Miguel, Nuno, Beatriz, Ana, Inês, Manuel, Marta, Golgona, David, Diogo: poetas como nós

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David Teles Pereira, Golgona Anghel e Diogo Vaz Pinto. David e Diogo fundaram a revista Criatura e a editora Língua Morta - são os sucessores de Manuel de Freitas para uma nova geração. Golgona Anghel, romena, passa 14 horas por dia fechada na biblioteca da Faculdade de Letras - é, diz Diogo, "uma pistoleira na universidade" RUI GAUDÊNCIO

Portugal, século XXI. Finalmente a pessoa entrou no bar. Marta, que esperou tanto tempo por ela, vai embora porquê? É bem pior perder a imaginação do que a realidade - preocupada com isto, corre para casa.

Portugal, século XXI. Como as coisas não corriam bem na escola, foi o professor de piano que ensinou Beatriz a ler. A confusão, entre gramática e melodia, harmonia e pontuação, deixou sequelas graves.

Portugal, século XXI. Diogo sai do emprego e vai para casa ler durante toda a noite, várias vezes, os mesmos poetas espanhóis. Fala-lhe mais alto quem lhe sussurra ao ouvido do que quem grita e discursa.

Portugal, século XXI. David senta-se no seu gabinete da faculdade de Direito de Lisboa a reescrever pela centésima vez um poema a que deu o título de um livro de Filosofia Política. Inês é professora e tem outra actividade, que é segredo para os alunos. Como olhariam eles para aquela a quem os críticos chamam "poeta do sinistro"? Manuel folheia um livro raro, na livraria Paralelo W - raro porque ele próprio não o edita mais, ou porque o autor decidiu renegar toda a sua obra passada, raro porque é um livro de poesia e, como tal, não tem procura. Ana jogou na roleta russa da literatura. Escreveu um livro e enviou-o para uma editora: se não o aceitarem, nunca mais escrevo. A editora respondeu que publicava, por dois mil euros. Ana pagou e continuou a escrever. Miguel escolheu nove carimbos numa loja em Bruxelas. No momento em que os pagou, tornaram-se donos da vida dele. Golgona, que saiu à noite pela primeira vez aos 24 anos, com o pai, está, como sempre, há 15 horas fechada na biblioteca da Faculdade de Letras. Escreve, como sempre, um poema a começar pelo fim: "Somos todas putas, rapaz, com ou sem vodka." Seria integrado no livro Vim Porque me Pagavam. Cai a noite. Nuno inicia a rota das tascas. Portugal, século XXI.

Diz-se que há um renascimento da poesia portuguesa, uma geração de ouro. Novas formas de vida e de liberdade, inspiradas pela poesia, que por sua vez se deixa inspirar por elas. Uma nova cumplicidade entre a arte e a vida. Começou com o século. Nos anos de 1990 há indícios fortes, algumas vozes fundadoras. Depois, a explosão. Em 2002, com Manuel de Freitas, os Poetas sem Qualidades e a Averno. Houve um efeito de fecundação e os poetas multiplicaram-se. Ou saíram das tocas. Há quem encontre a explicação no desencanto ou na angústia. Talvez tenha sido apenas a Internet.

O facto é que de repente há muitos poetas. É fácil nomear algumas dezenas. Editam livros, criam blogues, publicam em revistas, frequentam sessões de leitura, bares e livrarias de poetas. Não há crise na poesia. Ninguém a lê, mas isso pouco conta. Escrevem-na. Há circuitos de grande caudal, por todo o país, com os seus pontos de encontro nas cidades e na Internet. O círculo de Lisboa é o mais concorrido, mas o Porto é inultrapassável no hábito de ler poesia nos bares. Coimbra organiza festivais, o Algarve tem um núcleo aguerrido. Há recitais, performances e até concursos de recitação, os slams de poesia - uma espécie de festival da Eurovisão, desdenham os puristas.

São muitos poetas, conhecem-se, frequentam-se e lêem-se uns aos outros. Emulam-se. Nem sempre de forma pacífica, que o que está em jogo é muito sério. Não, não se trata de dinheiro nem de fama, mas da arte, da tradição, da literatura portuguesa. Ninguém anda a brincar. Podem ter menos de 30 anos, mas já estão lançados num desígnio histórico: renovar as letras nacionais. E com elas o próprio país, pois o que haverá de mais genuíno e valioso em Portugal do que a poesia? Quando tudo arder teremos os poetas.

Hipótese irresistível: a poesia é a arte portuguesa por excelência. Sempre foi melhor do que a prosa. É melhor, ou pelo menos mais autêntica do que qualquer outra expressão artística. "A poesia é a única arte verdadeiramente autónoma em Portugal", diz Manuel Margarido, escritor, editor e divulgador, no blogue As Folhas Ardem, da nova poesia portuguesa. "Todas as outras artes sempre foram, cá, uma imitação ou um reflexo do que se fazia lá fora. A poesia em Portugal é espontânea e original, livre de factores externos. Não precisa de influências para ter voz própria." Surge, em força, sempre que a sociedade estagna ou se estrangula, sempre que se ganha ou perde a liberdade. Quando menos se espera. Uma segregação lenta e perene, resistente como uma doença endémica.

Ainda de acordo com a hipótese, conjugaram-se agora factores auspiciosos para que se formasse uma vaga provavelmente sem precedentes. "A partir de 2004 há uma multiplicidade de vozes. Alguns autores são muito bons. Esta primeira metade do século será o berço de poetas que vão ficar na História da literatura portuguesa", continua Margarido, que tem 51 anos e assistiu ao que achou ser a morte de um mundo e a eclosão de outro.

Miguel e os carimbos

Quando Miguel Manso, 33 anos, escolheu os seus nove carimbos antigos numa loja de Gent, ainda não sabia que estava a comprar uma estranha forma de liberdade. Mais ou menos por essa altura (as datas confundem-se um pouco nesta história mítica), namorou com uma rapariga chamada Patrícia, por quem se apaixonou no preciso momento em que terminaram a relação. Era demasiado tarde, não havia nada a fazer excepto escrever dois livros de enfiada - Contra a Manhã Burra e Quando Escreve Descalça-se. "Escrevi-os para conquistar a Patrícia", diz ele, à noite, sentado num café de Campo de Ourique. Edições de autor, com distribuição própria. Na capa de cada uma, os carimbos belgas.

Quando Escreve Descalça-se foi reeditado pela Mariposa Azual, e as suas obras seguintes interessaram várias editoras de poesia. Mas Miguel tomou uma decisão: editará os seus próprios livros até não ter mais carimbos. Já publicou cinco, teria tudo a ganhar em trabalhar com uma editora. Mas faltam quatro. Depois fará o que quiser.

Esta escravidão é a sua liberdade. "É uma intuição. Não quero tomar conta da coisa...", explica sem explicar. Rejeitou outras submissões para se entregar àquela, irracional, arbitrária. "Não quero trabalhar. Quero dedicar-me à arte a tempo inteiro. Quero ter a liberdade de apenas fazer isto", diz, referindo-se à poesia e outras práticas artísticas, como o filme que acaba de realizar. "A vida é uma luta contra o medo. Na poesia não tenho medo."

Natural de Santarém, Miguel Manso só agora começa a convencer os pais de que não é um inútil. "Eles vão entrar na reforma, e eu já cá estou à espera deles". Ultrapassou-os, para poderem andar a par. Geralmente é preciso fazer um percurso de escravidão, para, no fim da vida, alcançar a liberdade. Miguel quer começar precisamente por aí.

Marta no bar

Sentada numa esplanada da Avenida Duque d"Ávila, em Lisboa, em frente a uma placa com a inscrição "Marta Chaves - Psicóloga Clínica", a poeta diz: "Não escrevo nas horas mortas". Lá porque separa as duas vidas não quer dizer que a poesia seja um hobby. Para Marta, 35 anos, o trabalho é a subsistência, mas também a realização profissional. Trabalha muito, gosta disso. No resto do tempo há a vida, o amor, os amigos. A poesia não ocupa espaço. "Não deixo de fazer nada por causa dela." Embora escreva todos os dias, pelo menos desde os 17 anos.

Funciona como uma espécie de legendagem da vida. Sem ela, tudo ficaria incompreensível. "Escrevo para me tornar reconhecível para mim própria." Não é um trabalho nem uma opção. "É como calçar 38. É assim." Por isso não procura temas. Legenda o que vai sucedendo. Invariavelmente escreve sobre o amor, as relações. Não necessariamente enquanto acontecem. Deixar de escrever seria perigoso. "Só uma vez deixei, durante três meses, e fiquei com medo de já não sentir. Escrevo para não perder a sensibilidade. Não me quero tornar espectadora. As pessoas desligam-se para se defenderem. Mas as defesas não permitem o crescimento." É a psicóloga a falar. "Escrevo sobre a insegurança, sobre a hipótese de perdermos a imaginação". Foi por isso que no último sábado saiu de repente daquele bar. Esteve tanto tempo à espera que uma certa pessoa aparecesse... Depois, o importante foi não perder o que tinha imaginado durante a espera, nem a capacidade de imaginar. Correu para casa e escreveu quatro poemas. "Aprendo imenso com o que escrevo", diz. Já publicou três livros: Onde não Estou Tu não Existes, Pensa que Deixou de Pensar Nela, Dar-te Amor e Tirar-te a Vida.

Manuel e o manifesto

É isto, então? É sobre os seus casos amorosos que escrevem os novos poetas? Voltemos atrás, ao momento fundador que foi a publicação, por Manuel de Freitas, da colectânea Poetas sem Qualidades. O impulso já se vinha formado havia pelo menos uma década. Manuel Margarido toma por primeiro grande marco a publicação, em 1992, de um livro de ensaios de Joaquim Manuel Magalhães - Um Pouco de Morte. É ali que se separam as águas entre a nova poesia e a antiga. Nos anos 70, antes e depois da revolução, o que havia era a corrente do lirismo, os canónicos como Sofia e Eugénio, os poetas, orientados pela ideologia, "que queriam salvar o mundo", a corrente vanguardista da Poesia 61, no seu primado da palavra depurada, salvífica e redentora, a "palavra que transforma". Um Pouco de Morte representa um "corte epistemológico". A partir daí, "a poesia é um valor em si. Não tem de estar ligada a ideologias ou idealizações. É puxada para a realidade, para o quotidiano". Não tem de limar as arestas da realidade, mas de as exibir. É esta a ideia que Freitas retoma. Em 2002 cria a Averno e publica Poetas sem Qualidades, com que pretende apresentar uma nova geração. Mas mais do que os poetas propriamente ditos, foi o prefácio da obra que se tornou emblemático.

Começava assim o "manifesto": "A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades." Seguia caracterizando a sociedade contemporânea com recurso a Walter Benjamin e Guy Debord, no seu primado da "quantidade" e da "mercadoria", para

concluir: "A questão que hoje se coloca - em Portugal, que é onde estamos - prende-se sobretudo com o apreço "qualitativo" por anacronismos e ourivesarias e com o "resto". Esta antologia, que não foi subsidiada nem gastou solas no Parnaso, pretende contemplar isso mesmo: o(s) resto(s)."

Entre os poetas "com qualidades", e portanto a abater, Freitas nomeou Manuel Alegre e sobretudo Nuno Júdice. "Poeta promissor, em tempos mui recuados, Júdice tornou-se o emplastro vivo (...) do culturalismo auto-suficiente. É um desses poetas que, quando quer parecer "contemporâneo" de alguma coisa, quase torna palpável o esforço com que o faz." Como exemplo de poeta que fala da "cicatriz pungente de um tempo que é o nosso e das cidades e perfídias que nos matam", cita Joaquim Manuel Magalhães. "Não como um bálsamo ou enquanto filosofia de salão; antes como uma ferida que sentimos próxima." Os seus discípulos de Magalhães, Manuel de Freitas à cabeça, poderiam designar-se pelos pós-novíssimos da poesia portuguesa. E já vão na segunda geração.

"O que de alguma maneira aproxima estes nomes (...) são, precisamente, as várias "qualidades" que notoriamente não possuem. Estes poetas não são muita coisa. Não são, por exemplo, ourives de bairro, artesãos tardo-mallarmianos, culturizadores do poema digestivo, parafraseadores de luxo, limadores das arestas que a vida deveras tem."

O "manifesto" provocou reacções. Júdice indignou-se. Eduardo Prado Coelho acusou Freitas de anatemizar todos os poetas do velho cânone para impor o seu próprio. O escritor e crítico Eduardo Pitta passou a referir-se à revista Telhados de Vidro, dirigida por Freitas e Inês Dias, como o "órgão teórico do grupo".

"Criou-se um rótulo", lamenta agora Freitas, 40 anos, enquanto mostra os livros que vende na Paralelo W. Admite que havia algo em comum naqueles poetas "sem qualidades": a atenção "à realidade, ao quotidiano, às coisas banais. Não procuram temas nobres." E admite também que a editora Averno serviu para "aproximar as pessoas".

Na verdade, o que a Averno criou foi um culto. Publicou muitos poetas pela primeira vez, deu voz a alguns esquecidos, escolheu os melhores segundo a nova visão, de que Freitas se tornava um símbolo. A poesia dele, aliás, era o paradigma não só dessas novas temáticas que assumem a vida "com arestas", mas também da qualidade literária que se procurava. É, todos o reconhecem, um poeta excelente que, desde os primeiros livros, não deixou de fascinar e atrair toda uma geração que se queria exprimir e afirmar. E a geração seguinte, que tem hoje entre 20 e 30 anos.

Ana, Diogo, David

"Quando eu tinha 18 anos, o Manuel de Freitas era uma pop star", diz, n"A Brasileira do Chiado, Ana Salomé, 30 anos. "Foi a minha influência. Ele e os poetas da Averno e da Telhados de Vidro escreviam sobre a vida de uma forma que parecia simples. Tinham uma forma de depurar a linguagem que é difícil de conseguir, mas parecia fácil. Tornava-os próximos, não como os velhos poetas, que parecem viver noutro mundo. Estes eram pessoas desde mundo. Faziam-nos sentir que também nós podíamos escrever".

Diogo Vaz Pinto tem hoje 27 anos. Na adolescência, idolatrava Manuel de Freitas. Com o amigo David Teles Pereira, de quem se tornaria parceiro em vários projectos literários, foi um dia ao funeral do designer Olímpio Ferreira, um dos fundadores da Averno, só para ver Manuel. Não para lhe falar, que a coragem não chegava para tanto. "Eu lia o Manel como uma religião", diz Diogo na Ler Devagar, em Lisboa, depois da apresentação de um livro da sua própria editora. "A sua poesia é excelente, muda a vida de uma pessoa. Depois ele era muito agressivo nos ensaios. E categórico". Essas características angariaram-lhe seguidores. "As pessoas seguiam o Manel, obedeciam-lhe. Naquela altura, se o Manel me mandasse ler qualquer coisa, eu ia a correr. Era um verdadeiro líder. Hoje, há falta deles".

A influência da Averno e de Manuel de Freitas era tão intensa que a certa altura foi preciso romper com eles. Os poetas multiplicavam-se, e a Averno não tinha lugar para todos. Os próprios critérios da editora tendiam a anquilosar, queixam-se os poetas mais novos. Ou a confundir-se com os gostos pessoais de Freitas, ou mesmo com as suas amizades, critica Diogo.

Há, a par com uma irrevogável deferência, também algum ressentimento contra Manuel de Freitas da parte de alguns dos mais jovens. De certa forma, é a rebelião necessária para a mudança de geração. Como Freitas em relação a Júdice e Alegre. Diogo pensa aliás que essa revolução foi muito artificial. Ana concorda. Todos aqueles males contra que se insurgiam eram moinhos de vento. Os poetas mais antigos também falavam da realidade.

Diogo e David fundaram a revista Criatura e a editora Língua Morta. Tornaram-se, de certa maneira, os sucessores de Freitas para uma nova geração com dificuldade em publicar na Averno.

Ana Salomé criou a revista Golpe d"Asa, com poesia e crítica. Não sem confronto com os "poderes instituídos" da pós-novíssima poesia. Freitas apressou-se a escrever um artigo criticando as opções do primeiro número - sobretudo o prefácio, escrito não propriamente por um poeta da vanguarda, mas pelo director da CLEPUL, o centro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que financia a revista.

Há uma tensão permanente entre as revistas da primeira e segunda gerações, embora os mesmos poetas sejam regularmente publicados por todas. Há um certo "purismo" (termo que Freitas rejeitará) na atitude do grupo da Averno que suscita as críticas dos mais novos, mas também a sua admiração. Que responderia Manuel de Freitas, por exemplo, se fosse convidado para ler poemas num evento como as Quintas de Leitura, no Porto, que dá visibilidade a muitos poetas? "Não ia!" é a resposta imediata. Só porque combina poesia com música ou outras artes performativas na mesma noite, o palco do Teatro do Campo Alegre não merece a sua solene presença.

A mesma atitude incorruptível preside a todas as decisões da Averno, como por exemplo a de nunca fazer segundas edições (a Língua Morta, de Diogo e David, tem a mesma política). É sempre preferível editar um livro novo. A consequência é que muitas obras (as tiragens oscilam entre os 150 e os 300 exemplares) desaparecem para sempre. O próprio Poetas sem Qualidades está há muito esgotado.

"É por não ter quaisquer ambições lucrativas que a poesia é livre", diz Marta Chaves. "Qualquer esforço para que a poesia vendesse afectaria a própria qualidade da poesia", explica Inês Dias. E Diogo acrescenta que, com a extinção da classe média, acaba o público da poesia. "Há 150 a 200 pessoas em Portugal interessadas em poesia". Mais ou menos tantas quanto as que escrevem. Provavelmente são as mesmas. O resto da população não quer saber, não precisa. Há demasiados divertimentos. "O tédio já não é uma fera", diz Diogo. "O tédio hoje é um miau-miau. E o tédio é o grande motor da literatura."

David Teles Pereira, 27 anos, costuma dizer, citando um poeta argentino: "A poesia não vende porque não se vende". Com Diogo e Ana M. P. Antunes, fundou a Criatura a partir da revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito. Tanto com essa iniciativa como com a editora Língua Morta, perde dinheiro. Pagam, dos seus salários (David é assistente de Direito, Diogo jornalista no I) para que os livros dos seus poetas preferidos sejam publicados. Já editaram 39 títulos. "Há autores que eu quero ler, e para isso tenho de lhes editar os livros."

Isto acontece, explica David, porque as grandes editoras se demitiram da poesia. Houve um visionário, Hermínio Monteiro, da Assírio & Alvim. Depois da sua morte, a poesia foi abandonada. A seguir, outro grande mentor foi Mário Guerra, o Changuito, que manteve a livraria Poesia Incompleta no Príncipe Real. Mas mudou-se para o Rio de Janeiro e a poesia ficou de novo órfã.

"A poesia está a morrer, e as pequenas editoras não fazem mais do que fornecer-lhe alguns cuidados paliativos", diz David.

Beatriz e a perda

Beatriz Hierro Lopes, 27 anos, está prestes a publicar um livro na Averno. Vive no Porto e veio à Paralelo W, em Lisboa (Rua dos Correeiros, 60, 1º esqº) discutir o título, a capa e a selecção de textos com Manuel e Inês. É um livro não de poemas, mas de "fragmentos", como ela diz. A primeira parte trata da família, a segunda da cidade. Beatriz trabalha na Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo, na Ribeira, e gosta de observar casas e quem as habita. "Encontrei um velho a chorar na rua que me disse: "Sabe porque choram os velhos? Pelas suas mães." Tinha de escrever sobre isso: os velhos foram crianças e tiveram mães."

O principal tema de Beatriz é a perda. Na família sempre lhe falaram disso. E da beleza que persiste naquilo que se perdeu. Escreve todos os dias. Terminado um fragmento, envia-o por e-mail ao amigo Manuel Margarido às 21h30 em ponto. Às 22h, Manuel telefona-lhe para ler o texto, tantas vezes quantas necessário para Beatriz perceber as alterações que terá de fazer. Quase todos os poetas fazem isto: enviam os textos uns aos outros, para correcção. Manuel de Freitas não. "É um poeta subreptício", diz Inês, que é casada com ele.

Golgona na biblioteca

Golgona Anghel, 33 anos, é romena. Veio para Portugal para seguir o pai, cônsul. Aprendeu português e ficou para fazer um doutoramento em Literatura portuguesa. "Durante dois anos, nunca fui à Baixa", diz ela, na esplanada da Graça. Fechava-se na biblioteca da Faculdade de Letras. Começou por A Cidade e as Serras, depois veio o resto, "por ordem alfabética". Também não está preocupada com o facto de ser pouco lida. "Penso nos leitores como algo que se cria. Nós escrevemos e só depois eles aparecem."

Na Roménia, Golgona não conseguia escrever. "Por causa dos clássicos, essas figuras horríveis da literatura romena." Em português não sente esse peso: "O poeta é sempre um ser fora do sítio. Eu já estou fora do sítio." Mais uma vantagem: "Se as coisas correrem mal, posso ir embora." Não para a Roménia, porque o caminho é sempre em frente.

Golgona não se sente integrada em Portugal, mas lê os poetas todos. "Eles são muito bons, e eu quero que o sejam, para me estimularem. Quando gosto de alguns, não só os leio: persigo-os." Mas não frequenta a Paralelo W nem locais afins: continua a passar 14 horas por dia na biblioteca. Escreveu uma biografia de Al Berto, editou os seus diários. Escreve poemas sobre a vida, sem olhar para trás. Nunca corrige. "Estou demasiado ávida de escrever mais, como um cão que devora os ossos juntamente com a carne." Começa os poemas pelo fim. O resto é a criação de um cenário para destruir. "É preciso primeiro convocar o inimigo. É como dar uma chapada em alguém. O poema partilha as armas com a política."

Diogo diz que Golgona, que está há quatro anos com uma bolsa de pós-doutoramento, "é uma pistoleira" na universidade: "Chega, desata aos tiros, dá voltas à pistola como um cowboy." "Escrevo com luvas", diz ela. "Quando as tiro, vêem que não tenho os dedos todos."

Nuno e as tascas

Todas as noites, Nuno Moura começa no Castelo, segue pela Mouraria... "Converso com as pessoas, ouço aqueles homens cheios de amargura e desespero. É com eles que aprendo. Vivo para os meus filhos e para os bêbados das tascas."

Escreve para recitar. A poesia para ele é sempre oral, não é para ler em silêncio. Gosta de participar em eventos colectivos, em performances com teatro e música. Gosta de ler os seus poemas e os dos clássicos. Editou um livro com um CD, Mau Sangue, pela Mia Soave. Pediu dinheiro emprestado. Recuperou-o mas já o gastou na sua própria sobrevivência. Vive assim. Não aceita subsídios de ninguém, apenas empréstimos de amigos, para os seus projectos literários. Já trabalhou em publicidade, mas não aguentou. "Fazia anúncios para a Cofidis, que destrói as vidas das pessoas."

O seu próximo livro, Drunk Walker, será lançado este mês. São os poemas da rota das tascas. Da Mouraria ao Intendente, Almirante Reis, Cais do Sodré, o bagaço a 80 cêntimos o copo. Não escreve quase nada sem estar sob influência do álcool. Que lhe cria problemas com a família e os amigos. Miguel Manso é um dos melhores. Uma noite, bêbado, Nuno provocou uma discussão com ele que acabou em pancadaria. A poesia da realidade tem destas coisas, o que alimenta a arte destrói a vida. Nuno sofre ao lembrar-se da briga, e Miguel, só de falar do assunto, começa a chorar.

São assim os poetas portugueses do século XXI. Vivem excessivamente, não estão interessados em ganhar dinheiro, lêem os clássicos, são generosos e, em muitos casos, brilhantes. Sabem o que têm a fazer, nenhum está no desemprego. Nem crise, porque "os poetas estão sempre em crise", diz Golgona.