O caso da série religiosa que se tornou um sucesso de massas nos EUA

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Diogo Morgado em duas das cenas de A BíbliaO actor português num dos momentos da rodagem com o produtor Mark Burnett (à esquerda) e o actor Darwin Shaw DR

Dizem os especialistas que não é preciso ser crente para ver A Bíblia. A série, protagonizada por Diogo Morgado e que nos EUA se tornou um sucesso, estreia-se na SIC.

Chegou a altura em que a televisão se rende às histórias de Jesus e daquela que terá sido a sua vida. Filmes como o clássico Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille, ou o controverso A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, são muitas vezes exibidos na Páscoa, data em que o cristianismo assinala a ressurreição de Jesus. Este ano, a história volta a repetir -se, mas, desta vez, com uma nova série que chega a Portugal no sábado, depois de ter causado sensação nos Estados Unidos. Nesta Bíblia, Jesus tem nome português e chama-se Diogo Morgado.

A Bíblia estreou-se nos Estados Unidos no início de Março e ao primeiro episódio tornou-se no programa mais visto de 2013 na televisão por cabo norte-americana, com 13,1 milhões de telespectadores, deixando para trás a série de zombies The Walking Dead, já na quarta temporada. Desde então as duas têm estado, taco a taco, na disputa pelo primeiro lugar do pódio das audiências, que tem acabado habitualmente por ser ocupado por esta série religiosa, produzida pelo Canal História. No total, A Bíblia já foi vista nos Estados Unidos por mais de 70 milhões de pessoas e, apesar de aparecer apenas ao sexto episódio, Diogo Morgado, ou Handsome Jesus como já é conhecido por lá, é o actor de que mais se fala.

Mas o que tem esta série de tão especial e em que é diferente das outras? Poder-se-ia dizer que a história já nos mostrou que filmes, séries ou livros que tenham a religião como tema principal são normalmente muito procuradas, e também por isso, tantas vezes alvo de grandes controvérsias. Exemplo disto é o filme que Mel Gibson estreou em 2004, A Paixão de Cristo, e que foi alvo de duras críticas pela extrema violência das imagens. A verdade é que nas bilheteiras o filme arrecadou 600 milhões de dólares (cerca de 470 milhões de euros). O The Guardian dá ainda o exemplo de Dan Brown que chegou aos tops de vendas de todo o mundo com o livro O Código Da Vinci. E por isso não é de estranhar que A Bíblia, produzida pelo casal Mark Burnett, conhecido produtor de reality shows como A Voz ou O Aprendiz, e Roma Downey, tenha alcançado este sucesso, ainda para mais quando os produtores fizeram questão de ter a seu lado alguns dos principais líderes religiosos norte-americanos.

"Os produtores consultaram muitos líderes de Igreja e ao terem esse apoio conseguiram garantir logo o aumento das audiências", diz ao PÚBLICO Helen K. Bond, especialista no Novo Testamento da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e que foi consultora da série americana nos episódios que dizem respeito a esta parte da Bíblia. "Transmitir a série na altura da Quaresma também teve provavelmente a sua influência", continua a investigadora por email, admitindo que este sucesso nos Estados Unidos poderá não se reproduzir na Europa, tendo em conta as diferenças culturais. "Mas claro que as enormes audiências lá tornam a série popular aqui."

Em Portugal A Bíblia não foi transmitida durante a Quaresma, mas vai para o ar no fim-de-semana em que tudo culmina, a Páscoa. A SIC vai dedicar as tardes de sábado e domingo à série. O facto de o protagonista ser português poderá também provocar boas audiências por cá.

"É sempre um motivo de orgulho para nós ter alguém como o Diogo Morgado num papel tão importante", diz Helena Vilaça, investigadora do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras do Porto, destacando que é mais fácil as pessoas identificarem-se com o actor português por este interpretar Jesus, "uma figura tão adorada". "Mesmo quem não é crente simpatiza com a figura de Jesus histórico, um homem solidário para com os que sofriam", explica.

Talvez por isso o actor português, de 33 anos, com quem o PÚBLICO tentou falar várias vezes, sem nunca obter resposta, se esteja a destacar na série nos Estados Unidos. Além de ser comentado pela sua beleza, há quem o ache um "Brad Pitt mais novo", as críticas falam do ar generoso e humilde que Diogo Morgado dá a Jesus. O mesmo ar que conquistou Mark Burnett e Roma Downey, conforme contaram os dois ao jornal The Christian Post. "A dois meses de começarmos as filmagens não tínhamos ainda Jesus, pedimos ajuda a todos os nossos amigos, lançámos alertas na Igreja e foi então que apareceu o Diogo", contou Roma Downey, que, além de produzir A Bíblia, interpreta o papel de Maria, mãe de Jesus. "Marcámos um encontro aqui em casa e quando ele chegou e o vimos a caminhar pelo nosso quintal, percebemos que era ele o actor", continuou, não tendo dúvidas de que a interpretação de Diogo Morgado será lembrada por muitos anos, assim como a série foi pensada para ser vista "em todo o mundo durante os próximos 25 anos".

Para Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, séries como esta, "que despertem o desejo de querer conhecer mais a fundo a Bíblia", são sempre bem-vindas. "Conhecer a Bíblia, a nível geral, independentemente de qualquer crença, é uma questão cultural. Desconhecer a Bíblia é iliteracia cultural", diz ao PÚBLICO Manuel Morujão, que deseja que A Bíblia seja "uma boa introdução neste manancial de histórias em que o céu e a terra dão as mãos".

A iliteracia é também uma das questões levantadas por Helena Vilaça, que, apesar de ainda não ter visto a série, considera positivo que este tipo de programas tenha espaço na televisão. "Religião é cultura e mesmo que esta série possa ter algumas imperfeições não deixa de ser importante para combater a iliteracia que existe", diz a investigadora, defendendo uma sociedade aberta ao diálogo. "A religião não tem de ser do foro privado", continua a investigadora, para quem esta até pode ser uma forma de captar novos públicos. "O problema do cristianismo contemporâneo é a comunicação, que tem de ser adequada aos novos meios e às novas realidades", acrescenta.

Helen K. Bond é da mesma opinião e garante que a série não é apenas para os religiosos. "Algumas pessoas vêem [os episódios] puramente pela dramatização das histórias em si e não pelo significado que elas representam no Antigo ou no Novo Testamento", explica a especialista, que também considera que nos dias de hoje cada vez menos pessoas conhecem as histórias da Bíblia. "Ver esta série é uma boa maneira para estas pessoas começarem a saber um bocadinho mais", diz a investigadora da Universidade de Edimburgo. Tendo participado na construção de A Bíblia, Helen K. Bond não esconde que a visão que é transmitida na série é muito cristã ("produtores judeus teriam feito diferente"), mas destaca o trabalho da equipa, que se quis manter fiel àquela que terá sido a vida no primeiro século. Daí que a história comece exactamente no princípio, ou seja, no Antigo Testamento, chegando depois ao Novo. "Obviamente dez horas não fazem justiça à Bíblia, na verdade, A Bíblia é a vida de Jesus com alguns momentos chaves."