Antiga sinagoga na Madeira descoberta um século depois

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O cemitério judaico (hoje ao abandono) na Rua do Lazareto, sobre a falésia do Toco: numa gravura de 1934 e num fotografia actualDirigido por Marvin, cantor litúrgico (aqui no interior da sinagoga), o Seder congregou no Funchal 20 judeusMarvin e a sua mulher, Danby, junto à sinagoga, que é muito semelhante à de Lisboa (foto ao lado), projectada por Ventura Terra Carlos Lopes/Arquivo

Judeus Bnei Anussim deslocaram-se à Madeira para celebrar o Seder de Pessach, a páscoa judaica, num acto raramente vivido nas últimas décadas na ilha.

A Sinagoga do Funchal, localizada no centro da capital madeirense, é desconhecida da generalidade dos madeirenses. Não faz parte dos guias turísticos, nem sequer é edifício classificado, apesar das invulgares características hoje apenas patentes na fachada principal e que denunciam ter sido projectada por Ventura Terra, o arquitecto da Sinagoga de Lisboa e autor do plano de urbanização e modernização da cidade de Funchal, também executado no primeiro quartel do século XX.

"Esporadicamente vêm aqui alguns judeus, para visitar a sinagoga", revela Catarina Dantas, arquitecta e actual proprietária, com seu irmão Rodrigo, do edifício com número de porta 33, à Rua do Carmo. No seu interior não há vestígios do outrora lugar de culto. Ao nível do rés-do-chão estão instaladas uma loja de decoração, no espaço antes ocupado por uma lavandaria, e uma pastelaria, a Estrela do Carmo.

"Porquê Estrela do Carmo? Dizem que é por causa da estrela que existe numa janela do prédio", conta Agostinho Ramos, sócio do estabelecimento comercial que comprou "há uns 30 anos com Agostinho Ribeiro". "Mas este bar já existe há uns 50 anos", frisa, confessando ignorar o significado da estrela, a Estrela de David, símbolo do judaísmo que domina a vidraça de uma das janelas da antiga sinagoga.

O período de construção, entre 1912 e 1914, reforça a hipótese de ter sido concebida pelo arquitecto Miguel Ventura Terra, pois coincide com a sua passagem pela Madeira, alguns anos depois de ter inaugurado a Sinagoga Judaica de Lisboa, de semelhante alçado. Com uma importante diferença: enquanto a Sinagoga Shaaré Tikva ("Portões da Esperança" em hebraico), situada na Rua Alexandre Herculano, foi construída num pátio amuralhado, porque na época a lei estabelecia que os templos não católicos não poderiam ter a sua fachada para a rua, a sinagoga do Funchal, construída já depois da implantação da I República, tem a fachada principal para a via pública, na Baixa citadina. Já nessa época, a Rua do Carmo, cuja origem está relacionada com a igreja dos carmelitas, a Igreja do Carmo, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, ia desde o Largo do Phelps, junto à igreja, até à Rua do Anadia.

Além das paredes mestras originais, a fachada é o que resta do antigo templo judaico, cujo interior sofreu alterações, nomeadamente a adaptação do piso térreo ao comércio e os pisos superiores a moradias, com licença de habitabilidade emitida pela Câmara do Funchal em 1951. Mas a construção da sinagoga, contígua ao antigo Reid"s Carmo Hotel, onde foi o Grémio dos Industriais de Bordados da Madeira e mais tarde o Cine Jardim, decorreu no início da segunda década do século passado.

Ventura Terra, arquitecto da sinagoga e do novo Funchal 
É nesse período, mais precisamente a 13 de Fevereiro de 1913, que Ventura Terra se desloca ao Funchal, convidado pelo município para "modernizar" a cidade. Em entrevista ao Heraldo da Madeira, o "ilustre homem do risco" deu a sua primeira impressão sobre a cidade, que considerou "ser bastante confusa, com ruas horrivelmente calcetadas, muito irregulares e acidentadas, uma cidade completamente destituída dos requisitos que faziam a formosura e a comodidade dos sistemas de viação das cidades modernas".

O arquitecto, profundamente influenciado pelo urbanismo dos boulevards de Paris onde havia estudado, efectuou um "plano de melhoramentos" para a capital madeirense, dividido em três fases: ao primeiro traçado fez corresponder aquilo que o Funchal permitia fazer, ao segundo correspondiam ruas largas e avenidas, era a transição para a terceira proposta, uma cidade a ser construída em 50 a 100 anos. As obras começam em 1912, com a construção do primeiro troço da Avenida Arriaga, mesmo antes do plano definitivo ser entregue à Câmara do Funchal, o que só viria a acontecer em 1915.

Embora não conste da lista de obras emblemáticas de Ventura Terra (1866-1919) - várias vezes distinguido com o Prémio Valmor e autor da reconversão do edifício das Cortes na Câmara dos Deputados e Parlamento, Palácio de S. Bento, do Teatro Politeama, Banco Lisboa & Açores, Palacete Valmor, Maternidade Alfredo da Costa e Sinagoga Shaaré Tikvá, em Lisboa -, a existência da sinagoga do Carmo é vagamente referenciada por membros da comunidade judaica no estrangeiro.

"Sabemos que aqui existiu, mas consideramos inimaginável que nunca tenha sido objecto de estudo e que não seja do conhecimento público local", confessou ao PÚBLICO Marvin Meital, responsável pela celebração do Seder de Pessach, uma das raras vivências colectivas da páscoa judaica das últimas décadas ocorrida esta semana na Madeira.

Dirigido por Marvin, hazan ou cantor litúrgico do judaísmo preparado para guiar a recitação das orações nas sinagogas, o Seder congregou num hotel do Funchal 20 judeus, na maioria provenientes de Israel, com ligação à comunidade Bnei Anussim. Para ao jantar desta celebração que foi apoiada pela Shavei Israel, a organização judia sediada em Israel, foi trazido "a matzá [pão ázimo] e outros alimentos kosher [que obedecem à lei judaica], a que [se juntaram] legumes adquiridos no mercado local", revela.

Enquanto para o judaísmo, a festa de Pessach evoca a libertação do povo de Israel no Egipto, no cristianismo a Páscoa representa a libertação de todos os que estavam separados de Deus pelo pecado, regenerados pela morte e ressurreição de Cristo, sublinha aquele professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, doutorado em Linguística e Línguas Neolatinas. "Foi uma vivência familiar, com a participação das crianças, em que também se reflectiu sobre as amarguras da actual escravidão e os caminhos para a gloriosa liberdade", revela Marvin, dois dias depois do Seder celebrado segunda-feira no Funchal, durante uma visita à antiga sinagoga acompanhada pelo PÚBLICO.

"Desconheço por completo a existência dessa sinagoga", confessa Jorge Valdemar Guerra, autor do rol de judeus e seus descendentes, editado pelo Arquivo Regional da Madeira em 2003. Na publicação deste manuscrito existente no arquivo da família Ornelas Vasconcelos, aquele atento estudioso da história da Madeira aborda "o papel, de alguma forma relevante, desempenhado pelos judeus na economia insular - já particularmente activos na ilha por meados de Quatrocentos - e depois prosseguido, agora sob a nova capa, pelos cristãos-novos após a sua forçada conversão".

Guerra faz também menção às "vicissitudes sofridas por uma significativa parcela daquela comunidade, considerada criptojudaica pelo Tribunal do Santo Ofício", em consequência da visita inquisitorial realizada em 1591/2 à ilha da Madeira. À perseguição terão então procurado escapar alguns novos cristãos que se refugiaram num recôndito sítio de São Vicente, baptizado como Achada dos Judeus, onde deixaram inscrições em hebraico. Em finais do século XVI foram arrolados 94 cristãos-novos, registando-se 37 prisões por judaísmo entre 1591 a 1601. Em 1618 o seu número não passou de cinco.

A "arianização" na Madeira e a memória sepultada
Três séculos depois, elementos da comunidade alemã de origem hebraica, estabelecidos e integrados na Madeira, viram-se também confrontados com intolerável perseguição, desta vez exercida por compatriotas seus motivados pela "lei da protecção do sangue alemão e da honra alemã", promulgada pelo Governo do III Reich em Setembro de 1935. O drama - quase desconhecido - da "arianização" na Madeira e das tentativas de resistência impotentes, ocorridas nos alvores da II Guerra Mundial, foi revelado por Anne Martina Emonts numa investigação publicada na revista madeirense Islenha, em 2000, tendo sido recuperado por Helena Marques no romance O Bazar Alemão, editado em 2010.

"Foi algo terrível, pérfido, que afectou várias pessoas, mas que atravessou silenciosamente a história. Quando conheci a investigação, senti que tinha o dever moral de escrever sobre isso, de contar a forma como as situa? ?ões políticas e sociais afectam os indivíduos banais, mesmo num lugar remoto e paradisíaco como uma ilha no meio do Atlântico", afirma a escritora e jornalista, que neste livro cruza a história real dos Beckmann com personagens fictícias, tendo por cenário a cidade onde também viveu.

Os túmulos das personagens alvo da "arianização", assim como de algumas das pessoas que as ajudaram em tempos difíceis, encontram-se no cemitério judaico, existente na Rua do Lazareto, sobre a falésia do Toco, no Funchal. Rui Santos, num bem documentado estudo sobre este cemitério, publicado em 1992 na referida revista Islenha, identificou 38 sepulturas entre 1854 e 1976, ano em que ocorreu o último enterramento, com D. Joana Abudarham da Câmara.

A instituição deste cemitério, por iniciativa de personalidades de relevo desta comunidade, principalmente da família Abudarham, "denota o progresso da sociedade portuguesa no que diz respeito à tolerância religiosa, fruto, essencialmente, da política do Marquês de Pombal e, mais tarde, dos liberais vintistas que extinguiram o infame Tribunal do Santo Ofício, responsável pela perseguição, tortura e morte de muitos judeus, ao longo de mais de dois séculos", considera Nélson Veríssimo, historiador e docente da Universidade da Madeira.

A verdade é que hoje, pelo estado de abandono a que está votado, com viçoso matagal a encobrir as sepulturas e muitas lápides danificadas ou irrecuperáveis, poder-se-ia "afirmar constituir infeliz exemplo da falta de civismo", lamenta o historiador. Devido à degradação do cemitério, a Câmara do Funchal propôs a transladação do espólio para uma ala própria no Cemitério de S. Martinho, mas o projecto "não avançou devido ao desinteresse da comunidade judaica e da embaixada de Israel", revelou o vereador Costa Neves.

A continuar este estado lamentável do cemitério classificado, desde 1993, como Património Cultural da Região, "perder-se-ão, por completo, testemunhos ímpares da memória de muitos homens notáveis que, por circunstâncias diversas, se fixaram e morreram na ilha da Madeira", adverte Nélson Veríssimo. Aqui, sublinha, "pode documentar-se a procura do Funchal como estância terapêutica ou como refúgio à perseguição nazi e à Segunda Guerra Mundial".