Vale tudo

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De repente, os políticos resolveram emigrar para a televisão às manadas. Pior ainda: não se trata de um ou outro obscuro deputado ou de um secretário despedido por inépcia ou conveniência. Os políticos que hoje "comentam" e "debatem" o que se passa, ou não passa, no país são quase todos personagens de grande importância ou de grande estatuto. Vejam só: Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, António Lobo Xavier, José Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite, Francisco Assis, Pedro Santana Lopes, Marques Mendes, Bagão Félix, Jorge Coelho, Francisco Louçã, Augusto Santos Silva, Miguel Beleza, Morais Sarmento e até, calculem, o retornado Sócrates. Só este grupinho chegava e sobrava para fazer sem esforço um governo ou dois e, no entanto, eles perdem o seu tempo pontificando nas dezenas de canais que por aí aparecem.

Mas não há mistério no caso. As televisões querem caras conhecidas, com algum prestígio, um aspecto agradável, uma voz simpática e um certo desembaraço a falar. Ora precisamente os políticos que "subiram" acabaram sempre por subir à custa dessas qualidades, em que se educaram e treinaram durante anos. Não custa por isso compreender a transferência. Na televisão, de resto, ganham muito mais do que na Assembleia da República ou num cargo oficial modesto; não têm qualquer espécie de responsabilidades; e com a popularidade que vão ganhando, estão em óptima posição para aproveitar as desgraças do governo. O negócio convém às duas partes. Para as televisões, audiências maiores trazem mais dinheiro. Para os políticos, nada substitui a campanha eleitoral permanente do "comentário".

Qual é o mal, então? Para começar, o mal é que as televisões reduzem os debates da Assembleia da República a uns segundos de gritaria. O mal é que os dirigentes do país passaram a ser escolhidos por entidades sem espécie de legitimidade e sem uma agenda conhecida e previamente discutida. O mal é que a televisão, por sua própria natureza, não serve, e nunca serviu, para explicar e discutir assuntos com um grau mínimo de complexidade ou para dar um quadro geral e completo de uma situação (da economia, das finanças, do país). E mal é também que os comentadores, sem que ninguém perceba, embrulhem em retórica os seus objectivos pessoais, uma habilidade que os jornais dantes não permitiam ou permitiam por muito pouco tempo. Na feira de hoje vale tudo.