Falhados com opiniões

Um amigo, correspondente estrangeiro em Portugal, perguntava-me há dias porque é que os jornais e as televisões escolhem por sistema ouvir políticos que falharam. O que ele queria perceber não era tanto a nossa apetência por políticos na pantalha, mas a forma duvidosamente interessada e servil como estendemos a passadeira vermelha a antigos governantes ou líder partidários que, apesar de terem fracassado, passam a falar sobre uma realidade como se não tivessem feito parte dela. Por mais que se esforçasse, ele não conseguia perceber bem esta nossa originalidade.

Tentei explicar três coisas. Em primeiro lugar, ao contrário do que muitas vezes pensamos, a imprensa portuguesa tem pouco poder. Sem dúvida que uma manchete ou uma notícia venal podem trucidar reputações. Mas, no essencial, os jornais e as televisões não têm particular poder ou influência. Chegam, tanto na imprensa escrita como no cabo, a umas dezenas de milhares de pessoas. Financeiramente frágeis, são permeáveis a pressões e autocensuras. Excluindo a intriga de corredor, não têm fontes privilegiadas e não conseguem produzir informação verdadeiramente influente. São uma voz de protesto, mas não mais que isso. Esta ausência de poder parece contra-intuitiva. Não se repete à exaustão que os nossos políticos passaram a viver da imprensa e para a imprensa? Sim, mas nada disso se traduz em influência. Contam-se pelos dedos os jornalistas que a têm. A rotineira presença de antigos governantes que falam como se nunca tivessem feito nada, numa estranha reinvenção das suas personalidades, confirma esta fraqueza.

Em segundo lugar, além do seu reduzido poder, o ambiente da imprensa portuguesa vive em demasia das intrigas e conspirações. Serve de palco para o jogo. Como os jornais e as televisões têm de ir abastecendo as intrigas que interessam, precisam de figuras que assumam esse papel. Precisam de conspiradores que alimentem o ruído. Quantas vezes não lemos como notícia o que X ou Y disseram, mesmo que o seu interesse seja nulo? As intrigas no PSD e no PS, as disputas entre facções, a proliferação de ninharias. Contemplem a forma como foi apresentado nos jornais o regresso de Jorge Coelho à política. "Jorge Coelho volta à política." E em subtítulo a confissão de Coelho: "Está a saber-me bem." A que se seguiu a resposta de Manual Maria Carrilho: "Bela rentrée, Jorge, bela rentrée." Estamos num ambiente de teatralização que faria o vienense e crítico dos jornais Karl Kraus vibrar por ter tido razão antes de tempo.

Em terceiro lugar, o que também explica o espaço anómalo destes ex-governantes que deviam estar a pensar em escrever memórias é a nossa baixíssima prática de responsabilidade política. Vejamos o caso do ex-primeiro-ministro José Sócrates que vai voltar agora à RTP para um programa de comentário político. Vai comentar o quê? Comentar o mesmo memorando inaplicável e a mesma dívida colapsante que há deixou como legado? Pedirá ele agora a renegociação da dívida que ajudou a criar? Será também um estrénuo adversário da troika? Ouvir aquele que era até há pouco tempo primeiro-ministro palrar sobre o presente, sem que inevitavelmente o confrontem com o passado, não passa pela cabeça de ninguém. A não ser que a ideia seja só essa e que alguma alma do PSD esteja a pensar que, com Sócrates na RTP, o Governo fica mais resguardado. Qualquer um deles se engana sobre as suas hipóteses de regeneração pelos pecados alheios. Mas este exemplo extremo mostra que o cada um fez ou deixou de fazer não serve de nada. Em Portugal há sempre um regresso.

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