Candidatos à carreira diplomática criticam teste "obscuro" do MNE

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Paulo Portas

O MNE não comentou as acusações dos candidatos a diplomatas. As provas para entrada na carreira criaram estranheza e polémica

O exame de cultura geral para ingresso na carreira diplomática, no qual participaram mais de 2000 candidatos no dia 16 de Março na Faculdade de Direito de Lisboa, lançou a polémica. Alguns dos participantes criticam a ausência no teste, da responsabilidade do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), ocupado pelo líder do CDS, Paulo Portas, de perguntas sobre tratados internacionais, História de Portugal, Geografia ou até regras de etiqueta.

Num post intitulado As necessidades do Trivial Pursuit, publicado no blogue Estado Sentido, três dos candidatos à categoria de adido de embaixada, que se realizou pela primeira vez em substituição de um teste psicotécnico, questionam "as opções de resposta algo obscuras". Argumentam que a prova não serviu o objectivo de selecção de potenciais diplomatas porque passou ao lado de "dados históricos" essenciais.

"Sentiu-se a dor de um vácuo no que concerne a perguntas sobre o Renascimento, História da fundação de Portugal, História do Estado, Geografia a sério (apenas duas questões do mais trivial possível), etiqueta", lê-se no texto.

Contactado pelo PÚBLICO, um dos autores do blogue e candidato ao concurso do MNE, Samuel de Paiva Pires, critica o facto de o regulamento do exame ser "extremamente vago, sem qualquer matriz de matérias para estudar", ao referir apenas que seriam avaliados "conhecimentos dos candidatos em diversas áreas, podendo incluir questões sobre História, Geografia, Economia, Arte e Cultura, e Política Internacional".

O também investigador do Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP-UTL explica que "foi com um misto de espanto e surpresa que a maioria reagiu ao ser confrontada com um teste composto por muitas perguntas rebuscadas e temáticas que não foram mencionadas no regulamento".

E dá alguns exemplos: "Perguntava-se por que ficou conhecida D. Filipa de Vilhena, de quem é a frase "Como é diferente o amor em Portugal", em que autor é que Eça de Queirós se inspirou para escrever o seu primeiro romance, quem foi o compositor da "sinfonia inacabada", o que é um amigo do alheio, quem realizou O Pai Tirano e, viajando da Terra a Úrano pelo caminho mais curto, qual seria o planeta por que passaríamos."

Samuel Paiva Pires não discorda de que um futuro diplomata seja capaz de manter uma conversa sobre temas variados, que possam ir da "gastronomia" ao "cinema", passando pela até pela "astrologia", mas insiste na necessidade de um primeiro teste de selecção ter outro foco. "Poderá dizer-se que, sob a definição de cultura geral, tudo cabe. Mas cultura geral remete para relevância e pertinência", insiste.

A polémica à volta do exame levou também o ex-embaixador Francisco Seixa da Costa a escrever no seu blogue Duas ou Três Coisas que o modelo de prova que sentava o candidato diante de um júri, numa conversa de cerca de 20 minutos, permitia aferir se ele tinha ou não condições para a diplomacia.

"Quem tem a pretensão de vir a representar Portugal pelo mundo deve possuir uma razoável cultura geral, bem para além das temáticas da profissão. Resta saber se é a através de testes americanos, e especificamente dos que foram aplicados, que isso se avalia", escreve Francisco Seixas da Costa.

Sem que haja uma data prevista para a publicação dos resultados, este e outros candidatos estão curiosos para saber quantos passarão à segunda fase do concurso do MNE, que consiste numa prova de língua portuguesa. São necessárias 60 respostas correctas no total de 93 questões. O PÚBLICO tentou obter uma reacção do MNE, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.