No estaleiro com Mona Vatamanu & Florin Tudor

ENRIC VIVES-RUBIO
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ENRIC VIVES-RUBIO

I dream the work of another artist é a primeira exposição individual de Mona Vatamanu & Florin Tudor no circuito expositivo português. E uma oportunidade irrecusável para conhecer um trabalho que se confronta poeticamente com a história da Europa, sem dogmas políticos ou artísticos.

Diante de Olympia, de Mona Vatamanu & Florin Tudor, o espectador precisa de tempo para dar sentido ao que vê. A câmara move-se nervosa enquanto as imagens desfilam ao som de Bach, numa suave e imparável cadência. Vêem-se pessoas numa procissão, num protesto. Há corpos aparentemente pacificados, suspensos, outros envolvidos em violência e actividades recreativas. E aos poucos, com esforço, identificam-se lugares: a ponte de Brooklyn, Madrid, o estádio olímpico de Berlim. Este pequeno vídeo é uma das obras que a dupla romena apresenta até 1 de Junho na Kunsthalle Lissabon e resume traços característicos de uma produção iniciada nos finais dos anos 1990: a presença do corpo e da arquitectura, uma indagação persistente sobra a memória colectiva e a história de Europa e a crença de que arte e os artistas podem (e devem) confrontar-se com as condições políticas e sociais do seu tempo. Não, isso não significa que Mona Vatamanu & Florin Tudor façam arte panfletária, ao serviço de uma determinada visão política do mundo. Ainda assim, impõe-se uma contextualização. Os dois nasceram e formaram-se enquanto artistas na Roménia. Assistiram à queda do regime de Nicolae Ceausescu e à imediata e imparável ascensão do capitalismo e, no tumulto dessas mudanças, confrontaram-se com as promessas e os equívocos da arquitectura. "Era difícil não sermos afectados [pela arquitectura], pois crescemos num pais que durante anos esteve sempre em obras, com se fosse um estaleiro", recorda Mona Vatamanu. "Na década de 80 ainda chegámos a viver um período em que o objectivo era remodelar tudo de uma forma muito básica, embora sem o radicalismo modernista dos anos 1960 e 1970. Era uma espécie de pós-modernismo local aplicado por um regime totalitário."

As constantes demolições e reedificações de monumentos e edifícios públicos levaram a dupla a interrogar os efeitos da instrumentalização da arquitectura pelos poderes políticos. Dois dos seus trabalhos - a performance Vacaresti (2006), evocando um mosteiro demolido em 1986, e a instalação Dust, Grzybowska 51 (2008), em que intervieram numa área devoluta do antigo bairro judeu de Varsóvia, escavando um buraco e tapando-o com cimento) - suscitam uma reflexão poética sobre a utilização do espaço público e a história da arquitectura modernista, posicionando-se contra a construção desenfreada e a amnésia cultural. Com materiais modestos: corpo humano, cimento, terra, poeira.

Consumação e esperança

Esta foi a proposição, marcada pelo trauma da experiência romena da segunda metade do século XX, que a dupla trouxe ao circuito internacional da arte contemporânea. E a recepção foi acolhedora. Nada, contudo, os havia preparado para o choque que se seguiu. "Nos anos 1980, vivemos uma distopia. As pessoas já não estavam politizadas e, mais do que comunista ou socialista, o regime era uma ditadura nacionalista e paranóica", conta Florin Tudor. "Tínhamos, por isso, uma perspectiva diferente do que eram as utopias. Mas quando vimos certas manifestações e protestos em Basileia e Berlim ficámos confusos. Os símbolos que tínhamos aprendido na escola, que tinham sido manipulados pelo regime, que eram para nós coisas decorativas, ganhavam ali outro significado. Para aquelas pessoas que passavam diante de nós, não tinham sido esvaziados", continua.

Atenção: Mona Vatamanu & Florin Tudor não perderam o cepticismo de outros tempos, a sua arte não se tornou prescritiva ou militante. Simplesmente a prudência não os impede de agir enquanto artistas; isto é, de submeter à discussão e ao pensamento uma transfiguração da realidade. Veja-se Rites of Spring (2010), o outro vídeo da exposição no espaço lisboeta. Uma criança diverte-se a queimar o algodão inflamável dos choupos que cobrem as ruas de Bucareste. Brincadeira perigosa. As fagulhas ameaçam provocar um incêndio, antes de se apagarem na calçada, sobre a estrada. "Pode ter várias leituras", atalha o artista. "Lembrámo-nos dos motins nos subúrbios franceses, dos protestos contra a guerra no Iraque ou da imolação que desencadeou a Primavera Árabe. Ao documentarmos os pequenos fogos quisemos imaginar a possibilidade de um recomeço, de uma reconstrução." A metáfora é ambígua. A fagulha pode originar chamas incontroláveis ou apagar-se despercebida. "Sim, é verdade. E também há um diálogo com o Olympia, através da ideia de consumação", diz Mona Vatamanu. "Nesse trabalho, vemos corpos tomados pela esperança, pela repressão, pelo medo."

Na última sala da Kunsthalle Lissabon, encontra-se a instalação que dá o nome à individual. Composta de uma estranha fotografia e de três andaimes deitados no chão e cobertos de plástico e de terra, parece a peça mais enigmática. Mas o título - I dreamt the work of another artist - é suficientemente descritivo. A obra traduz um sonho de Mona Vatamanu & Florin Tudor sobre a obra de outro artista. "Não nos lembramos do artista e já não sabemos muito bem o que sonhou", esclarecem. "Mas procurámos ser fiéis à imagem. A partir daí a peça pode tomar varias direcções. Pode apontar para a ideia de construção, e para a esperança que lhe está associada, ou, pelo contrário, para o reconhecimento de um falhanço, de uma impossibilidade." A condensação criada pelo plástico sugere, com efeito, a possibilidade de um recomeço, embora incerto. Já a fotografia encontrada nas ruas de Bucareste e que os artistas fixaram exactamente como estava (perdida na terra), revela a utopia do exótico e do internacionalismo: um homem, romeno, rodeado de palmeiras (artificiais, verdadeiras?). Metáfora possível de um sonho falhado. Ou de um desejo oposto à violência das utopias.