"Experimentar o luxo não deve estar preso ao facto de se ter ou não dinheiro"

A história recente da Christian Lacroix mostra como a indústria da moda, mesmo a mais luxuosa, se readapta em crise. Parceria com a Vista Alegre é mais um passo no discurso de "acessibilidade" do director criativo da marca, Sacha Walckhoff

A ideia de que a crise não chega ao luxo foi contrariada em 2009, quando uma das mais reconhecidas casas de alta-costura parisienses, a maison Christian Lacroix, abriu falência, despediu 90% dos seus trabalhadores e motivou mesmo a intervenção pública do então Presidente francês, Nicolas Sarkozy. Em 2010, a marca ressuscita com Sacha Walckhoff, assistente de Lacroix durante 17 anos, como director criativo.

É Lacroix, mas que já não é luxo de alta-costura, inacessível e rarefeito. É a história de uma marca de design de moda que agora se redefine em contexto de crise e de readaptação da indústria. E é também a história de uma colecção Lacroix de porcelanas, numa parceria de design com a portuguesa Vista Alegre, que trouxe Walckhoff há uma semana a Lisboa, onde falou com o PÚBLICO.

Foi "muito difícil" ocupar o lugar do seu mentor, diz-nos na Costa do Castelo. Hoje toma decisões com o CEO da empresa do outro lado da linha e acredita que "é impossível viver" na alta-costura no actual panorama. Parece fazer eco das palavras do antigo patrão, Bernard Arnault, cujo colosso do luxo Louis Vuitton Moet Hennessy deteve até 2005 a Lacroix: Christian "é especialista do único, do vestido de casamento. Falhou em inventar um marketing à sua medida".

Foram 22 anos de maison Lacroix sem nunca fazer lucro e agora a marca apresenta apenas uma colecção de pronto-a-vestir - masculino - na Semana de Moda de Paris e opera sob sistema de licenciamentos e parcerias, nomeadamente na decoração. Christian Lacroix, o rei da extravagância da cor, dos padrões, formas e texturas, abandonou o seu palácio quando ele foi refundado pelo grupo francês Falic (dono da marca desde 2005).

Agora Lacroix chega à Vista Alegre (grupo Visabeira) em quatro linhas apresentadas na semana passada em Lisboa, estreadas em Janeiro no salão de design Maison et Object em Paris e que ainda vão ao Brasil e a Nova Iorque nas próximas semanas. A parceria é para continuar a cinco anos, com uma nova colecção já a ser trabalhada para lançar em Outubro. Na era da moda rápida e da crise, "acessibilidade" é a palavra-chave para que uma marca deste sector se mantenha relevante, defende Walckhoff.

Uma peça Vista Alegre é um estender da mão da "experiência Lacroix" ao grande público, mas sem perder o seu ADN, diz o director criativo. Afinal, dispara, "a porcelana é sempre um pouco bourgeois".

Depois da falência em 2009, qual é o papel de uma linha de porcelanas portuguesas na história da Lacroix?

A decoração, em geral, é uma outra forma de expandir a marca. É engraçado ver como estas coisas se espalham pelo mundo, porque de repente o nome está vivo outra vez através de outros tipos de produtos. A primeira experiência que tivemos foi com uma linha de papelaria, depois uma colecção de tecidos com a Designer"s Guild e agora a Vista Alegre. E isso faz sentido. O problema da Lacroix, o motivo pelo qual passámos por dificuldades há três anos, é que é divertido ter um casaco muito colorido com um padrão espantoso, mas não o compramos todos os dias, não o usamos para ir trabalhar. Mas ter uma almofada maravilhosa ou um prato colorido é algo mais fácil e mesmo alguém que gosta de viver com cores simples será seduzido por algo mais engraçado para a sua casa. O meu trabalho agora é encontrar os grafismos e padrões certos, e usá-los nos objectos certos.

O clima económico na Europa, e não só a situação financeira da casa, pressionaram-no nesse sentido?

É um clima muito difícil. Recebemos agora os resultados da terceira colecção da Designer"s Guild, que lançámos em Janeiro, e é um sucesso. Porque é global, a Designer"s Guild é muito bem distribuída pelo mundo - a Europa está a cair, mas o Oriente e os EUA estão a subir. E a Vista Alegre é muito activa em Portugal, no Brasil, têm um show room em Nova Iorque, outro em Bombaim. Há possibilidades de expansão, porque também é a nossa estratégia.

Como é que se passa do design de moda para o design de objectos de decoração?

Se só adaptarmos ideias da moda à decoração sem qualquer filtro, esse não é o caminho certo. Por isso a nossa primeira reflexão foi [a partir da pergunta] "que design seria bom para se comer em cima dele?". A partir daí veio a ideia, muito Lacroix, de combinar e misturar peças, que também é muito actual. Nesta colecção não fizemos formas novas, são todas da Vista Alegre, mas misturámo-las. Isso torna-a um pouco mais moderna. A porcelana é sempre um pouco bourgeois e não podemos contrariar isso, é uma peça de valor, tem de agradar a quem a pode comprar. Mas ao mesmo tempo queria atrair uma nova geração para este tipo de produto, mesmo que comprem apenas algumas peças.

Porquê a Vista Alegre e não uma das muito famosas casas de porcelanas francesas ou britânicas?

Já tínhamos feito uma experiência em França.

Com a Christofle, em 1997.

Exactamente. Agora, especialmente depois da colecção com a Designer"s Guild, era um seguimento normal criar serviços de mesa. Fizemos uma digressão europeia dos fabricantes de porcelana [ri-se], falámos novamente com eles em França, fomos a Itália, Inglaterra... Finalmente, os ingleses estavam muito interessados mas eu não estava confortável por motivos técnicos. E... é a vida, encontrei-me com o Sam Baron, consultor da Vista Alegre, falei-lhe da nossa ideia e ele falou-me da Vista Alegre. Uma semana depois viemos conhecer a fábrica. Tive de convencer o meu CEO e foi um processo muito rápido porque começámos em Setembro para apresentar a colecção na Maison et Object em Janeiro - algo que não pensei que fosse possível. Estamos a trabalhar numa segunda colecção, mas que terá menos linhas.

Como é que funcionou o processo criativo? Há muitas viagens para Portugal?

Sim, viemos cá umas seis vezes, fora os emails, etc. Mandaram-nos as peças todas em branco e no estúdio em Paris fizemos cada peça à mão, colando os desenhos em papel em cada uma. Agora [esses protótipos] estão na fábrica e é muito divertido vê-los, parecem feitos por crianças. Mas foi bastante fácil. Há elementos, como a mistura de platina e ouro nos frisos dos pratos, que vêm dos meus anéis, que uso há anos e porque gosto de misturar prata e ouro. A linha Picassiete [uma das quatro para a Vista Alegre, com efeito de pratos quebrados e recombinados em patchwork] foi uma ideia que me disseram que era impossível. Mas na mesma reunião estava o inglês Peter Byron, que vem da [histórica casa de loiça de mesa britânica] Wedgwood e que há seis anos trabalha com a Vista Alegre. Disse-me que, por acaso, tinha tentado uma coisa parecida há uma semana. Depois de testado, foi perfeito. E é uma novidade no mercado - as pessoas que entendem de porcelana ficam maravilhadas com o que conseguimos fazer.

Nunca fugiu da ideia de acessibilidade, um contraste com o discurso oficial do luxo - apesar de se saber que a alta-costura é um sonho, suportado por negócios mais rentáveis, da perfumaria aos acessórios. Isso vem da sua experiência com a falência da Lacroix? E também da forma como a indústria da moda mudou, com o poder da moda rápida, das colaborações de criadores com as lojas acessíveis e, ao mesmo tempo, com a explosão de popularidade do sector?

Sim, foi em parte pelo que eu vivi com a marca, que achava ser demasiado fechada. Tínhamos produtos espantosos, muito caros e para ocasiões muito especiais. Era estreitar muito a possibilidade de tocar as pessoas. Por causa da alta-costura, que era uma experiência espantosa - ir a um desfile de couture é como estar num sonho - mas ao mesmo tempo nos torna mais distantes das pessoas. É também por isso que quase morremos. Por isso é que com estas linhas, quase toda a gente pode comprar e experienciar Lacroix. Estou convencido de que experimentar o luxo não deve estar preso ao facto de se ter ou não dinheiro. Há muita gente com um gosto requintado que não tem dinheiro.

Mas, ao mesmo tempo, não quero excluir as pessoas com muito dinheiro. Gosto de ter uma colecção com produtos high end com preços high end, mas de pensar sempre em pequenos produtos com pequenos preços. Nem sempre é fácil porque temos de escolher onde fazemos as coisas. O papel de carta e papelaria é feito na China pela sua perícia [na área], mas também pelo preço. E dizemos isso às pessoas: isto é feito na Índia, isto em Portugal, isto em França. Queremos ser uma marca global - que ainda não somos -, que não mente. Muitas marcas italianas etiquetam os seus produtos como "made in Italy", mas eu vi os stocks em Hong Kong, onde põem as etiquetas "made in Italy"... Respeito os clientes e penso que trabalho assim também porque não era suposto ser o director criativo da marca. Foi uma casualidade.

Ocupar o lugar de Christian Lacroix foi uma decisão difícil?

Sim, muito difícil. Trabalhei 17 anos com monsieur Lacroix, tínhamos uma relação muito forte e os últimos dois anos [dele na empresa] foram muito difíceis pelo que estava a acontecer e porque discordávamos muito. Ele decidiu sair porque tivemos de parar a linha de couture e, para ele, a sua casa sem couture já não era a sua casa. Respeito isso. Tentámos fazê-lo sem a couture, sem o prêt-à-porter para mulheres, reconstruir algo. Não voltámos as costas ao que era a Lacroix, na minha opinião tentámos torná-la vívida e também trazer-lhe uma nova geração, porque a clientela era muito velha. Hoje, na loja em Paris ainda lá estão as senhoras mais velhas à procura do lenço que tinham nos anos 1980, mas também muitos jovens e estrangeiros - japoneses, chineses, brasileiros, americanos. A linha masculina é muito mais jovem e temos também mais homens jovens. É isto que, para mim, melhor serve a casa.

Não haverá o risco de, assim, o nome Lacroix perder a identidade de marca de moda?

Para mim, a Lacroix é uma marca muito generosa e estou a tentar agora ser o mais próximo do que sei dele do que do que ele fez. É mais a forma como ele vê a vida e não tanto retirar coisas do arquivo e traduzi-las para hoje. Penso que não, porque temos acessórios, dos óculos às malas, aos lenços. E assim que a casa fique mais forte [financeiramente] adoraria voltar à roupa feminina.

Tem esse plano?

Sim, e agora sinto-me preparado. Se me tivesse perguntado há um ano, não o diria. Ainda não estamos lá, ainda estamos frágeis, precisamos de nos fortalecer e de perceber como é que voltaremos com roupa feminina. Não gostaria de fazer o que fizemos no passado, gostava de fazer algo para uma nova geração. Mas não penso que venhamos a perder a nossa identidade.

E quanto à alta-costura?

Não é o meu estilo. Adoro, os arquivos são de morrer, mas ao mesmo tempo estão mais no campo dos figurinos do que da moda. Tudo é muito pesado, quase não usável, muito rígido. É para uma só noite, é impossível viver neles. Não podemos ficar lá [nos arquivos] muito tempo porque é demais. Depois de dez, 20 peças, paramos porque já absorvemos demasiadas coisas. A minha educação na moda é mesmo prêt-à-porter, moda para as pessoas usarem todos os dias. Gosto de fazer uma peça especial, fabulosa, mas só uma. Gostaria de encontrar o equilíbrio entre o esplendor da Lacroix e algo que toda a gente gostaria de agarrar e usar imediatamente.

Que memória guarda do trabalho com Christian Lacroix?

Para mim não é uma marca, é um homem que conheci muito bem. Foi um acidente trabalhar na Lacroix. Fui a uma entrevista mais por diversão e passei - muito couture - por imensas reuniões até o conhecer. E quando nos conhecemos falámos não de moda, de várias coisas, e no final ele olhou para os meus desenhos distraidamente e disse que eu estava contratado.

Nos primeiros anos com ele, percebi o olho especial que tem, que vê o que os outros não vêem. E aprendi isso, o que tornou a minha vida muito mais interessante.