Uma estrada longe de mais

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Os velhos e o gado são praticamente os únicos a desenhar sombras e vultos nas esquinas

No Alvão, as aldeias de Lamas de Olo e do Barreiro lutam há décadas por uma estrada que as una. São apenas mil metros, mas a Quercus ameaça com os tribunais. O lobo-ibérico e a borboleta-azul, dizem, podem desaparecer. E as pessoas?

Houve tempos em que os habitantes da aldeia de Lamas de Olo não podiam ver os da aldeia vizinha do Barreiro invadir-lhes o território e muito menos a igreja aos domingos.

- As mulheres deste lado iam lá à missa e levavam os xailes pelas costas. Quando estavam sentadas a ouvir o padre as [mulheres] do lado de lá atavam-lhes as franjas dos xailes pelas costas, para que, quando se levantassem, se atrapalhassem e caíssem. Depois riam-se -, recorda Hermínia da Mota.

Tem 86 anos esta mulher que encontramos a tricotar umas meias azuis dentro de sua casa na aldeia de Barreiro. E se se lembra desta história foi de a ter ouvido incontáveis vezes de sua mãe. Teríamos de recuar muitas dezenas de anos para situar esses tempos no calendário. Nas últimas décadas, com as duas aldeias progressivamente esvaziadas de bailes e folguedos e com os velhos e o seu gado transformados em praticamente os únicos a desenhar sombras e vultos nas esquinas, é vê-los, aos de Barreiro e aos de Lamas de Olo, a quererem-se quanto mais próximos melhor.

Encavalitadas na cadeia montanhosa do Alvão, entre os concelhos de Mondim de Basto e Vila Real (as duas aldeias, a do Barreiro pertencente a Mondim, e a de Lamas de Olo, a Vila Real) são atravessadas por turistas que no Verão ali aliviam o cansaço citadino entre urzes, carvalhos e a expectativa de avistarem um lobo-ibérico antes que estes se extingam de vez. No resto do ano:

- Aqui somos poucos, lá poucos são; se nos juntássemos, mais seríamos -, vinca Clementina Mourão, 77 anos de um preto viúvo, a aproveitar o sol do início da tarde no quintal da sua casa cor de salmão em Lamas de Olo.

Para que a proximidade desejada vai para mais de 40 anos aconteça seria preciso que avançasse a estrada de ligação entre as duas aldeias. O traçado, de 2,5km, já existe há mais de 20 anos, por obra e graça do Exército. Mas é em terra batida. Só lá passam jipes ou tractores e um ou outro automóvel ligeiro mais afoito, mas, se calha chover muito ou nevar, nem esses.

- Temos que dar a volta por Varzieta, Pioledo, Anta... De táxi são 38 euros e aqui não há onde ganhá-lo. Se rompessem a estrada, eram cinco minutos e metade do dinheiro. Sendo preciso ir a uma consulta ao hospital, ia-se de táxi até Lamas de Olo por 10 ou 15 euros e, de lá, apanhava-se o autocarro para Vila Real. Assim leva mais de meia hora e é para quem tenha carro. Não se admite. E uma ambulância a mesma coisa... -, sintetiza Teresa Mourão, 47 anos, filha de Hermínia da Mota, com quem vive desde sempre na aldeia do Barreiro.

É Teresa e um rebanho de cabras para alimentar um agregado de seis pessoas. No momento em que o PÚBLICO a intercepta, carrega um bebé de 26 meses ao colo.

- Já viu o que é uma pessoa ir daqui para a consulta do miúdo em Vila Real? Sem carro (e aqui poucos o têm), temos que ir a pé até Lamas e apanhar lá a camioneta. E uma pessoa só a pé com ele ao colo não aguenta. Têm de ser dois. Dá para mais de uma hora de caminho. Se estiver a chover, é para chegarem todos molhados.

E anda a população há décadas anos nisto. O anterior autarca de Mondim até fez o que sentia que lhe competia e alcatroou o caminho até à fronteira com o município vizinho sem esperar por licença de ninguém. Estava-se em 2007 e alcatroar aqueles 1250 metros custou 168 mil euros. "Do nosso lado ficou feito e se do lado de Vila Real o problema for o dinheiro estamos disponíveis para fazer algum investimento no lado deles também", assevera o actual autarca de Mondim, Humberto Cerqueira (PS).

A questão é que aquela meia empreitada só terá sido possível porque à data o escrutínio ambientalista não era tão vigilante. Por isso é que o autarca de Vila Real, Manuel Martins (PSD), ao dizer ao PÚBLICO que o resto da estrada está finalmente pronto a avançar faz também questão de sublinhar isto: "Tendo tido a preocupação de respeitar todas as regras inerentes a uma área classificada e mostrando um profundo respeito pela natureza e pelas biodiversidade, conseguindo que todas as entidades que se devem pronunciar o tenham feito de forma afirmativa, respeitando a lei e obtendo todos os pareceres necessários."

Estava com isto a população pronta a deitar foguetes quando - e porque as duas aldeias se inserem nos 7200 hectares do Parque Natural do Alvão - a Quercus veio colocar novo travão. "É uma infra-estrutura que trará efeitos negativos nas já ameaçadas alcateias, com a previsível passagem de milhares de carros por ano em locais que actualmente têm uma intensidade quase nula de tráfego", argumenta a Quercus. Que já está a compilar argumentos para travar o arranque da estrada nos tribunais. "Não está prevista no Plano Director Municipal, não está prevista no plano de ordenamento do Parque Natural do Alvão e, além disso, interfere com o lobo-ibérico e com a borboleta-azul", antecipa ao PÚBLICO João Branco, do núcleo local da Quercus.

O reaparecimento da borboleta-azul (Maculinea alcon, entre entendedores) é visto como uma espécie de reconciliação do homem com a natureza pelos ambientalistas. Que andam (com o apoio da autarquia e financiados pelos 1,7 milhões de euros comunitários dedicados ao Programa de Preservação da Biodiversidade) a tentar repovoar deste e doutras espécies aquele território definido pelas serras do Alvão e do Marão.

Atravessam-se então estes tais mil metros de terra batida que separam as duas aldeias com os argumentos prò Ambiente na retina e eis o olhar mais atento aos corvos que agora mesmo descem do céu num voo sem augúrios. Olhem a urze com que se faz o mel de montanha que depois aparece em frascos com rótulo gourmet e preço a condizer. Eis aqui a carqueja prontinha para o chã antidiarreico, anti-séptico, antigripal e há-de lá descobrir-se mais o quê. Eis acolá o carvalho português, mais raquítico do que o americano. Lobos e borboletas-azuis é que não se vêem. Não é de surpreender, ou não estivessem ameaçados.

Superados os aclives e declives que ameaçam deixar esfrangalhados os amortecedores do carro, chega-se finalmente ao fim do caminho, e uma das primeiras casas que aparecem no Barreiro é a de Albertina Anjos. Há-de explicar-nos daqui a nada que tem 67 anos, viúva.

- Os lobos? Mas quais lobos? -, questiona, quando o PÚBLICO a confronta com os argumentos dos ambientalistas para impedir a estrada. E prossegue:

- Onde é que já se viu um lobo deitar a pata a um carro?! E qual é o problema das borboletas? Há-as azuis, brancas, amarelas, de toda a qualidade. Quer-se dizer, a borboleta vai contaminar a vista ao motorista do carro, é isso?

- É o contrário. A ideia é que atrás da estrada vêm carros e a poluição vai afastar estas espécies importantes

- E são importantes porquê? Para eles são importantes?

- Sim.

- Mas para nós não. E se são importantes para eles por que não vêm morar para aqui, no meio dos animais? Que rompam mas é a estrada de uma vez. Anda a gente aqui sem dinheiro para o consumo da casa e ainda nos querem obrigar a dar 30 ou 35 euros por um táxi?!...

Ao isolamento deste lugar a 900 metros de altitude, Albertina Anjos soma estupefacções mais recentes:

- Andaram esses do ambiente por aí a espalhar os porcos do monte [javalis] e agora a gente nem é senhora de granjear [cultivar] a terra porque os porcos reviram tudo. As batatas nem tanto, mas o pessoal daqui já deixou de cultivar milho por causa disso. E se não se granjeia o milho para as cabras já se sabe que tem que se o ir comprar. Quem paga? A serra ou há-de ser das pessoas ou desses animais -, prossegue.

E depois conclui:

- Isso de estar a aguardar respeito aos lobos e a desprezar a gente parece-me muito ao contrário. Eu, por muito que queira aos animais, quero muito mais aos meus filhos e aos meus netos. E depois essa coisa dos lobos: há um que se vira ao gado quem é que vai pagar? Ainda se estivessem a falar de cabras ou de vacas que sempre vão dando algum resultado aos lavradores...

Por essas e outras é que, segundo o entendimento do mundo de Albertina Anjos, a aldeia de Barreiros está reduzida a pouco mais de 16 habitantes "efectivos". Os Censos não os contam porque estamos a falar de uma aldeia que, juntamente com outras três, integra a freguesia de Ermelo, com 483 habitantes. Serão estes os utilizadores preferenciais da nova estrada, dado que, porque mais próximos de Vila Real, tendem a recorrer mais aos serviços desta cidade, dotada de um hospital distrital. Um dos problemas, segundo João Branco, é que a estes se juntariam os milhares de turistas que no Verão repousam por ali o seu cansaço citadino, nomeadamente nas Fisgas de Ermelo, onde as águas do rio Olo se despenham em fúria.

E é também por causa e em nome destes visitantes que a Quercus recusa com tal veemência à abertura da nova estrada. "Essa via vai acabar por servir todo o tráfego rodoviário da zona, nomeadamente o trânsito regional de Mondim para Vila Real", atemoriza-se Branco. Quanto ao isolamento dos habitantes que ainda restam no parque, responde que esta é a realidade que se aplica a cinquenta outras aldeias. "E não é por isso que agora se vai desatar a fazer estradas a partir de todas elas para Vila Real. Aliás, o paradigma do desenvolvimento baseado na construção foi o que tivemos até hoje e o que levou o país à ruína", sublinha. E acrescenta: "A única coisa que faz sentido desenvolver naquelas aldeias é o turismo de conservação da natureza. Se se põem agora com estradas que dão cabo dos valores naturais, o parque perde interesse para os visitantes", acrescenta ainda.

Outro argumento a favor dos ambientalistas: Lamas de Olo tem acesso directo ao centro de Vila Real e nem por isso deixou de perder habitantes. Eram 177 em 2001, restavam 109 em 2011.

Andamos nós neste leva e traz de argumentos a favor da estrada e contra a estrada e esbarramos agora com o autarca local, Domingos Peixoto, à porta da sua junta, em Lamas de Olo, campos a perder de vista. Sustenta ele que a desertificação teria sido menos acelerada se do isolamento não resultasse uma factura tão alta

- Os emigrantes que querem regressar à terra chegam cá para recuperar as suas casas e esbarram num sem fim de entraves. Com a criação do parque natural, começaram a implicar com tudo e mais alguma coisa e muitos desses emigrantes acabaram por comprar casas noutros sítios, mais próximos da cidade.

Não se confunda o seu pragmatismo com desrespeito pela natureza.

- Sou um defensor da natureza, vivi vinte anos na Suíça e lá não se brinca com estas coisas, mas isto de colocar a bicharada à frente das pessoas não me entra na cabeça -, desfere, para lembrar que o projecto inicial de asfaltação do caminho foi entretanto substituído por outro que prevê a pavimentação em cubo de pedra. Acresce que o pontão que, no mesmo caminho, assegura a travessia sobre o rio Olo, e a que muitos apontam valor histórico, não será desmantelado, apenas reforçado com outro mais capaz de suportar a carga rodoviária.

Ao campo onde não muito longe dali Joaquim Alves passeia agora as suas mãos nos bolsos (tantas casas vazias, tantos campos sem animais a pastar) também chegou a notícia de que a estrada estará pronta a avançar. O que não chegou foi explicações cabais para que o projecto esteja, uma vez mais, a ser posto em causa. "Aquilo nem um quilómetro é e por causa de umas borboletas não vão fazer a estrada?!", espanta-se.

- As borboletas são uma espécie rara em vias de extinção e também há os lobos...

- Mas então eles não sabem que se não houver gente não há rebanhos e que, sem cabras nem ovelhas, o lobo também não há-de parar muito por ali por não ter o que comer?!

Bem pode João Branco argumentar que, à falta de presas domésticas para abocanhar, os lobos aprenderão a alimentar-se de outros animais. Há a raposa, os ratos, os coelhos... E mais exemplos haveria, mas a Joaquim Alves, pelo menos, o ambientalista não convence:

- Por que é que não se preocupam antes com as pessoas? Foi tudo para fora, já há pouco quem semeie estas terras e mesmo estes querem mandar embora? Que deixem mas é vir lá os de Barreiro que não estorvam, até ajudam. Tudo ligado é que é bom.

De volta ao casario central de Lamas, Lurdes Vale, lenço castanho, bata suja sobre umas calças de fato de treino e assobio na mão, confirma também ser "toda a favor do caminho".

- Faz falta aqui alguma novidade. Sem gente aqui o que é que se faz? Cabras já há poucas, porque os novos emigraram e os velhotes já não têm forças para andar pelos montes em cima delas. Preferem o gado que se dá sozinho nos currais. E é disso que se vive, do gado nas pastagens.

Diferente seria se houvesse árvores de frutos capazes de aguentar o clima do lugar. Sem elas, os habitantes abastecem-se de frescos nos supermercados e na praça do centro de Vila Real.

- Temos autocarro três vezes ao dia e é o que nos vale, mas qualquer dia até isso nos tiram.

Sem mais a quem perguntar, desce-se a Rua Cimo da Aldeia e ouve-se o martelar de alguém que repara uma cerca para prevenir trânsfugas entre o gado.

- Primeiro que as borboletas estão as pessoas.

Pedro Vale, 34 anos (quem diria?), exaspera-se por estar alguém a pôr outra vez em xeque o projecto da nova estrada:

- Vinha uma ambulância e do Barreiro a Vila Real seriam cinco minutos. Virem com o argumento das borboletas... Se assim é, por que deixaram construir aquelas eólicas. Vai lá e é só morcegos mortos no chão.

Às eólicas Clementina Mourão conhece de as ver ao longe. Está sentada no quintal da sua casa e, esquecida do apanhador de lixo que tem entre as mãos, recorda o tempo em que ia de carro com o marido comer o arroz de cabidela servido por encomenda no Café Leal, no centro do Barreiro.

- Vinha o filho buscar-nos de carro. Ainda era volta para durar mais de uma hora.

Não é que o filho não pudesse repetir o passeio. O problema é que o café entretanto fechou. Impossível não reparar nele, à entrada do Barreiro, no rés-do-chão de uma casa com pinta de emigrantes, mansarda de vidro e alumínio a toda a volta. Na janela, vários cartazes a convocar para as festas, mas de anos passados.

- Eram emigrantes que decidiram investir naquilo, mas, claro, sem clientela para aguentar o negócio, fecharam -, situa-nos Clementina.

E agora?

- Há os de cá e dos de lá.

- E há os telefones.

- Consegue ir a um funeral de telefone? Olhe, para mim é como se fossemos uma família separada. E assim vamos acabar por morrer.

Anda o país esquecido do que lembra Clementina que nem para a quarta classe há-de ter tido escola:

- Quem fazia a força na cidade eram as aldeias. E sem gente nas aldeias, morrem as cidades também.

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