Chumbo na AR sobre Sócrates: “Imperou o bom senso”, diz director de informação da RTP

Audição no Parlamento sobre contratação de José Sócrates para comentador da estação pública de televisão foi chumbada, acentuando clivagens entre PSD e CDS.

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José Sócrates AFP PHOTO/ PATRÍCIA DE MELO MOREIRA

O director de informação da RTP reagiu nesta quarta-feira ao chumbo da audição requerida pelo CDS para debater o novo espaço de comentário político a protagonizar por José Sócrates na estação pública de televisão. “Imperou o bom senso de não chamar um director de informação para discutir critérios editoriais num órgão político”, disse ao PÚBLICO Paulo Ferreira.

A audição na comissão parlamentar de Ética, Cidadania e Comunicação tinha sido requerida pelos democratas-cristãos na passada quinta-feira. Ontem, na votação do requerimento, o CDS contou apenas com os votos a favor do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista (PCP).

Num acentuar das clivagens que têm vindo a intensificar-se nos últimos dias entre os partidos da coligação do Governo, o PSD manifestou-se contra a audição, ao lado do PS. Em declarações recolhidas pela Antena 1, a deputada social-democrata Carla Rodrigues disse que o partido está “aberto à discussão deste assunto do pluralismo (…), mas não condicionado por um caso concreto, porque isso tiraria a dignidade e a amplitude dessa discussão”.

Do lado do CDS, Raul Almeida afirmou, também citado pela Antena 1, que o partido pensou que a audição ao director de informação da RTP “seria uma coisa pacífica, por se tratar de um pedido de esclarecimento perfeitamente normal em democracia”.

O requerimento dos democratas-cristãos surgiu depois de Paulo Ferreira ter confirmado publicamente a contratação do antigo primeiro-ministro para comentador político da estação pública de televisão, já a partir de Abril. "Confirmo que a RTP vai ter dois novos comentadores políticos: José Sócrates e Nuno Morais Sarmento", afirmou nessa altura o director de informação, que citou Evelyn Beatrice Hall (biógrafa de Voltaire) para justificar a decisão. "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo", disse.

Na sequência do requerimento do CDS, o Sindicato dos Jornalistas manifestou-se contra a ida de Paulo Ferreira ao Parlamento. Num comunicado divulgado na passada sexta-feira, o sindicato referiu que o pedido de audição "contraria frontalmente a garantia constitucional de independência dos meios de comunicação social do Estado face ao poder político e gera uma inaceitável suspeita nos cidadãos de que tais meios – e especificamente os seus directores – estão ao serviço do poder político".

José Sócrates dará uma entrevista à estação pública de televisão nesta quarta-feira, pelas 21h, depois de cerca de dois anos em silêncio.
 

Notícia corrigida às 14h59: Corrigida a autoria da citação utilizada pelo director de informação da RTP.