FMI volta a mostrar-se surpreendido com aumento do desemprego

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Para o chefe de missão do FMI em Portugal, Abebe Selassie, "o debate sobre as rendas excessivas" deve ser "revisitado" PEDRO CUNHA

Para o chefe de missão do FMI em Portugal, o aumento do desemprego foi "muito pior" do que o esperado e é um resultado "muito infeliz". Abebe Selassie lança ainda fortes críticas à reforma das rendas excessivas

Para o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, o aumento do desemprego foi o seu "grande desapontamento" na execução do programa de ajustamento negociado com a troika (formada pelo FMI, BCE e Comissão Europeia). Agora, é a vez do chefe de missão do FMI em Portugal, Abebe Selassie, constatar que "o resultado do desemprego é muito infeliz, é mesmo muito pior do que o esperado".

Em entrevista à agência Lusa, na sequência da 7.ª avaliação da troika a Portugal, Selassie explica que é precisamente por causa da questão do desemprego "que as metas do défice estão a ser revistas", podendo agora o país descer o défice orçamental abaixo dos 3% em 2015. Isto devido "à preocupação de tentar evitar mais pressões sobre o emprego".

Já em meados do ano passado os responsáveis da troika e do Governo se tinham mostrado surpreendidos pela dimensão do desemprego, quando este se situava em cerca de 15% da população activa. Entretanto, de acordo com os últimos números do INE, no final de 2012 havia já 923 mil desempregados, o que equivale a uma taxa histórica de 16,9%. Cerca de 40% dos jovens não encontram colocação no mercado e meio milhão de pessoas está à procura de emprego há mais de um ano (desemprego de longa duração). E há dados que não se reflectem totalmente neste indicador. Entre Outubro e Dezembro de 2012, período no qual se registou uma queda da economia mais acentuada do que estava calculado (-1,8% face ao trimestre anterior), foram destruídos 125 mil empregos. Os números do quarto trimestre de 2012, disse Selassie, "mostram realidades muito diferentes do que esperávamos".

O certo é que os indicadores para o mercado de trabalho já foram revistos por várias vezes desde a chegada da troika. Agora, tal como foi anunciado por Vítor Gaspar na conferência sobre a 7.ª avaliação, houve nova revisão: afinal, a a taxa este ano será de 18,2% (e não de 12,4% conforme estimado na primeira avaliação, nem os 16,4% que constavam da análise mais recente), chegando ao pico de 19% no final de 2013. Em 2014 deverá subir para 18,5%, em termos anuais. Para Selassie, conforme adiantou à Lusa, "a única forma duradoura de criar os empregos, de que Portugal tão desesperadamente precisa, é realmente tentar completar o processo de ajustamento tão rápido quanto possível, e estabelecer as bases para o crescimento sustentável". "Não podemos perder de vista que o princípio-base do programa é fazer regressar Portugal a uma situação fundamentalmente melhor do que a que estava quando a crise começou", sublinhou. Com a economia em forte recessão, num quadro de quebra acentuada do consumo e do investimento, e de fortes dificuldades de acesso a financiamento, Selassie verifica que as PME "continuam a ter dificuldades em aceder ao crédito". Segundo a Lusa, o responsável do FMI nota que o Governo lançou várias iniciativas para tentar resolver o problema, mas que estas terão de ser analisadas mais de perto. Mesmo assim diz que hoje existe "uma base muito melhor para que volte o crescimento do crédito".

Contra as rendas excessivas

No que toca ao crescimento, constata que "não existe muito mais a ser feito ou que não esteja a ser pensado para tentar estimular" a economia, mas que existem algumas reformas mais específicas que ainda estão a ser trabalhadas, como a do IRC. Para Selassie esta última avaliação foi "particularmente difícil", devido a três grandes factores: as revisões das projecções e alterações às metas do défice, e também por causa das discussões sobre a reforma do Estado. O responsável do FMI confirmou ainda que o envelope de 2000 milhões só será mesmo pago em Maio, mas garantiu que tal não está dependente da apresentação do plano de corte dos 4000 milhões de euros. O adiamento, diz, apenas se deve ao facto de os responsáveis máximos da instituição só estarem disponíveis nessa altura.

Num tom bastante crítico, sublinhou à Lusa ser "muito importante" que "o debate sobre as rendas excessivas" seja "revisitado". "Penso que o principal objectivo para os preços da electricidade, telecomunicações e de outros sectores não transaccionáveis é se estão em linha ou começam a cair à medida que a concorrência aumenta ou a procura diminui. Até agora não o estamos a ver e isso é muito desapontante. Se não responderem às condições económicas", diz, "teremos de olhar para o que se passa e revisitar as reformas".