Vejamos então toda a criatividade do homem que inventou David Bowie

Foto
Fato assimétrico, criação de Kansai Yamamoto (1973), uma das peças expostas no V&A - 47 mil bilhetes vendidos antes da inauguração fotos: LEON NEAL/AFP

David Bowie Is inaugura-se amanhã no Museu Victoria & Albert, em Londres. Antes da estreia, é já a exposição mais bem sucedida do museu. Faz todo o sentido. Bowie regressou. Temos sede de Bowie

David Bowie Is, a antecipada exposição que o Museu Victoria & Albert, em Kensington, Londres, dedica ao autor de Space Oddity, inaugura-se amanhã. Bowie é um dos grandes criadores pop do século XX. O Victoria & Albert é o maior museu do mundo dedicado ao design e às artes decorativas. E não é estranho que David Bowie Is seja o grande destaque da programação deste ano e, ainda antes da inauguração, o maior sucesso da história do museu.

Quarta-feira foi organizada uma visita para convidados e lá estiveram celebridades como Noel Gallagher ou a actriz Tilda Swinton, que contracena com Bowie no vídeo para The stars (Are out tonight), o segundo single do novo álbum, The Next Day. O homem que justificou tudo isto não foi visto no museu onde estão expostas 600 peças, a maioria da sua colecção pessoal. Mas será importante que o homem nascido David Jones lhes surja em carne e osso numa das salas do Victoria & Albert? Melhor, será sequer viável tal aparição? Pelo que vem sendo descrito na imprensa, por aquilo que o curador Geoffrey Marsh disse ao PÚBLICO em Janeiro, diríamos que não. Bowie são várias camadas de projecções sobrepostas. E já temos por certo que nunca conheceremos o homem que se esconde por baixo do terramoto pop, do vanguardista, desse criador absorvendo tudo à sua volta. Esse "freak com maquilhagem", como lhe chamou em 1973 um jornalista da BBC, Bernard Falk, desgostoso com a decadência civilizacional que representava o sucesso daquele ser andrógino. Quando Bernard Falk morreu, em 1990, já teria cedido ao impacto do "freak com maquilhagem". Porém, talvez se surpreendesse com isto: David Bowie Is pulverizou os anteriores recordes do Victoria & Albert, com 47 mil bilhetes pré-vendidos. E The Next Day é nº1 em Inglaterra, em Portugal e em dezenas de tabelas espalhadas mundo fora. David Bowie Is ficará no Victoria & Albert até Agosto. Depois, viajará pelo mundo. Há negociações para a levar à Austrália, ao Japão, a Paris, Berlim ou São Paulo.

Que a música "pareça como soa"

O tumulto que provocou o regresso de Bowie, num tempo em que os regressos na pop são tudo menos novidade, explica-se pela dimensão icónica de David Bowie. A exposição explica-a. Bowie sempre disse que, na sua expressão criativa, a música está primeiro e que os conceitos que a acompanham, do Ziggy viajante interestelar à distopia de Diamond Dogs, nascem posteriormente. Não está interessado em moda, apenas em que a música "pareça como soa". No entanto, o britânco Guardian enviou dois dos seus críticos para cobrir a exposição. Um de música pop e um de moda. E a exposição é patrocinada pela Gucci.

O alcance de Bowie está na indefinição. A dúvida é legítima: falamos de um músico que percebeu as potencialidades das outras expressões artísticas ou de alguém das artes dramáticas e visuais que se apaixonou pelas possibilidades do fenómeno pop? Quando falamos de Bowie, falamos de ambos. Na visita de quarta-feira, Tilda Swinton contou que, aos 12 anos, comprou o LP de Alladin Sane e andou com ele debaixo do braço durante dois anos, sem aparelhagem onde pudesse ouvi-lo. "Como tantos outros, foi a sua imagem que primeiro me cativou", afirmou. É da intersecção entre a música e a imagem que vive a exposição, sempre com o foco na expressão artística e sem tentações voyeuristas quanto à vida pessoal.

À entrada vemos um trabalho da dupla Gilbert & George, enquanto ouvimos uma peça de John Cage. Depois, sim, surge pendente o relâmpago que atravessa a capa de Alladin Sane. Em Janeiro, o curador Geoffrey Marsh afirmava que Bowie "vive fascinado pelo modo como as coisas se vão metamorfoseando ao longo da vida e pelos seus processos de aceleração e abrandamento". Acrescentava: "Na verdade, a história parece confirmar as viagens de Major Tom, a navegar erraticamente por outras dimensões." A exposição não é portanto cronológica. Funciona como se as peças se conjugassem num contínuo que não é necessariamente temporal. Há uma sala "preto e branco" dedicada ao período berlinense onde estão expostos um dos sintetizadores usados pelo produtor Brian Eno ou um retrato de Iggy Pop assinado por Bowie. Estão, noutras salas, manequins vestindo as marcantes peças glam, como o fato emblemático criado pelo estilista japonês Kansai Yamamoto.

Em David Bowie Is assoma o criativo no controlo de tudo: visível nas imensas correcções em cada letra de música, nos detalhados desenhos de luz idealizados para a digressão de Station to Station. E, a cada momento, estabelecem-se as ligações que pretendem mostrar que Bowie é fulcral na cultura contemporânea por ser mais que música.

Da exposição está praticamente ausente o período entre Let"s Dance, 1982 e The Next Day. Depreende-se então que das suas quatro décadas de percurso reduzem-se a 15 os anos de criatividade inimaginável em transformação constante. Isso não é menorizador. A sua presença foi tão forte nesses 15 anos que Jarvis Cocker, vocalista dos Pulp, afirmava ao NME: "Teve um impacto real na nossa cultura, levou muitas ideias subversivas, muito alternativas, até às salas de estar. Tinha um nome muito normal - David Jones - e de certa forma era um pessoa típica do seu tempo, mas ainda assim transformou-se numa criatura única." Depois acrescentou uma coisa que, na boca do rei do sarcasmo e da ironia, nos faz perceber a dimensão quase messiânica do homem que enterrou David Jones. Para Cocker, o regresso do autor de Bowie é "como ter uma força benigna a pairar sobre nós".