Jesús Franco (1930-2013): morreu o autor das Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa

Especialista espanhol do cinema de série Z assinou duas centenas de filmes em 50 anos de carreira

Foto
Ao receber o Lifetime Achievement "Goya", em 2009 PEDRO ARMESTRE/AFP

Nem ele próprio sabia quantos filmes rodou – embora isso pouco interessasse porque não gostava de quase nenhum deles e nem sequer os viu todos. Mas Jesús Franco Manera, falecido esta manhã em Málaga aos 82 anos, está no Livro Guinness dos Recordes como o autor de cerca de duas centenas de filmes, assinadas com o seu próprio nome ou com pseudónimos como Jess Frank, Jess Franco, Clifford Brown ou James P. Johnson.

Uma delas é particularmente conhecida do público português – as infames Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa (1977), a célebre perversão das cartas de Mariana Alcoforado em filme de terror erótico soft-core com Ana Zanatti no papel de uma madre superiora satânica e Herman José em príncipe salvador.

É um bom exemplo do tipo de filme que fez de Jesús Franco uma “lenda viva” nas zonas menos respeitáveis do cinema de género: fitas eróticas ou de terror rodadas a despachar por tuta e meia para exploração em salas de bairro, que raras vezes faziam sequer sentido narrativo (o argumento, muitas vezes, era improvisado no plateau...). Franco rodava tão depressa que podia estrear meia-dúzia de filmes num ano – muitas vezes deixando aos produtores a tarefa de os montar, visto que, como disse em vida, era mesmo de rodar que gostava. 

Contudo, nada previa que Franco viesse a ganhar a vida a fazer filmes xunga. Estudou no Conservatório Real de Madrid (o seu primeiro amor foi a música, e o jazz forneceu-lhe alguns dos pseudónimos que utilizou) e no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos parisiense. Os seus primeiros filmes estavam longe de ser obras de género, mas a sua primeira incursão no cinema de terror, Gritos en la Noche (1962), foi aclamada pela crítica como uma lufada de ar fresco no cinema espanhol sob o regime franquista e comparada, por exemplo, a Jean-Luc Godard.

Valeu-lhe o interesse de Luís Buñuel e o convite para assistir Orson Welles durante as rodagens de As Badaladas da Meia-Noite (1965) e do seu D. Quixote (do qual proporia em 1992 uma montagem de parte do material filmado). Christopher Lee, um dos muitos actores de prestígio que rodou com Franco em produções europeias baratas, dele disse ao crítico Glenn Kenny “não ser um homem inteiramente desprovido de talento”. E Fritz Lang ter-lhe-á dito que o seu Succubus (1968, mais conhecido pelo título Necronomicon) era um dos seus filmes preferidos.

 Durante muito tempo considerado um cineasta menor ou indigno, Franco começou a ser reavaliado na sequência do interesse de críticos e académicos pelo cinema marginal de série Z (que viu também a redescoberta do francês Jean Rollin, por exemplo), que nele viam uma profunda liberdade criativa e recusa das regras convencionais onde muitos outros apenas viam um tarefeiro incompetente e desinteressado. Alvo de dois documentários biográficos nos últimos anos, o cineasta havia estreado há poucos dias a sua última realização, Al Pereira vs the Alligator Ladies.