Na proa da inovação

Um vulto de proa, porque efectivamente na proa da inovação da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. Um humanista: na atenção ao homem colocado sempre no centro da sua interrogação ensaística, em permanente busca de novas soluções para as questões que o mundo e o conhecimento lhe iam suscitando, sem nunca perder um norte ideológico que perseguia com estudo, debate e dúvida. Um investigador com uma energia de saber inusitado e que explica o voluntarismo que o levou, num clima extremamente adverso (com censura, proibições de viajar, correspondência devassada, impedimento de ensinar na Universidade; afastamentos pontuais do ensino, etc, etc), a desenvolver pesquisa de ponta em vários domínios. Um sábio ciente de que não há campos estanques no conhecimento, convocando todos as disciplinas que frequentava: da literatura à física, da linguística à matemática, da música à filosofia. Um cidadão empenhado em compreender e encontrar as melhores soluções para o mundo que lhe foi dado viver. Um homem bom na permanente disponibilidade para atender o outro, do mais insignificante estudante ao mais destacado intelectual. Um amigo dos melhores que a vida me concedeu. Destacaria três domínios onde a sua actividade foi especialmente singular: a crítica literária atenta à materialidade da forma, desenvolvida no Comércio do Porto nos anos 50 e 60; o essencial da sua historiografia literária no livro Entre Fialho e Nemésio; a originalidade da sua pesquisa no âmbito da linguística formal em Gramática Simbólica do Português.

Tenho saudades das camélias do seu jardim que gostava de colher para mim.

Isabel Pires de Lima, professora catedrática da Faculdade de Letras do Porto