O homem da narrativa

Por enquanto, os objectivos do regresso de José Sócrates permanecem uma narrativa aberta

Afinal de contas, o que faz correr José Sócrates? O desejo de vingança, a necessidade de se relegitimar, um objectivo político? Qualquer uma destas hipóteses encaixaria no substantivo "narrativa", que o antigo primeiro-ministro repetiu até à exaustão. Se Luís XIV, o Rei-Sol, dizia "O Estado sou eu", José Sócrates dirá hoje "a narrativa sou eu". O mais singular, no entanto, é tão pouco ter mudado na história que José Sócrates tem para nos contar. Muito pouco do que ele disse na entrevista à RTP era novo, com excepção do ataque a Cavaco, da crítica ao Governo e da admissão que não devia ter formado um governo minoritário em 2009. Ao centrar o seu discurso no episódio do PEC IV, que levou à queda do seu Governo, esqueceu deliberadamente tudo o que estava para trás, a forma como a situação se foi deteriorando desde 2008. E como ele, enquanto chefe do Governo, ignorou sistematicamente os sinais dessa deterioração e foi incapaz de construir consensos. A força da "narrativa" de Sócrates é explorar a forma como os adversários o consideram o único culpado de todos os males, que ele obviamente não é, permitindo-lhe assim iludir as suas responsabilidades. O político ressentido e amargo que a RTP entrevistou não mudou nada em relação ao tempo em que governava pela imagem. Para Sócrates, a política resume-se a projectar a sua persona num ecrã virtual onde as outras narrativas não são bem-vindas. Visará mais do que um objectivo no seu regresso a este jogo. O ajuste de contas, em primeiro lugar, como Cavaco ficou a saber. E também falar como alguém que consegue ter uma maior capacidade congregadora entre os socialistas do que o actual líder, que vai querer condicionar por todos os meios. Para quê? Não se sabe. Provavelmente, a José Sócrates interessa por enquanto manter a narrativa em aberto.

O regresso do espião

Jorge Silva Carvalho, antigo director do SIED (Serviço de Informações Estratégicas do Estado), disse há dias: "A reintegração no Estado foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos." Ninguém duvida que seja. Basta ler, no final do despacho assinado por Passos Coelho e Vítor Gaspar, que o ex-espião é reintegrado no Estado com "efeitos reportados à data de cessação de funções, ou seja, a 2 de Dezembro de 2010". Isto diz o despacho. Porém, o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Luís Marques Guedes, disse anteontem, sem hesitar, perante a imprensa, que a reintegração com data retroactiva "não tem qualquer tipo de fundamento legal". Quererá o Governo entender-se sobre esta matéria? Jorge Silva Carvalho, pelos vistos, já se entendeu. Enquanto o país pasma, ele rejubila. Para quem está acusado de abuso de poder e violação de segredo de Estado (coisa que os tribunais, a 3 de Abril, começarão a julgar) é, sem dúvida, uma situação deveras extraordinária.