Um falhanço colossal

Ainda há alguns dias gente muito séria e de "inquestionável saber" afirmava solenemente ter tudo, finalmente, sob controlo. Mario Draghi afirmou mesmo que "o BCE fará tudo o que for necessário, para preservar a estabilidade do euro". Todavia, como condição para obtenção desses empréstimos, tudo o que essas nações teriam que fazer era concordar com mais austeridade. Falsamente, Draghi afirma, ainda, que "a austeridade irá espoletar o crescimento económico". Contudo, na União Europeia, a austeridade levou à maior crise económica do pós-guerra, causando milhões de desempregados. Em contraste, nos EUA, em resultado dos vários estímulos económicos, a economia criou 2,5 milhões de postos de trabalho nos últimos três anos, 400 mil dos quais só no último mês (apesar dos bloqueios da maioria republicana no Congresso). Por conseguinte, esta gente séria, acomodada em confortáveis gabinetes, mordomias e salários milionários levaram as medidas de austeridade longe de mais e propõem ainda mais dor como solução para a dor. Em resultado, muitas pessoas suicidaram-se e milhões, além do trabalho, perderam as suas casas e famílias. Muitas destas vasculham agora no lixo as refeições que lhes hão-de matar a fome. Tudo isto em nome da confiança dos mercados (diga-se, de plutocratas e bandidos financeiros) que nunca foi restabelecida.

Por muito que os líderes políticos insistam na mentira, a política económica europeia é um colossal falhanço. De acordo com um paper apresentado na American Economy Association, dois economistas, Olivier Blanchard e Daniel Leigh, demonstram não só os efeitos recessivos da austeridade, mas também os efeitos adversos nas economias mais fracas, os quais são muito maiores do que aquilo que se acreditava. Estes investigadores concluem, ainda, que "uma prematura viragem para a austeridade é um erro terrível". Ora, estranhamente, Blanchard é nada mais nada menos que o economista-chefe do FMI, por isso tudo indica tratar-se do reconhecimento do colossal falhanço por parte desta instituição.

Dito isto, vale a pena saber então o que correu mal? Lamentavelmente, a resposta tem a ver com a ignorância e o "triunfo dos porcos". A ciência económica oferece boas medidas para fazer face à actual crise. Contudo, os líderes políticos escolheram ignorar tudo o que aprenderam ou deveriam ter aprendido. A história é simples. A crise financeira conduziu a uma queda das vendas no consumo privado, dado que os consumidores, assustados, gastam cada vez menos e poupam mais. Porém, a economia de um país não é como a economia familiar. Uma família pode decidir gastar menos e tentar ganhar mais. Mas, na economia como um todo, gastar e ganhar estão correlacionados, dado que o que eu gasto é o que tu ganhas e o que tu gastas é o que eu ganho. Por conseguinte, se toda a gente decidir cortar nos gastos ao mesmo tempo não há receita, a economia pára e o desemprego aumenta.

O que diz então a ciência económica? Diz que um pequeno choque financeiro pode ser o suficiente para relançar a economia. Por exemplo, o BCE deveria cortar mais as taxas de juro, dado que não existe risco de inflação (existe antes e, mais grave, o risco de deflação).

Porém, a actual crise é demasiado grave e o corte nas taxas de juro já não é suficiente. Desta maneira, os governos deveriam avançar para sustentar as suas economias até que o sector privado retome e ganhe balanço. Só nessa altura é que se poderá avançar com medidas de controlo do défice e da dívida. Aliás, nem é preciso pagar a dívida. Basta para isso que o crescimento económico seja maior que o crescimento da dívida. Deste modo, ao fim de alguns anos esta será remetida para valores mais adequados com o PIB.

Keynes afirmava que "é na fase de crescimento económico que se devem tomar as medidas de equilíbrio orçamental e não na fase de contracção económica". Neste sentido, seria bem-vindo um orçamento comunitário expansionista para os próximos sete anos. Todavia, lamentavelmente os ignorantes líderes europeus efectuaram cortes draconianos no orçamento (felizmente vetado no PE) num momento em que se aconselha um orçamento expansionista. Espero que a CE corrija o erro e não perca esta janela de oportunidade de relançamento económico. Tenho, porém, muitíssimas dúvidas. Eu acredito que só através da pressão de milhões de europeus de todos os países-membros, por meio de uma greve geral em simultâneo e por tempo indeterminado, possa levar os líderes políticos a vergarem e a implementarem medidas de crescimento económico e criação de emprego. Os demónios europeus estão apenas à espera!

Prof. investigador Universidade Nova de Lisboa Univ. Nacional de Taiwan, República da China/ Univ. Texas-Austin, EUA