Percurso singular de um homem plural

Óscar Lopes foi o último representante, entre nós, de uma dimensão grandiosa dos estudos literários que convocava muitas outras disciplinas das ciências humanas, abolindo as fronteiras entre elas: a teoria literária, a linguística, a filosofia, os estudos comparatistas, a história literária, a psicanálise, etc. Com uma consciência política que

envolvia também uma concepção antropológica da criação literária, encarnou o lado quase utópico das ciências humanas, num momento em que estas viveram uma fase de encantamento, com a linguística a desempenhar o papel de "ciência piloto". E Óscar Lopes, embora mais conhecido como co-autor (com António José Saraiva) de uma história da literatura portuguesa, foi também um linguista, e foi como professor de semântica formal que fez a sua tardia carreira de professor da Universidade do Porto.

Essa disciplina levava-o a fazer incursões - raras em estudiosos com a sua formação - na lógica e na matemática. As contribuições da linguística marcaram o seu ensaísmo literário (veja-se o seu estudo sobre a poesia de Eugénio de Andrade, Uma Espécie de Música) e deram-lhe um cunho científico que nunca se deixou reduzir aos desígnios da formalização. Este trânsito entre a linguística e a literatura permitiu-lhe, no entanto, interrogar o fenómeno literário muito para além do que a sua historiografia literária pode dar a ver. Enquanto responsável, nessa obra que é a História da Literatura Portuguesa, da época moderna e contemporânea, foi procedendo a reformulações e actualizações, mas nunca se mostrou plenamente satisfeito com o seu trabalho. Disse muitas vezes que se tratava de uma obra de "dois amadores". A complexidade das relações entre uma literatura nacional e as outras tornou-se uma questão fundamental que o levava a ter um olhar bastante crítico em relação à sua obra de historiador da literatura. Além disso, tinha a consciência de que a inscrição do fenómeno literário na ordem da história era algo muito complicado, que um marxismo vulgar tinha resolvido facilmente, mas que o seu marxismo interrogava com outra profundidade. Não é por acaso que uma referência teórica fundamental num dos seus últimos livros, A Busca do Sentido. Questões de Literatura Portuguesa, é o grande linguista russo Mikhail Bakhtine, cuja teoria do dialogismo atraiu Óscar Lopes de maneira poderosa. Bakhtine funcionou como um antídoto de todo o monologismo ideológico.

Mas esse livro aponta para uma busca ensaística do "sentido"- e a sua noção de crítica sempre proveio de uma atitude ensaística - que mostra bem como Óscar Lopes, nessa altura (meados dos anos 90), embora acompanhando com enorme curiosidade o que se passava no campo do saber, não se sentia sintonizado com algumas palavras de ordem do pós-modernismo, uma das quais colocava a questão do sentido entre parêntesis.

A Óscar Lopes foi reconhecida, muitas vezes, a abertura crítica a autores que estavam muito afastastados dos seus ideias políticos. Agustina Bessa-Luís foi uma das suas descobertas entusiamadas, e foi ele que colocou a escritora num lugar muito elevado da ficção narrativa da literatura portuguesa do século XX. Tal como foi um dos críticos electivos de Eugénio de Andrade. E, na poesia portuguesa contemporânea, descobriu com euforia António Franco Alexandre, por altura de As Moradas 1 & 2. Em 1995, disse numa entrevista que estava a ler Herberto Helder com a vontade de escrever um ensaio sobre ele porque, tendo lido algumas teses sobre a obra deste poeta ("que tem uma visão do mundo completamente oposta à minha"), tinha sentido que ele exigia uma outra aproximação crítica. Ler, dizia ele, "é sempre colocar-se à distância, reorganizar os eixos de equilíbrio, remexer".