O novo teatro do Porto é assim: sem dinheiro

"Quando trabalhas com zero, como nós trabalhámos na nossa primeira produção, vives da boa vontade de instituições e pessoas. Toda a gente saiu tão pobre ou tão rica como entrou: o dinheiro em caixa foi para pagar o investimento pessoal feito no espaço"Luís Araújo, OTTO - Associação Cultural
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"Quando trabalhas com zero, como nós trabalhámos na nossa primeira produção, vives da boa vontade de instituições e pessoas. Toda a gente saiu tão pobre ou tão rica como entrou: o dinheiro em caixa foi para pagar o investimento pessoal feito no espaço"Luís Araújo, OTTO - Associação Cultural

São poucos a fazer o trabalho de muitos. Lutam por parcerias e apoios, por um futuro em que possam pagar (e já agora receber) salários - mas também sabem que nesta fase ficar parado pode ser igual a nunca começar. Cinco novas companhias de teatro do Porto contam-nos como tem sido.

A OTTO e a Má Companhia nasceram em 2012 - o melhor ano em termos de produções para A Turma. Um ano antes, apareceram o TIPO e o Musgo. Todas são companhias de teatro do Porto criadas nos últimos quatro anos. Quando os seus fundadores se decidiram a avançar com a ideia, já sabiam que os apoios não abundariam. A crise no teatro não é coisa de 2013 e ninguém aqui estava por fora dos problemas - a história do novo teatro do Porto é, como outras da sua geração, uma história de resistência.

"Nós começamos nas condições mais adversas, mas isso foi um investimento e uma aposta", diz Manuel Tur, um dos membros fundadores do colectivo A Turma. Não é o único a dizer isto: começar com zero é um denominador comum a estas novas companhias (mas há outros pontos que se tocam nas histórias de todas). Ainda assim, Manuel não quer que os profissionais d"A Turma - fundada em 2008, a companhia tem sete produções no currículo, cinco das quais em 2012 - sejam vistos como sobreviventes. "Sempre trabalhámos assim, sempre fomos percebendo como fazer o nosso próprio percurso." As "condições mais adversas" de que este actor e encenador do Porto fala implicam equipas reduzidas e tarefas partilhadas entre todos, mesmo que isso signifique fazer trabalhos de outras áreas - a falta de orçamento a isso obriga. Lançar teasers na Internet e pensar as redes sociais como forma principal de divulgação - tudo manobras de baixo custo.

"Como somos um grupo informal e não temos qualquer tipo de apoio, faço muita coisa que em companhias grandes não faria", corrobora Joana Moraes, directora artística do Musgo. "Como o projecto é nosso e acreditamos nele, temos de nos sacrificar, por assim dizer." É um sacrifício quase voluntário, feito na consciência de que, em início de carreira, ficar parado pode ser igual a nunca começar.

"Não podíamos ficar à espera de que as coisas aparecessem ou de que nos viessem bater à porta a convidar", diz Joel Sines que, com o irmão gémeo Tiago, com quem estudou na Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE), fundou a Má Companhia. "O gosto e a vontade de fazer eram maiores do que a oferta de trabalho, pelo que nos pareceu o momento ideal para formarmos o nosso grupo, pôr as ideias e os projectos em prática", desenvolve. O momento ideal, para os irmãos Sines, apareceu em Setembro de 2012, entre trabalhos ou a falta deles; encenaram Um Lugar na Noite, a partir de Vida breve em três fotografias de Bernardo Santareno, logo no mês seguinte.

Luís Araújo, actor também formado na ACE, e Ricardo Braun, licenciado em Som e Imagem pela Universidade Católica, os fundadores da OTTO - Associação Cultural, também não fogem às questões financeiras como a maior dificuldade. "Quando trabalhas com zero, como nós trabalhámos na nossa primeira produção [Katzelmacher, de Rainer Werner Fassbinder], vives da boa vontade de instituições e pessoas para figurinos e projectores", explica Luís, para quem não poder pagar a uma equipa (e a si próprio) é "a dor maior". "O que não deixa que Katzelmacher tenha sido uma espécie de primeiro projecto perfeito é o facto de toda a gente ter saído dele feliz, mas tão pobre ou tão rica como quando entrou: todo o dinheiro em caixa foi para pagar o investimento pessoal feito no espaço."

Joana Moraes, professora no Conservatório de Música de Porto e formada na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE), desdramatiza: "Não é estranho conceber um espectáculo sem dinheiro nenhum." No Musgo - e aqui podia ser inserido o nome de qualquer uma das cinco companhias aqui retratadas - fazem-se espectáculos com "200 ou 300 euros que chegam a praticamente mil pessoas" e trabalha-se "à bilheteira, ganha-se o que se ganhar". "Mesmo que não haja dinheiro para construir cenário absolutamente nenhum, é importante, sobretudo, pagar às pessoas", sublinha Joana.

As estruturas fixas destas companhias são mínimas (excepção para A Turma, com oito residentes), as equipas são feitas conforme as necessidades das produções e a disponibilidade dos colegas e amigos que aceitam trabalhar apenas para o currículo. Equilibrar a vontade de avançar com uma ideia própria e a necessidade de ser pago nem sempre é pacífico. "Só posso estar com o TIPO quando não tenho outra coisa", admite Paulo Freitas, director do Teatro Inédito do Porto, já na quarta produção. Joel Sines vê as coisas de outra perspectiva: "A partir do momento em que começamos um projecto destes deixamos de ir a audições por um período de tempo, e perdemos oportunidades para procurar trabalho remunerado."

Joel reconhece, até, que é preciso "mendigar" por apoios e garantias. Enviar e-mails, esperar por respostas, bater à porta, pedir por favor. "A minha vontade de produzir - e acredito que a dos outros grupos emergentes também - é tanta que se tiver de fazer sem luz artificial, faço, uso natural. E se não puder ter copos que combinam, não é importante", refere. Nas peças do TIPO, usam-se figurinos que saíram de armários perdidos em casa, exemplifica Paulo Freitas, adepto do "fazer com o que se tem". É mais uma operação comum a estas cinco novas companhias: descomplicar.

Nómadas

O que nenhuma destas cinco companhias tem é um espaço próprio, uma sede. Reúnem em cafés, em casa uns dos outros, em salas cedidas. O que resta dos cenários das produções já estreadas está espalhado pela cidade, nas arrecadações de cada um. "Não temos um espaço essencialmente por razões financeiras, não temos dinheiro para pagar uma renda", diz Manuel Tur, que não sabe se ter sala é "necessariamente vantajoso". "Para nós, nunca foi impeditivo", assegura.

O Musgo, diz Joana Moraes, até gosta de ser "um bocadinho nómada" e de se adaptar aos espaços que surgem. "Tem funcionado bem até agora" - Gostava de ter um periquito... (Maio de 2011) e A Casa de Georgienne (Outubro de 2012) foram apresentados nos Maus Hábitos e numa casa desabitada da cidade, respectivamente.

Já para Luís e Ricardo, da OTTO, um espaço permitiria assegurar a realização de actividades paralelas ao espectáculo teatral propriamente dito. Edição de textos - que, "infelizmente, não é prioridade de muitas estruturas", aponta Ricardo -, ciclos de cinema e documentários são algumas das ideias que os dois amigos têm e que gostavam de conseguir "pensar e executar, relaxadamente", sem estarem dependentes "da boa vontade alheia".

Sem casa própria, cada uma destas companhias vê-se na obrigação de procurar alternativas. "No Porto, neste momento, é muito difícil encontrar um espaço onde apresentar alguma coisa", diz Manuel Tur, para quem até ensaiar é problemático. "Vemos companhias subsidiadas, e já com muitos anos, a abandonarem os seus espaços, como As Boas Raparigas", continua Tiago Correia. "A verdade é que há muito pouca ajuda entre instituições", refere Joel Sines, que encontrou no Teatro Universitário do Porto (TUP) o único parceiro disponível. A sua Má Companhia vai na segunda produção no TUP (Cara de Fogo, de Maryus von Mayenburg, esteve em cena nesta sala até domingo passado).

Locais que não são normalmente usados para teatro afiguram-se, muitas vezes, como a única opção: a primeira produção da OTTO teve lugar no Loft e o TIPO tem sido recorrente no Contagiarte, além de apostar em levar peças para fora do Porto (Anteontem, um inédito de Paulo Freitas, vai estar no Cineteatro Eduardo Brazão, em Valadares, de 8 a 14 de Abril). Para o Musgo, contudo, este não é um problema que precise de solução urgente: os seus membros preferem pensar um espectáculo para um local específico. "Não é nada de novo, este site-specific, mas a nós interessa-nos descobrir o que é que o espaço nos dá. Não quer dizer que não possamos ir para um palco, mas gostamos muito de trabalhar locais como casas desabitadas", reitera Joana Moraes.

Protestar - ou não

Nem todas estas companhias estiveram na manifestação que, no início de Janeiro, juntou profissionais do teatro do Porto contra os cortes nos apoios da Direcção-Geral das Artes (DGA). Uns porque estavam a trabalhar, outros porque não acreditam por inteiro nas reivindicações que se ouviram na rua. Luís Araújo não acha "necessariamente mau que algumas companhias fiquem sem apoios". "Embora me reveja no trabalho e no esforço de muitos dos profissionais que estiveram no protesto, não me revia muito no esforço de outros e, então, senti que estar lá seria pô-los a todos no mesmo saco e apoiá-los a todos por igual", reflecte.

Joana Moraes esteve lá e, a par de Tiago Correia e Manuel Tur, acredita que chamar a atenção para a situação que se vive na cidade é importante. Joel Sines, que estava a trabalhar na tarde da manifestação, compreende os "grupos que já têm uma programação e que dependem dos apoios" e perspectiva que serão estes a sofrer mais com os cortes. "Nós [novas companhias] já estamos a crescer nesta situação que eles andam a evitar", acrescenta. Paulo Freitas, que criou o TIPO com 19 anos, não sabe como será o futuro, "num momento em que o teatro português está em dificuldades mas o portuense ainda mais".

E assim se chega ao ponto mais sensível desta discussão sobre o novo teatro do Porto: o financiamento do Estado e os mais do que famosos apoios pontuais da DGA. Há quem tenha concorrido e quem tenha deixado passar a data, por contratempos ou convicção. A Má Companhia escolheu não concorrer, não por incapacidade de elaborar uma proposta mas por serem, ainda, "tão novos". "Não ser dependente destes dinheiros, logo ao início, cria um instinto de desenrasque. Estas companhias novas desenrascam-se e sobrevivem muito devido ao empreendedorismo", argumenta Joel. O TIPO teve um contratempo e, contrariamente ao plano inicial de Paulo Freitas, não conseguiu concorrer. Fica para a próxima oportunidade, caso ela exista.

"Concorremos aos apoios porque acreditamos que o Estado não se deve demitir da função de apoiar projectos novos que não têm muito para onde se virar a não ser para esse voto de confiança", começa Ricardo Braun. "Mas as formas alternativas de financiamento não podem ser activadas só quando o outro dinheiro não chega", julga. Para a OTTO, o público também deve ser responsabilizado. "Independentemente de termos ou não apoios, queremos fazer os nossos projectos", diz Luís, a outra metade desta associação cultural.

O mesmo diz A Turma, que concorreu aos apoios com uma proposta. O problema é que, "quando se fazem as coisas sem dinheiro, o leque é muito menor, a todos os níveis", explica Tiago Correia. Mesmo que acabem por avançar com o projecto sem financiamento, o resultado final nunca será o mesmo.

O Musgo ainda não tem "expressão significativa" e a sua directora artística tem consciência da dificuldade em obter o apoio da DGA. Acredita que apoiar as artes é um dever do Estado, mas percebe "muito bem" que, se não fizerem as coisas na mesma, não podem estar à espera que o apoio surja. O truque para se manterem activos em 2013? Repensar a programação. "Coisas que trabalharíamos com ano e meio de distância, trabalhamos agora em dois meses porque só a muito curto prazo se consegue saber o que o se vai fazer a seguir", sugere. "Claro que vai ser um ano difícil, mas não me parece que os últimos quatro não o tenham sido também."