira um despacho no qual determinou a anulação da prova de cultura geral realizada por mais de 2000 candidatos no âmbito do concurso externo para ingresso na carreira diplomática, promovido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). Os examinandos poderão agora realizar um novo teste no dia 20 de Abril.

O MNE justifica, em comunicado, que a repetição da prova se deve ao facto de esta não ter assegurado condições de igualdade para todos os candidatos, já que em algumas das salas da Faculdade de Direito de Lisboa - onde se realizou o teste no dia 16 de Março - os enunciados dos exames foram substituídos, permitindo assim a alguns candidatos corrigir respostas rasuradas. Tal facto, adianta o Ministério dos Negócios Estrangeiros, violou as regras contidas na folha de instruções que integrava o enunciado da prova.

Na véspera do despacho do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, o PÚBLICO noticiou que a primeira prova do concurso externo para futuros diplomatas gerou polémica pela quase ausência de questões relacionadas com tratados internacionais, História de Portugal, Geografia ou até regras de etiqueta. Num post intitulado As necessidades do Trivial Pursuit, publicado no blogue Estado Sentido, três dos candidatos à categoria de adido de embaixada questionaram "as opções de resposta algo obscuras". E argumentaram que a prova de cultura geral falhou o objectivo de selecção de potenciais diplomatas, ao passar ao lado de "dados históricos" essenciais.

Contactado pelo PÚBLICO, um dos autores do blogue e candidato ao concurso do MNE, Samuel de Paiva Pires, deu alguns exemplos que deixaram muitos dos examinados surpreendidos: "Perguntava-se por que ficou conhecida D. Filipa de Vilhena, de quem é a frase "Como é diferente o amor em Portugal", em que autor é que Eça de Queirós se inspirou para escrever o seu primeiro romance, quem foi o compositor da "sinfonia inacabada", o que é um amigo do alheio, quem realizou O Pai Tirano, o que é um cefalópode e, viajando da Terra a Urano pelo caminho mais curto, qual seria o planeta por que passaríamos."

Ontem, o PÚBLICO voltou a questionar o MNE sobre o anúncio da repetição da prova a 20 de Abril, inquirindo nomeadamente se esta se deve à polémica noticiada ou a uma eventual taxa de chumbo acima do normal. Em resposta, o MNE explica que a repetição do exame está "exclusivamente" relacionada com o problema apontado no comunicado. "Qualquer outro motivo é pura especulação", acrescenta.

Mas a "justificação diplomática" do MNE não convence vários candidatos que, ouvidos pelo PÚBLICO, rejeitam ter ouvido qualquer queixa relacionada com enunciados rasurados. "É uma forma diplomática de salvar a face, porque não houve qualquer conversa sobre a questão dos enunciados rasurados. E durante a prova foram feitos vários avisos para que não se rasurasse as respostas, para além de que essa informação constava na primeira folha do enunciado", diz um dos candidatos que irão repetir a prova e que prefere não ser identificado.

Samuel da Paiva Pires diz também não ter dúvidas que com esta prova já realizada "a esmagadora maioria" dos candidatos não passaria à segunda fase do concurso, que consiste num exame de língua portuguesa.

Para já, aguardam com expectativa a repetição do teste de cultura geral, mas, sobretudo, o conteúdo do mesmo.