Dar voz a Clarice

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Em cima, a primeira sala da exposição com flashes da obra da romancista. Em baixo, uma fotografia do olho de Clarice, que tinha "olhos de piscina", como escreveu o escritor e cronista Rubem Braga, e a sala onde o visitante ouve a sua voz FOTOS: ENRIC VIVES-RUBIO

A exposição A Hora da Estrela sobre Clarice Lispector pode ser visitada a partir de sexta-feira na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Tal como a escritora, é intimista e sedutora

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo", escreveu em A Descoberta do Mundo. "... E descobri que não tenho um dia-a-dia. É uma vida-a-vida.", acrescentou em Água-Viva. Na exposição A Hora da Estrela, que sexta-feira abrirá na galeria de exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, só a escritora Clarice Lispector (1920-1977) fala.

"A nossa intenção era que só Clarice falasse. Tanto que na exposição não tem nenhum texto de abertura, nem de curadoria, nem de nenhuma outra pessoa", explica Julia Peregrino que com o poeta e Prémio Camões 2010, Ferreira Gullar, assina a curadoria da mostra que pode ser visitada até 23 de Junho.

É através de frases, pequenos textos, fotografias, cartas, manuscritos e documentos que a autora de Perto do Coração Selvagem nos é revelada. Logo à entrada, e de propósito para a instalação portuguesa, foi colocado um painel com a crónica Declaração de Amor, a pedido do filho da escritora, Paulo Gurgel Valente. "Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável.", declara Clarice, que nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil muito pequena. "Eu queria que a língua chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm." Tudo o que se segue é a demonstração deste amor à literatura. A exposição que chega agora a Lisboa, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal, foi visitada por mais de 700 mil pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Bogotá. Não tem nenhum carácter biográfico, pelo contrário. Quer mostrar que Clarice era a "mulher das ideias, da cabeça, da imaginação", como nos diz Daniela Thomas que fez a cenografia com Felipe Tassara.

Os curadores quiseram mostrar flashes da obra da romancista, contista e jornalista brasileira. Por isso a exposição é toda feita de frases retiradas da sua obra, mas que fazem sentido retiradas do seu contexto. O objectivo é "deixar no espectador a curiosidade sobre Clarice para ele ir buscar o restante à obra", explica ontem Julia Peregrino durante a visita para a imprensa. Nos lugares por onde já passou a exposição ouviram visitantes a dizer: "Ai, vou ter que ir comprar aquele livro" ou "Ela escreveu aquilo para mim, tenho a certeza disso!".

Na primeira sala, que Ferreira Gullar baptizou Dizer o indizível, está uma fotografia do olho de Clarice - que tinha "olhos de piscina" como escreveu Rubem Braga - e a frase que sintetiza a abertura da exposição: "Ver é pura loucura do corpo" (in Água-Viva). "A imagem da Clarice está muito ligada ao mito dela. Ela era muito bonita, muito ciosa dessa beleza e o rosto dela era fascinante. Mesmo depois do incêndio - que a deixou desfigurada, tinha essa beleza extraordinária. Nesta sala, temos a imagem dela e trechos que mostram o seu contínuo questionamento sobre a língua e sobre si mesma", diz Daniela Thomas. Nas projecções na parede as frases têm vários tamanhos de letra, parecem quase "sussurros" para o espectador.

O espaço seguinte é uma alusão ao livro A Paixão segundo G. H. que se passa todo dentro de um quarto de empregada e é emblemático na sua obra. "Neste romance de poucas páginas uma dona de casa enfrenta uma barata: é o Kafka brasileiro", diz Daniela. "É um livro sobre uma mulher de classe média num apartamento no Rio de Janeiro, a coisa mais normal possível e ela consegue transformar isso num épico", acrescenta. "Trabalhamos a ideia de que com Clarice um apartamento pode virar um corpo e as paredes podem ter ranhuras. Tentámos de alguma forma mostrar isso como se fosse quase uma cicatriz." Por isso nas paredes do quarto branco, estão gravadas através de laser na madeira frases seleccionadas pelos curadores por causa da sua ligação ao quotidiano. No meio, um colchão representa a cama onde a escritora estava quando adormeceu a fumar e provocou um incêndio de que saiu ferida. No colchão, lê-se: "A única salvação de um ser humano é a alegria", e isto é a escritora falando sobre a morte. Ali ao lado, outro espaço branco com a projecção de um filme em que se vê uma barata agonizar durante minutos e a morrer.

Mais à frente, numa outra sala da galeria da Gulbenkian, surgem as únicas imagens em movimento que existem de Clarice Lispector, que não gostava de ser fotografada nem de dar entrevistas. É uma entrevista que deu à TV Cultura em Fevereiro de 1977, e que a seu pedido só foi para o ar depois da sua morte, em Dezembro desse ano. A conversa está disponível no YouTube mas a novidade é que a cópia da exposição é restaurada, e por sugestão de Daniela e de Felipe Tassara, foi retirado do vídeo a voz do entrevistador, o repórter Julio Lerner, para dar a ideia de que "Clarice fica falando com cada um que entra na sala" que está mobilada com um tapete, alguns bancos, um sofá e uma réplica da máquina de escrever que a escritora utilizava. "É uma alusão à forma dela trabalhar, ela gostava muito de sentar no sofá, botar a máquina no colo e com isso ficava perto dos filhos também", explica Julia Peregrino avançando já para um cubo iluminado onde estará representado, numa espécie de mapa, o percurso geográfico que a escritora fez em vida desde que nasceu na Ucrânia numa família judia até à sua morte no Rio de Janeiro.

O quarto dos segredos

"Clarice escrevia em qualquer pedaço de papel", continua a explicar Julia Peregrino ao chegar à última sala, uma das mais impressionantes. As paredes estão cobertas do chão até ao tecto por 1089 gavetas, das quais 35 têm uma chave e abrem.

Lá dentro, protegidos por vidro, estão documentos pessoais - cartões de identidade, passaportes, a carta que escreveu ao Presidente Getúlio Vargas a pedir a nacionalidade brasileira, cartas de amigos e escritores (Erico Veríssimo, Drummond de Andrade, Mario Sabino, etc.), listas, recados e manuscritos que mostram um pouco o processo de criação da autora brasileira. Estes documentos só costumam estar acessíveis a investigadores, pertencem ao acervo Clarice Lispector na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, ao Arquivo Nacional e ao seu filho.

Como em exposições a relação do público com documentos pessoais do escritor é sempre muito árida - os documentos estão sempre em vitrinas - Daniela Thomas e Felipe Tassara quiseram transformar essa experiência numa experiência mais emocional e sedutora. "O que sente um pesquisador quando entra nos arquivos de alguém?", pergunta Daniela. E responde: "A sensação da descoberta, da investigação, de se entrar num lugar onde você vai ver coisas que não foram feitas para serem vistas (coisas pessoais, rabiscadas, reescritas)." E é isso que quiseram transmitir ao visitante. Partiram da ideia de que "quando se lê uma obra de Clarice Lispector é como se ela abrisse gavetas no cérebro da gente", explica Julia Peregrino, que considera a cenografia da exposição intimista, "tal como Clarice era" e ao mesmo tempo com momentos de muita luz. "Como dizia uma grande arquitecta brasileira, didáctico é comover, não é ser literal", concluiu a curadora. E Clarice Lispector - A Hora da Estrela comove.