O fim do caminho?

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Como é que se sai daqui? É muito difícil. Sem a Europa, será, porventura, impossível

1. Talvez seja vantajoso começar esta crónica lembrando o que se passou de mais importante fora das fronteiras da crise europeia. A Coreia do Norte, liderada por mais um louco, multiplica as ameaças à segurança mundial. Corta os canais de comunicação com o Sul. Aponta os mísseis aos Estados Unidos. Ignora (aparentemente) as tentativas de Pequim de acalmar o jogo. Claro que é difícil de acreditar que a loucura atravesse o ponto de não retorno. Mas as movimentações do regime servem para lembrar que a Ásia oriental tem hoje o potencial para ser uma ameaça à segurança internacional. E não apenas por causa da Coreia do Norte. A primeira responsabilidade para lidar com a turbulência cabe, naturalmente, aos Estados Unidos. Mas a Europa não pode olhar para o lado.

Em Durban, os líderes dos BRICS voltam a reunir-se em torno de um ponto comum - como modificar o equilíbrio de poder mundial a seu favor, aproveitando aquilo que vêem como um inexorável declínio ocidental. Há, naturalmente, alguns interesses comuns, para além deste. Por exemplo, em relação a África, entre a China e o Brasil (envolvendo a África do Sul e até Angola). Mas é ainda imenso o que os separa, do ponto de vista político. As grandes democracias que integram os BRICS (Brasil e Índia) ainda não se habituaram a olhar para o sistema internacional do ponto de vista da sua responsabilidade democrática apenas na perspectiva do seu lugar no mundo. Mais tarde ou mais cedo, mudarão de agulha. A China olha-se a si própria de modo diferente - a única potência com arcaboiço para ombrear com os Estados Unidos. A Rússia não é uma potência emergente mas encontra nos BRICS uma forma de se manter na liga dos mais poderosos. A ideia de criar um Banco de Desenvolvimento (uma espécie de sósia do Banco Mundial) deu mais um pequeno passo em Durban, mas está muito longe da concretização. Vale a pena recordar que os cinco países representam 45 por cento da população e 21 por cento do PIB. A Europa e Estados Unidos, com apenas 800 milhões, ainda representam 50 por cento da riqueza. O que é impressionante é o facto de os BRICS terem multiplicado por três a sua parte em 15 anos.

A crise de Chipre, entretanto, fez-nos voltar a olhar para a Rússia, que teve na década passada um lugar permanente na agenda europeia (quando a Europa ainda creditava na ocidentalização da Rússia) e que, depois, se foi progressivamente apagando, com o regresso de Putin ao Kremlin, substituindo o "modernizador" Medvedev. Claro que a Rússia continua a precisar dos mercados europeus para vender bem a sua energia. Claro que a Alemanha é o seu maior investidor e a Rússia o terceiro parceiro comercial da Europa. Mas isso não é tudo. Putin, dizem os analistas, olha para a Europa como uma região em declínio e quer jogar no campeonato asiático. A dependência energética europeia (ao contrário dos EUA, que devem garantir a sua independência em meia dúzia de anos) ainda não desapareceu. A Alemanha tem o seu Northstream, que tanto deu que falar. A União continua a não ter uma agenda para a Rússia nem para a segurança energética. A incapacidade de pensar estrategicamente revela-se em toda a sua extensão.

2. Entretanto, a crise de Chipre fazia de novo abanar fortemente os alicerces da integração europeia. A hegemonia alemã torna-se, pelas boas e pelas más razões, cada vez mais incómoda. E cada vez mais abertamente contestada. A França parece juntar-se aos que já desapareceram em combate. Chovem as acusações mútuas em termos que nunca imaginámos como possíveis depois de décadas de integração. As divisões e a desconfiança entre o Norte e o Sul, para cujo risco muita gente está a avisar há já bastante tempo, cavam-se a um ponto inimaginável. Enquanto os alemães choram os euros que estão a pagar para salvar o Sul, as taxas de juro da dívida alemã voltam a descer para valores próximos de zero, fazendo a Alemanha ganhar imenso dinheiro à custa da desgraça dos outros. Mas não a mudar de ideias.

Já se sabia que as grandes decisões sobre o futuro da zona euro só serão tomadas depois das eleições alemãs. A dúvida que esta última crise veio colocar é se vai haver mesmo grandes decisões. A união bancária, diz Paul de Grauwe, numa entrevista ao Expresso, acaba de ser enterrada pela forma como a crise de Chipre foi regida. O holandês que dirige o Eurogrupo (não se sabe por quanto tempo...) diz que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (que poderia capitalizar directamente os bancos em dificuldades) está lá para não ser utilizado. Finalmente, como muita gente já explicou, a solução encontrada para Chipre, incluindo o controlo de capitais, mostra que passou a haver dois euros.

3. Dito isto, regressemos ao nosso recanto ocidental, onde tudo o que pode correr mal está a correr mal. Estamos à beira de uma crise política de efeitos absolutamente imprevisíveis no actual quadro europeu. O Governo parece não ter já a força anímica para mudar de agulha em face dos resultados da sua estratégia falhada para tirar o país do buraco. Aparentemente, não sabe como lidar com uma eventual decisão do Tribunal Constitucional que seja desfavorável. A coligação divide-se, com os ratos a abandonar o navio enquanto não vai ao fundo. O Partido Socialista resolveu encetar uma fuga para a frente, anunciando uma moção de censura que defende eleições antecipadas. E depois? O Presidente - e esta é, talvez, a questão mais grave - tem a sua margem de manobra (no caso de querer manobrar) cada vez mais limitada, fala por enigmas que ninguém percebe e não consegue sequer recuperar nas sondagens, apesar da escassa popularidade do Governo e da falta de confiança no PS.

Foi neste clima de desastre que José Sócrates resolveu aterrar com o propósito de ajustar contas com muita gente. Não vale sequer a pena dedicar muito tempo à sua performance televisiva, onde disse várias coisas que são verdadeiras e muitas outras que são apenas a sua própria interpretação da verdade. E, sobretudo, onde esteve igual a si próprio, como se nada se tivesse passado entretanto, sem o mínimo sinal de distanciamento ou de reflexão. Vai ser um grande perturbador. Embora não se veja ainda com que vantagens. Mas o que disse avivou a memória.

Como dizia um amigo meu, é preciso nunca nos esquecermos que a elite portuguesa estava do lado de Castela na batalha de Aljubarrota. A elite actual, às vezes, não parece ser muito melhor. Quando José Sócrates fazia (mesmo que mal) todos os esforços que um primeiro-ministro deve fazer para evitar a intervenção externa da União Europeia e do FMI, a intelectualidade bem pensante babava-se com a perspectiva da vinda do FMI. Sócrates tinha uma pequena abertura que quis forçar, e que esteve quase a forçar, com a ajuda de Barroso e do BCE. Toda a gente que acompanhou os meses anteriores ao resgate sabe que foi assim. O seu erro não foi esse. Foi ter ignorado os avisos daqueles que lhe disseram que era preciso inverter o caminho logo que rebentou a crise da Grécia. Perdeu muito tempo e acabou por descolar da própria realidade. Quando os homens do BCE e da Comissão lhe vieram cá dizer o que tinha de ser feito, já era demasiado tarde.

Em contrapartida, o resgate era a maneira mais rápida para o PSD de Passos Coelho chegar ao poder e a maneira mais fácil de pôr em prática um programa económico e social que, de outra maneira, seria inaceitável. O programa da troika era o seu programa. Foi essa a aposta de Passos. Os resultados, tal como com Sócrates, falharam rotundamente.

Como é que se sai daqui? É muito difícil. Sem a Europa, será, porventura, impossível. E a Europa dá-nos todos os dias mais uma razão para preocupação. O risco é que o passo seguinte comece a ser o debate sobre a saída do euro.

Jornalista. Escreve ao domingo