A mentira como única arma política?

Talvez seja mais do que tempo para abandonarmos os malabarismos linguísticos que ocultam puras imposturas intelectuais e manipulações dos factos. Porque usamos o neologismo da "inverdade" para designar o que todos traduzem como "mentira".

Compreendo que os políticos, em causa própria, defendam que em política se aplicam normas diferentes, paradigmas diversos, na relação entre as palavras e o seu significado, entre a retórica discursiva e a realidade observável pelo cidadão comum. Mas é tempo de deixar de aceitar essa prática como praticamente o único recurso a que esses mesmos políticos, de forma transversal, lançam mão para comunicar com o resto da população.

Não é de agora que o discurso político se cobre de mantos opacos de artifícios de linguagem para ocultar factos ou para justificar palavras e actos antigos ao que se designa como uma nova luz. O tempo presente é fértil nessa forma premeditada de enganar. Há alguns anos, analisando a ascensão do New Labour, Peter Oborne descreveria esse processo de "mentira política" como um recurso útil de curto prazo, mas que, ao funcionar uma e outra vez, se torna um recurso compulsivo e acaba a minar a relação entre os políticos e o eleitorado. Muitos anos antes, já Lipovetsky, entre outros, denunciara indiferença do eleitorado em relação aos políticos pela saturação resultante da repetição das suas mensagens vazias de verdadeiro significado.

O novo milénio tem sido cruel para Portugal nesta matéria. Vamos perdendo a conta aos anos em que a mentira parece ser a única forma de os políticos se relacionarem com o eleitorado para ascenderem ao poder e nele se manterem. Quando não optam por continuar a repetir essas mesmas mentiras depois de deixarem o poder, perante a mentira dos novos senhores. Como se as mentiras de hoje tornassem verdadeiras as mentiras de ontem.

Ou então optam por fórmulas vagas, ambíguas ou mesmo brincadeiras de mau gosto em que o desemprego se torna uma oportunidade, a miséria um estímulo para o empreendedorismo. Há os que se refugiam atrás de lapsos para esconder que falharam, há os que parecem considerar que a verdade tem um prazo. Que a verdade é contingente.

Na área da Educação temos um ministro que se destacou pela crítica que fez à utilização da linguagem como forma de enevoar a realidade, que se ergueu como comentador de políticas educativas graças à denúncia clara que fez de teorias que considerava abusos intelectuais devido à forma como retratam de forma truncada e distorcida a realidade. Um ministro que habituámos a considerar um homem de rigor, de ciência, de objectividade, capaz de enfrentar os factos com coragem, sem tergiversar e recorrer a relativismos pós-modernos na sua abordagem do real.

Se de outros poderíamos esperar uma relação mais difusa e confusa com os factos, de Nuno Crato esperava-se clareza, frontalidade, coragem e capacidade para assumir posições em que a verdade não se torna contingente conforme as conveniências. Em que o contexto não justifica tudo.

Nos últimos dias, ausente no Brasil, Nuno Crato deixou que garantias suas fossem desmentidas, porque, afinal, a verdade durava apenas os meses de um ano lectivo.

Se de um chefe de gabinete elevado a secretário de Estado pouco se esperaria para lá de ser alguém que estabelece contactos e cria o ambiente propício a entendimentos, um facilitador político, já de um ministro que exibia um currículo e um percurso com alguma notoriedade e credibilidade se esperava maior coragem em assumir políticas que ou subscreve e não se ausenta quando são anunciadas, ou não as subscreve e abandona o seu cargo.

O que está em causa não é uma questão corporativa, uma questão de conflito entre professores e tutela. É uma questão de cidadania, entre governados e governantes. De confiança. Que fica irremediavelmente destruída, pois a verdade, mesmo que não seja absoluta, precisa de não ser definida com prazos ocultos.

O anúncio de que o compromisso assumido pela equipa do MEC de que os professores ficavam fora da mobilidade especial tinha a validade de um ano lectivo demonstra que qualquer compromisso destes governantes, de qualquer governante deste Governo, vale pouco mais do que a data impressa numa embalagem de iogurte.

Professor do ensino básico. Doutorado em História da Educação