Só se fala de Hugo Chávez na campanha eleitoral da Venezuela

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Horas antes do início oficial da campanha Capriles marchou pela paz em Caracas Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Candidatos Nicolás Maduro e Henrique Capriles anteciparam-se ao tiro de partida da Comissão Nacional Eleitoral

Milhares de apoiantes do governador do estado de Miranda e candidato de centro-direita à presidência da Venezuela, Henrique Capriles, anteciparam-se ao relógio eleitoral e horas antes do tiro de partida para o arranque oficial da campanha presidencial saíram à rua em Caracas para protestar contra a falta de segurança e exigir medidas para travar o aumento da criminalidade no país, que em 2012 registou mais de 16 mil homicídios.

Capriles encabeçou o cortejo, que não estava oficialmente designado como um acto de campanha. No entanto, só os mais distraídos poderiam achar que o seu envolvimento na marcha pela paz Juntos Sem Medo era uma coincidência: as sondagens mostram que a segurança é a principal preocupação dos eleitores que irão às urnas no próximo dia 14 de Abril.

"Queremos construir um país onde se pode caminhar sem medo. Os venezuelanos querem andar na rua de noite, querem voltar a usufruir do espaço público", declarou o concorrente da Mesa da Unidade Democrática, que na eleição de Outubro contra Hugo Chávez obteve 44% dos votos.

Também o candidato que a imprensa designa como "oficialista", Nicolás Maduro, furou o calendário do Conselho Nacional Eleitoral, participando num evento do Foro de São Paulo apresentado como uma homenagem ao seu mentor político Hugo Chávez, mas que se converteu num festival de elogios e apelos ao voto no Presidente em exercício e candidato do Partido Socialista Unido da Venezuela.

Lula vota Maduro

O momento alto da reunião extraordinária dessa organização latino-americana de partidos e movimentos de esquerda acabou por ser uma mensagem de vídeo enviada por Lula da Silva. Sem querer "interferir num assunto interno da Venezuela", o ex-Presidente brasileiro assinalou os sucessos das políticas chavistas na diminuição da pobreza e das desigualdades e apontou as "afinidades" pessoais e ideológicas de Maduro com o falecido líder. "Maduro Presidente é a Venezuela que Chávez sonhou", considerou Lula, num slogan imediatamente recuperado pela campanha de Maduro.

Na realidade, o duelo eleitoral começou logo após as cerimónias fúnebres de Hugo Chávez, que governou a Venezuela durante 14 anos e morreu a 5 de Março, sem chegar a tomar posse para um quarto mandato consecutivo. Desde esse dia e até ontem, Maduro realizou 26 "actividades eleitorais" e Capriles realizou "assembleias cidadãs" em 16 estados, nota o diário El Nacional.

A figura do falecido Presidente domina completamente a paisagem política e eleitoral venezuelana: o seu retrato está em painéis colocados por todo o país e o seu exemplo é evocado a cada frase por ambos os candidatos - segundo o sitemadurodice.com, o Presidente em exercício evoca o nome de Chávez mais de 200 vezes por dia; Capriles desvaloriza Maduro como uma "pálida imitação" do original: "Nicolás, tu não és Chávez!", ataca.

A estratégia de Capriles contra Maduro está nos antípodas daquela que seguiu contra Chávez em Outubro. A parcimónia de então deu lugar à agressividade e clara hostilização do adversário, com o centrista a comparar a campanha a uma luta de David contra Golias.

Embalado pela vantagem de 14 pontos nas sondagens, Maduro está confiante na vitória e desafiador. "Por mais que você grite, burguesinho, paranóico, obcecado, no dia 14 de Abril não vou deixar de o depenar", respondeu.