A Europa à procura da sua Primavera

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Zygmunt Bauman não se mostra surpreendido com a crise que atravessamos: "No mundo globalizado, os poderes que determinam a nossa existência - e o futuro dos nossos filhos - já não são as instituições políticas" OLIVIER ROLLER

Em período de crise os indivíduos e as nações tendem a proteger os seus próprios interesses, a não ser que não tenham outra hipótese. Hoje, no labirinto em que se transformou a Europa, há cada vez mais vozes a proclamar que chegou a hora de repensar tudo para não deitar a perder a possibilidade de um futuro comum - incluindo Zygmunt Bauman, uma das figuras mais relevantes do pensamento contemporâneo, que estará amanhã no Festival Literário da Madeira.

É unânime. A Europa está em crise. O ideal europeu vacila. A construção política marca passo. Regressam crispações identitárias. Os países do Norte acusam o Sul de irresponsabilidade. Os países do Sul sentem falta de solidariedade. Há cada vez mais vozes a proclamar que a única saída para a crise financeira é política, numa Europa interdependente, com diferentes cadências, que parece ordenada a partir de cima, esquecendo vínculos, incapaz de avançar ao ritmo dos mais lentos.

O cineasta espanhol Pedro Almodóvar assinalava no ano passado, em Madrid, ao lado de duas dezenas de intelectuais que se propõem fundar uma Casa da Europa (entre eles Prémios Nobel como Seamus Heaney ou Günter Grass, compositores como Pierre Boulez ou o arquitecto Álvaro Siza), que a economia se converteu "na única narrativa europeia", e que isso é inaceitável para países que, podendo ser menos competitivos em termos de produtividade económica, são também geradores de riqueza - ao nível da cultura, do conhecimento, do enunciar de outros estilos de vida. Por alguma razão, dizia ele, países como Espanha, Portugal, Grécia ou Itália, são lugares que todos querem conhecer.

No enunciado de Almodóvar e da Casa da Europa (um "lugar de reflexão sobre laços culturais, políticos e históricos que podem moldar uma identidade comum") sobressai a ideia de que é precisamente pelas diferenças que a Europa se deve unir. A Europa do Norte, fixada na economia, não quer ouvir falar na dívida dos países do Sul, mas é seduzida por aspectos do seu estilo de vida; a Europa do Sul deseja ter o mesmo rigor dos seus vizinhos de cima, mas receia a alienação da soberania pelo poderio do Norte.

Os cépticos dizem que é utopia esperar que seja possível criar um único directório político para diferentes Estados. Do outro lado argumenta-se que não há alternativas e que será a realidade a ditar o que fazer. O contrário do aprofundamento da União europeia será a sua desagregação, enunciam, até porque se a crise parece circunscrita, ela disseminar-se-á. Por outro lado, se é verdade que a união política parece difícil tal a confusão que actualmente se vive, e como os factos no Chipre provaram, não é menos certo que a utopia que sucumbe hoje é a do capitalismo global de desenvolvimento ilimitado e do crescimento inesgotável do consumo.

A Europa está no meio da ponte, paralisada, sem saber se deve recuar ou aprofundar a união. "Vivemos na irrealidade nos últimos 30 anos, pensando que o crescimento era ilimitado, e agora estamos em choque porque percebemos que não é", diz-nos Zygmunt Bauman, decano dos intelectuais europeus, sociólogo e filósofo polaco de 88 anos a viver em Inglaterra - uma das vozes mais veneradas do pensamento contemporâneo, cunhador do conceito "modernidade líquida", com quem mantivemos um diálogo via e-mail.

Amanhã, sábado, Bauman vai estar no Funchal a convite do Festival Literário da Madeira, numa altura em que a Nova Delphi edita em Portugal o seu Europa Líquida, resultado de uma série de conversas com o italiano Giuliano Battiston. Ali se propõem leituras sobre as transformações provocadas pela globalização na estrutura dos sistemas políticos e na organização social. Não se pode dizer que o intelectual polaco esteja surpreendido com o que sucede na actualidade. "Assistimos a manifestações de desencanto com origem no mesmo problema, o compromisso entre dois princípios interligados na estrutura da União Europeia que conflituam: a ideia da soberania territorial dos Estados e a realidade do mundo globalizado, no qual os poderes que determinam a nossa existência - e o futuro dos nossos filhos - já não são definidos pelas instituições políticas disponíveis (são poderes globais difusos, sem um centro definido, capazes de se evaporarem no ciberespaço, enquanto os poderes políticos, ou seja a possibilidade de decidir que coisas podem ser feitas, são locais)." Daqui, argumenta, resulta um divórcio entre "política" (decidir o que precisa de ser feito) e "poder" (a possibilidade de fazer). Os Estados estão em constante défice de poder. Têm de responder pelas acções localmente, mas dependem de dinâmicas económicas globais que não controlam. Não espanta que muitas vezes os políticos surjam aos olhos da opinião pública como marionetas.

"Os governos debatem-se permanentemente entre dois vínculos: têm de atender às solicitações dos eleitores, mas também às dos poderes supranacionais, e as duas solicitações são mutuamente incompatíveis", nota Bauman. E o resultado está à vista: "A senhora Merkel, seguindo os desejos dos seus eleitores, quer uma Europa hospitaleira para os capitais financeiros planetários. Grécia, Itália, Espanha ou Portugal desejam restringir os poderes do capitalismo global para protegerem a sua soberania, ao mesmo tempo que suportam os custos das devastações perpetradas pela economia desregulada, através da austeridade, que apenas vinca ainda mais o fosso entre ricos e pobres."

Entre a cultura e a caverna

O que fazer? "Só o saberemos num futuro próximo", diz cautelosamente o nosso interlocutor, lembrando que por todo o lado estão a ser ensaiadas formas alternativas de acção colectiva e novas mobilizações políticas, mas que a procura de respostas está ainda numa fase embrionária. Ele, faz questão de dizer, não produz profecias. Mas enquadra a realidade e projecta cenários. E não está sozinho. Enquanto as populações de diversos países saem à rua mostrando descontentamento em manifestações massivas, pacíficas e heterogéneas - "Estão unidos no descontentamento, mas ainda é um protesto emocional a que falta um pensamento e um propósito minimamente consensual" -, há cada vez mais vozes a afirmar que sem uma Europa mais unida regressaremos à caverna.

Disse-o o próprio Bauman, em 2010, na cerimónia de abertura do Congresso Europeu da Cultura no seu país natal, quando afirmou que o primeiro recurso económico da Europa não é o petróleo, mas sim a cultura. Nessa ocasião ficou demonstrado que a cultura, enquanto indústria, contribui decisivamente para o PIB e para prenunciar os caminhos da inovação, que ao contrário do que se imagina não procede da tecnologia. "A tecnologia bebe nas ideias que surgem do campo da cultura."

Mas a ideia de cultura proclamada por Bauman é outra, de dimensão ontológica, não divorciada da realidade social. "O futuro da Europa depende dela", sublinhou. "A herança cultural europeia é a melhor forma para sair da crise e a diversidade é o maior tesouro que podemos oferecer ao mundo, essa arte de vivermos com outros, apesar das diferenças, ou precisamente por causa delas."

Disseram-no também em Fevereiro último uma série de intelectuais de diversos países (Umberto Eco, Bernard-Henri Lévy, Salman Rushie, Julia Cristeva, Gyorgy Konrád, Peter Schneider ou António Lobo Antunes), subscritores de um manifesto (Europa ou caos?), publicado em alguns dos mais importantes jornais do Velho Continente. Todos acabam por reflectir que é necessário cumprir-se uma Europa política, capaz de impulsionar a emergência de uma autêntica cidadania europeia, não limitada à cooperação financeira. E é precisamente porque estamos em crise, num contexto de interdependência entre Estados, que é tempo de aprofundar a união e não de desistir dela. "Se a Europa não se constituir como entidade política, o euro desaparecerá com consequências imprevisíveis", escreveu o francês Bernard Henry-Lévy num texto implacável, criticando os "planos de austeridade impossíveis de cumprir", e evocando a História, para recordar que sem integração política nunca haverá unificação monetária. "Antes dizíamos: socialismo ou barbárie. Agora devemos dizer: união política ou barbárie. Ou melhor ainda: federalismo ou ruptura e, no seguimento da ruptura, regressão social, precariedade, explosão do desemprego, pobreza. Já não temos escolha: união política ou morte."

Bauman não é tão categórico, mas admite que a crise tem revelado a fragilidade das estruturas construídas para concretizar o sonho europeu. "Há uma tendência europeia para ser simultaneamente o caixote do lixo dos desafios globais e um laboratório de ponta, onde são testadas formas de resolver desafios. Existimos hoje em suspenso, em contínuo estado de conflito, e o modelo Estado-nação está posto em causa, se não ultrapassado."

Vivemos numa época de globalização "negativa", afirma, referindo-se ao que resiste ao controlo político (por exemplo, capitais financeiros, comércio, tráfico de armas ou drogas), sem que tenhamos ainda conseguido alcançar a globalização "positiva", isto é, um organismo político capaz de controlar os danos da convergência acelerada e de centralizar, por exemplo, decisões económicas.

O laboratório europeu

Ainda não demos vida a instituições políticas de carácter global que gozem das mesmas atribuições dos estados nacionais. O poder globaliza-se, mas a política permanece local. As outrora prerrogativas dos governos foram transferidas para o mercado, um actor móvel que se coloca fora do alcance da política.

"A Europa sofre as pressões contraditórias de mais um dilema: defende uma política unificadora, mas usa para esse propósito um agregado de agentes autónomos", diz Bauman. "O que atormenta na história da integração europeia é a discrepância entre os meios e os fins, entre a tarefa definida e os meios escolhidos para a sua implementação."

Se vier a acontecer uma futura democracia global, onde seja possível unir poder e política, será diferente das democracias dos tempos modernos, pensadas para os estados nacionais. Mas, adverte, essa forma de democracia apenas poderá ser obtida por tentativa e erro. "É por isso que o laboratório político da União é tão importante", afirma, apesar dos passos em falso, das hesitações, da lentidão.

É um laboratório onde se tenta compreender de que modo se poderá obter uma coexistência pacífica entre diferentes, numa congregação que respeite a diversidade. Uma tarefa imperativa num mundo interdependente, onde a tarefa das instituições europeias não seja acelerar o processo de erosão das soberanias mas promover a separação entre poder e política. Bauman vai mesmo mais longe: "Nas actuais condições, determinadas pela globalização "negativa", cada nação tem maiores possibilidades de preservar a identidade se conceder parte da soberania à União do que se enveredar por um combate isolado na tentativa de a preservar, acabando por ser vítima das forças do mercado que a destruiriam."

Independentemente dos labirintos da construção europeia, uma coisa é certa, segundo Bauman: é necessária uma profunda reconsideração do nosso modelo de vida baseado no crescimento económico infinito, um modelo que promove a rivalidade e degrada a cooperação, cultivando a desconfiança em vez da solidariedade.

Entretanto, longe da Europa

Se existe alguém que tem reflectido sobre modelos de vida europeus é o sociólogo italiano Domenico De Masi, de 75 anos, que se tornou conhecido em todo o mundo a partir de 2000, quando lançou O Ócio Criativo. Continua a achar que a Europa tem potencial: "É um continente diversificado", começa por dizer-nos, antes de enumerar que "os países escandinavos têm as melhores políticas de bem-estar social", que "o Luxemburgo, a Suíça e a Alemanha são os países com maior PIB per capita", que "Itália e Alemanha têm a maior esperança de vida", que a "zona euro está em primeiro lugar no comércio internacional", e que sete dos dez países com maior índice de democracia são europeus. "Enfim, é o continente com maior nível de educação e com melhor desenvolvimento científico, por isso não acredito que tenha perdido relevância no cenário intelectual e económico." E prognostica: "Em 2020 a Europa dos 27 poderá ser o maior bloco económico, com a melhor qualidade de vida."

Porquê, então, a sensação de entropia? "A força de um país, ou de um conjunto de países, não está apenas no crescimento económico, mas principalmente na capacidade de distribuir igualmente a riqueza, o trabalho, o poder, o saber, as oportunidades. É necessário realizar essa redistribuição mais igualitariamente e manter uma cada vez melhor relação entre economia e felicidade."

Ou seja, tal como Bauman, também De Masi diz que existe hoje um problema de modelo decorrente dos vários paradoxos do capitalismo global, assentes na visão utópica do consumo e do crescimento infinito supostamente obtido se houver concorrência entre todos.

"Um dos paradoxos do capitalismo é que a riqueza não se distribui de forma igual, mas agrega-se na mão de poucos se não existe regulação. Quando a riqueza se agrupa em poucos o consumo cai. E se o consumo diminui, o mercado encolhe. Outra contradição resulta de os bancos comercializarem mais do que a riqueza real."

Mas há mais paradoxos. O progresso tecnológico elimina o trabalho, fazendo com que o bolo do emprego diminua. Daí resulta que se não for reduzida a quantidade de trabalho individual quem continua empregado trabalhará muito, enquanto outros estarão desempregados. "O caminho deveria ser reduzir as porções do bolo que cada um come para assegurar o trabalho, mas não fizemos isso", afirma De Masi. "À medida que se reduzem os postos de trabalho, os pais trabalham dez horas e os filhos estão desempregados. Vivemos num modelo industrial de produção aplicado a uma dinâmica pós-industrial."

Como é que se unem tantas pontas soltas? "Os grandes inovadores da cultura industrial (Marx, Weber ou Keynes) elaboraram modelos que seguiram o seu percurso durante décadas, agora são necessários outros intelectuais com propostas", diz, acrescentando que a transição não será fácil, porque "ainda não há suficiente reflexão sobre fenómenos como a globalização, o progresso biotecnológico, a escolaridade difusa, a Internet ou as redes sociais."

De Masi esteve recentemente no Brasil, onde disse que o país "não era o melhor dos mundos possíveis, mas o melhor dos mundos existentes" - melhor do que a Europa, a China, a Índia ou os Estados Unidos - e que chegou a hora de os brasileiros proporem um modelo ao mundo, depois de terem adoptado o modelo europeu durante 450 anos e o americano durante 50. "O problema do capitalismo global não é a produção de riqueza, mas a sua distribuição e no Brasil foram dados passos na compreensão desse facto." Apesar da notoriedade dos últimos anos, afirma De Masi, o Brasil continua a não ser valorizado. "É quase tão grande como a China, mas é uma democracia. É quase três vezes maior do que a Índia, com tantas etnias e religiões, mas vive em paz interna e externa. É quatro vezes maior do que a zona euro, mas tem um único governo e fala uma única língua. É o país com mais católicos, mas onde a população vive de forma mais pagã. É o único país do mundo onde a cultura ainda mantém características de alegria, sensualidade, receptividade e solidariedade."

Bauman revê-se em algumas das assunções de De Masi sobre o Brasil, mas proclama que as potências emergentes incorrem nos riscos da Europa, porque se baseiam no mesmo modelo. "Nesses países o dinheiro parece circular de forma mais intensa, mas estão a jogar o mesmo jogo do Ocidente, baseado em formas de capitalismo parasita que está sempre à procura de novas "terras virgens" para se expandir, atrás de oportunidades irregulares de lucro, em vez de ser guiado por um objectivo constante." E existe um outro problema. "Já consumimos 50% mais do que o nosso planeta, a nossa casa, nos pode fornecer sem perder a capacidade de auto-reposição. Se China, Índia, Brasil e outros países seguirem esse exemplo, alcançando o mesmo nível de consumo que se pratica no Ocidente, precisaremos de cinco planetas. Temos duas possibilidades, e apenas duas. Uma é entrar numa era de guerra pela redistribuição - de comida e de outros recursos indispensáveis para manter o estilo de vida da sociedade consumista. A outra é reformar o mesmíssimo estilo de vida porque, no fim de contas, existe mais do que uma forma de se ser feliz, de nos sentirmos gratificados e de termos uma vida digna."

O futuro é agora

Como dizia Almodóvar no ano passado, se não queremos esgotar os recursos do planeta, teremos de privilegiar outras formas de satisfação e o desenvolvimento de uma vida interior plena. "Não se trata de nos instalarmos na ascese", dizia, "mas de procurar outras formas de satisfação para lá do consumo, como a aprendizagem em todas as idades, seja através da ciência ou da cultura que cria solidariedade entre as pessoas, que é do que necessitamos agora." Ou como reflectia o escritor Amin Maalouf em Um Mundo Sem Regras (Difel, 2009): "O conhecimento é um universo infinito, todos podemos aprofundá-lo que nunca o esgotaremos. Melhor: quanto mais o aprofundarmos, menos esgotaremos o planeta."

O ensaísta George Steiner aponta na mesma direcção, proclamando "que o grande desafio da Europa hoje não é de natureza económica ou militar, mas é um desafio espiritual e intelectual." Não se trata apenas de estabelecer um novo modo de funcionamento económico e financeiro e de corrigir desregramentos. Para ele a União é o exemplo de uma utopia que se realiza, prova de que as visões mais ambiciosas não são fatalmente ingénuas.

Ou seja, a unidade europeia não pode ser apenas consequência do cálculo e da racionalidade económica. Mas se os europeus necessitavam de uma situação de emergência para se mobilizar, ela está aí. Di-lo o historiador alemão radicado nos Estados Unidos Walter Laqueur, autor de Depois da Queda: O Fim do Sonho Europeu (2012), que há muito defende que o euro não deveria ter sido criado sem um governo unificado responsável pela sua coordenação. Hoje proclama que "a solidariedade e o sentimento europeu podem desenvolver-se se impulsionados pela necessidade ou pela pressão política e económica": "Só mesmo uma crise que ameace a sua existência fará a Europa mexer-se."

Nas crises, os indivíduos, os grupos ou as nações tendem a proteger os seus interesses em vez de manifestarem solidariedade ou generosidade, "mas o futuro não está escrito de antemão", diz-nos Bauman. "Cabe-nos construí-lo com audácia, generosidade e sensatez. Há escolhas políticas, sociais e culturais que podem ser feitas, mesmo quando parecem irreversíveis no sentido contrário ao que desejamos." Num mundo interdependente essa poderá ser mesmo uma questão de vida, ou de morte, comum.

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