O que é feito do jornalismo?

O regresso de Sócrates alertou para um sintoma da perigosa permeabilidade entre jornalismo e política

Vive-se em Portugal um fenómeno original: os políticos comentarem-se uns aos outros, entre pares. É vulgar os políticos no activo e em pousio - não importa - a comentarem a actividade política que é feita pelos próprios ou pelos seus iguais. O problema foi esta semana evidenciado com o regresso ao comentário político televisivo de José Sócrates, ex-primeiro-ministro que assim volta à ribalta política, num frente a frente semanal que o colocará face a Nuno Morais Sarmento, na RTP.

O regresso de José Sócrates tem sido muito comentado, não só porque vai ser comentador da televisão pública, mas também porque se permite voltar ao activo político, através do comentário político, apenas passados dois anos sobre a sua demissão de primeiro-ministro. O facto atingiu mesmo tais dimensões de projecção pública que a própria RTP fez uma entrevista a José Sócrates, que funciona como uma espécie de headline dos programas que passará a emitir com o ex-primeiro-ministro como comentador político.

É certo que há um sentimento de indignação que tem sido explorado neste regresso de José Sócrates à actividade de político-comentador-político e que se prende com o parco período de nojo que o distancia da sua saída do Governo. Tanto mais que o seu último Governo deixou como herança o acordo assinado com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, que permitiu o empréstimo de 78 mil milhões de euros ao Estado português.

Mas há um outro problema revelado pelo regresso de José Sócrates ao país e ao comentário político e que se prende não apenas com o ex-primeiro-ministro e ex-líder do PS, mas com um fenómeno que é a existência dos políticos-comentadores-políticos. Citando de memória alguns nomes, lembremos os políticos que vestem a pele de comentadores: Jorge Coelho, António Vitorino, Francisco Assis, João Soares, Augusto Santos Silva, Maria de Belém Roseira, Helena Roseta, António Costa, João Galamba, Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Pedro Santana Lopes, José Luís Arnaut, Paulo Rangel, Luís Montenegro, José Matos Correia, António Capucho, Ruben de Carvalho, Bernardino Soares, Francisco Louçã, Fernando Rosas, Catarina Martins, João Semedo, Bagão Félix, Teresa Caeiro, Telmo Correia, Nuno Melo, Lobo Xavier.

Este assunto tem a ver com o que é o cerne da democracia e revela-se como um sintoma de uma perigosa permeabilidade entre jornalismo e política, que contamina a essência do que deve ser a função do jornalismo numa sociedade democrática. Isto porque, quando o comentário político em Portugal é dominado, sobretudo no espaço das televisões, por políticos, ele deixa de ser comentário distanciado.

Ou seja, feito por observadores externos ao fenómeno político, mas com prática e conhecimentos de análise desse mesmo fenómeno político. Um papel que nos países democráticos é desempenhado por jornalistas, que se especializam em comentário político, depois de anos de exercício da profissão de jornalista nessa área de trabalho. Essa distância do fenómeno político é uma garantia não só de isenção, mas de apreciação desinteressada e alheia ao mundo da política, feita por agentes que lhe são externos e que se especializam na sua crítica.

A crítica do poder político feito pelos jornalistas, não apenas em comentário político, mas no próprio exercício da sua função de noticiar a actividade política, é essencial nas sociedades democráticas. E é o papel de consciência crítica da sociedade que caracteriza a função do jornalismo, desde que é assumido como um baluarte da defesa da liberdade, da igualdade e da dignidade humanas, pelo menos desde as revoluções americana (1776) e francesa (1789). Isto é, desde que existe poder político eleito que governa a sociedade em representação dos cidadãos - sendo que o conceito de cidadania tem evoluído desde então e tem-se tornado cada vez mais representativo e universal, com o reconhecimento do direito de voto a todas as pessoas.

Ora, a delegação do poder nos representantes não é feita de forma acrítica, os cidadãos têm de exigir responsabilidades àqueles a quem entregam a governação das suas vidas. E para poderem exercer essa crítica e esse questionar do poder existe o jornalismo. E o problema que se coloca hoje em dia em Portugal é precisamente o facto de esse papel de crítica e de questionamento não estar a ser exercido como deve ser exercido, pelos profissionais do jornalismo, mas pelos políticos que deviam estar a ser observados, criticados e fiscalizados pela sociedade. E esta inversão e usurpação do papel do jornalismo é uma forma de promiscuidade que envenena o exercício da democracia em Portugal.

Jornalista. Escreve ao sábado [email protected]