O fantasma alemão

Foto
Cartaz numa manifestação da CGTP em Lisboa: o ressurgimento da "Europa alemã" traz com ele o regresso do sentimento anti-alemão Miguel Manso

Num livro que é simultaneamente uma invocação da memória, um ensaio político e um panfleto a favor do federalismo, Ulrich Beck parte da actual crise do euro para produzir um retrato sobre os perigos que o regresso da Alemanha ao seu pior passado coloca a si própria e à Europa. A verdade, defende, tem de poder falar outras línguas.

A mudança das relações de poder na Europa que se desenrola sob a capa da crise do euro ainda está mais sob a alçada do jornalismo do que da História e é por isso que a obras como Europa Alemã: De Maquiavel a "Merkievel", de Ulrich Beck, têm a irresistível atracção dos pontos de luz. Num livrinho de 111 páginas, mistura de análise sociológica, tratado político, invocação da História recente e manifesto pelo futuro da Europa, Beck cola os fragmentos da crise que explodiu com a falência do Lehman Brothers e produz uma narrativa assustadora. Sendo alemão, tem outra legitimidade para invocar os fantasmas das três tragédias alemãs do século XX (duas guerras mundiais e o Holocausto), para situar o apelo de Thomas Mann, que em 1953 pediu aos seus concidadãos para que nunca mais voltassem a aspirar a "uma Europa alemã", e para sublinhar que a União corre o risco de evoluir para uma Europa feudal, onde os mais poderosos votam sob a égide da Alemanha e onde os outros se submetem. Uma Europa impossível, "onde não vale a pena viver".

Convém notar que não há neste pequeno e fascinante livro uma preocupação de neutralidade. Ulrich Beck é tão conhecido pela sua obra científica, enaltecida pela definição da "sociedade do risco", como pelo seu papel de intelectual engagé. O seu caminho parte da esquerda, da matriz social-democrata contratualista, tolerante e politicamente liberal, e segue em direcção a uma defesa fervorosa da União Europeia (UE) e do federalismo. Nascido em 1944, é um baby boomer que assistiu à expiação colectiva do nazismo e foi jovem no ponto mais alto dos "30 gloriosos anos", talvez a melhor época de sempre para se ser europeu.

Há, portanto, na narrativa de Ulrich Beck tanto a angústia quanto ao futuro como a nostalgia de um tempo perdido, o tempo em que a Alemanha se serviu da Europa para "interiorizar os valores do Ocidente" (a liberdade, o capitalismo e a democracia) e para exorcizar os seus demónios. Num ápice, porém, esta via em direcção à construção de uma Alemanha europeia inverteu o sentido e está a dar lugar à imposição de uma Europa alemã. Beck deu-se conta dessa transformação quando, em Fevereiro de 2012, ouviu na rádio o pivot de um jornal dizer: "O Bundestag decide hoje o destino da Grécia."

Na espuma dos dias, a acumulação de sucessos que levaram a este estado de coisas pode ser linear, lógica até, face à hegemonia económica de Berlim. Num horizonte mais dilatado, porém, o que estes tempos relevam é um processo de cerca de 70 anos que levou a "Alemanha, destroçada moral e materialmente após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto" a evoluir de "discípulo obediente" para "mestre da Europa".

Neste percurso de transformação entram o acaso, o preconceito, a perfídia (o "merkievelismo") e a arrogância. O acaso é, em qualquer escala de prioridade, o menos importante. O poder económico da Alemanha exigiria sempre um papel determinante no curso da crise do euro. A resposta a essa responsabilidade histórica é que suscita ao sociólogo toda a preocupação. O regresso de uma "Europa alemã" pressupõe uma "fórmula que "ressoa demasiado ao passado", que "está contaminada historicamente e viola um tabu altamente sensível".

A inversão da tradição europeia que abre portas a esse mundo sinistro começa com o preconceito, com a criação de "uma outra Europa, uma Europa dividida, separada entre países do Norte e países do Sul, entre Estados credores e Estados devedores". Na abertura desse muro, considera Beck, contam os princípios do luteranismo e da ética evangélica protestante, como o que enaltece a crença de que "o sofrimento numa crise purifica". Para os alemães, "o que os habitantes do Sul da Europa precisam é de ajuda, de uma espécie de reeducação em matéria de poupança e de sentido de responsabilidade".

De Maquiavel a Merkel

O que poderia ser um impulso de solidariedade tornou-se assim "uma tarefa histórica". A austeridade deu lugar a uma missão, na qual os alemães se sentem no dever de "definir o bem comum europeu de forma unilateral e nacional, mas sobretudo na arrogância de definir os interesses nacionais de outras democracias europeias". Aqui, "não é só a Europa que se torna alemã: a verdade também se torna alemã, nomeadamente a verdade da política de austeridade". Pior ainda, nesta relação entre as duas Europas cindidas pela crise não há equilíbrio possível: "Só existe uma coisa pior do que ser esmagado pelo dinheiro alemão: não ser esmagado pelo dinheiro alemão", escreve o sociólogo.

Os custos desta relação assimétrica são óbvios. Os países devedores "formam a nova "classe baixa" da UE. Têm de aceitar as perdas de soberania e as ofensas à sua dignidade nacional". No lado contrário, os países credores ganham uma legitimidade que ressoa a poder feudal - "No feudalismo, os únicos que tinham direito a voto eram os nobres. Iremos assistir, em breve, à reedição de privilégios desse tipo?", pergunta Beck. Ricos, portadores de uma "responsabilidade" histórica numa Europa onde uns são bons e outros maus, os alemães são tentados a produzir um novo discurso sobre a sua identidade (ou a recuperar um discurso esquecido pelas vicissitudes da História). Se até agora eram europeus empenhados, parte de um puzzle transnacional, cooperativo e partilhado, agora o sucesso económico sugere um novo nacionalismo na Alemanha. ""Somos novamente importantes e conhecemos soluções"".

Todas estas transformações poderiam sugerir intencionalidade, ou um plano destinado a garantir o regresso dos gloriosos tempos de Frederico II ou de Bismarck. Nada disso aconteceu, pelo menos numa primeira fase. O sociólogo criou o neologismo "merkievel" (que a editora, infelizmente, tratou de empregar no título da obra, talvez para lhe conferir uma atracção mais instintiva) para designar a influência que Maquiavel teve nas opções da chanceler Angela Merkel depois do estalar da crise. "A ideia merkievélica - disponibilidade de conceder crédito condicionada pela austeridade" é a essência do seu programa. Mas a origem do seu poder é "a sua tendência para não agir, não agir ainda, agir mais tarde - para hesitar". "Hesitação enquanto táctica de dominação - é este o método Merkievel", escreve Beck.

Com o evoluir da crise, Merkel mudou. Quando começaram a surgir os primeiros sinais de insustentabilidade financeira nos países periféricos, a Alemanha pressentiu a "catástrofe iminente" e percebeu que nesse cenário se abriam "oportunidades". De uma fase sem rumo, Berlim passou a uma fase de planeamento mais consciente da resposta à crise. A chanceler reconhecera a sua occasione, o "momento favorável". "Se a Alemanha recusar a aprovação de ajuda financeira, a ruína dos países endividados é inevitável. Portanto, aquilo que parece algo absolutamente apolítico, nomeadamente, não fazer algo, altera a estrutura de poder na Europa. A transformação da Alemanha na potência hegemónica na Europa é, assim, levada adiante e, simultaneamente, disfarçada. Este é o artifício que Merkel domina. Maquiavel podia, de facto, ser o autor do argumento", escreve Ulrick Beck, que, acto contínuo, deixa no ar uma terrível leitura do presente: "O potencial de chantagem de que [Merkel] dispõe não provém da lógica da guerra, mas sim da lógica do risco, mais precisamente: do colapso económico iminente".

Uma Primavera europeia?

Face a estes desafios estará a UE condenada? Sim, se persistir no seu actual arranjo institucional; sim, se for incapaz de alterar o seu rumo e de deixar de contar no seu seio com a vocação europeia da Alemanha. Não, se houver uma tomada de consciência por parte dos europeus do que está, de facto, em jogo, se as imposições do capitalismo forem contidas, se a actual geração for capaz de experimentar a "grande política" - não a política "que executa as regras", mas a que é capaz de as alterar. Neste domínio, vai ser preciso que a vontade alemã de produzir alterações institucionais antes do controlo da crise se ajuste à pretensão francesa que inverte os termos da equação; é essencial que os partidos sejam capazes de "fazer a quadratura do círculo" e mantenham em simultâneo bases territoriais nacionais e apelem a ideais europeus; é preciso que se entenda que a ideia de Europa "não é compatível com o sistema político baseado nos estados nacionais".

O sociólogo alemão não é pessimista: "O sucesso da UE é, simultânea e paradoxalmente, uma razão para ela ser pouco apreciada. Muitas das suas conquistas tornaram-se tão óbvias para as pessoas que, provavelmente, elas só reparariam nas mesmas se elas deixassem de existir", escreve para depois perguntar: "Irá a experiência da mortalidade da UE acabar por levar ao surgimento de uma consciência europeia, que reage tanto contra a Europa abstracta de Bruxelas como contra a "ortodoxia" dos Estados nacionais?".

Dividida, dilacerada pela crise, a braços com o regresso de fantasmas, contaminada pelo excesso de História, a Europa vive uma vertigem. "Não se trata de impedir o colapso do euro. O que está em causa é muito mais do que isso: o colapso dos valores europeus de abertura ao mundo, paz e tolerância". Por todo o lado, acrescenta, há "sintomas que podem ser sinais de mudança iminente, (como se viu na Reforma, na Revolução Francesa, no colapso do Bloco Leste)". Estará aí uma Primavera Europeia?

Aprecie-se ou não o tom mais panfletário do ensaio de Ulrich Beck, há que o entender como o corolário lógico da raiva e de muitas angústias. Numa era conturbada em que se diz que faltam as palavras dos intelectuais, Ulrich Beck não se resigna. Fá-lo em artigos de opinião nos principais jornais europeus, em acções cidadãs, ou através deste ensaio perturbante. Não está ali a verdade toda, ou sequer a verdade, que normalmente exige tempo e distanciamento. No seu pequeno livro está apenas o registo de um tempo cru em que de um projecto comum se passou ao momento em que alemães insultam gregos e portugueses insultam alemães. Com a Europa deprimida, sem soluções à vista, afogada na austeridade e no desemprego, não é difícil validar muitas das interpretações e algumas das propostas que o sociólogo alemão nos deixa neste livro essencial.