Na Europa não vale tudo

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JOHANNES EISELE/AFP

"A crise do euro está de regresso desde ontem à noite", declarou o líder da bancada do SPD no Bundestag, Frank-Walter Steinmeier. "Está instalado o caos", acrescentou. Descontando o facto de a Alemanha estar em plena campanha eleitoral, o antigo chefe da diplomacia de Berlim tem razão. O problema está em que o seu partido não se inibiu de ajudar à festa, ao exigir que os oligarcas russos que "lavam" o seu dinheiro nos bancos cipriotas, e não apenas os contribuintes alemães, pagassem um preço elevado pelo resgate a Chipre.

Quem poderia imaginar que os problemas financeiros de uma pequena ilha do Mediterrâneo com um milhão de habitantes, que representa 0,2 do PIB europeu, chegassem para lançar a Europa, de novo, numa enorme agitação política? Esta é apenas a primeira pergunta. A segunda é mais complicada. Como é possível que 17 ministros das Finanças da zona euro, mais a directora-geral do FMI e os representantes do BCE e da Comissão, conseguissem tomar uma decisão tão controversa e tão mal preparada ao ponto de ameaçar de novo a estabilidade da zona euro? A resposta à primeira pergunta é relativamente simples. A crise do euro está ainda muito longe de estar resolvida. Houve apenas uma trégua nos mercados financeiros, depois da célebre intervenção do presidente do BCE no Verão passado, que não resolveu a crise, mas que permitiu aos líderes europeus ganhar algum tempo. A Grécia, Portugal ou a Irlanda recuaram dois passos em relação ao abismo. Os juros da dívida italiana e espanhola desceram para níveis mais comportáveis. Mas continuam a faltar as decisões de fundo.

O problema é que ninguém previu que os ministros do Eurogrupo e as instituições europeias tomassem uma decisão que passou uma linha vermelha que até agora se considerava intransponível. Pela primeira vez, há bancos europeus que têm de fechar as portas para evitar a falência. Pela primeira vez, a Europa decide ignorar as suas próprias regras sobre a garantia dos depósitos bancários inferiores a 100 mil euros, aprovando uma decisão que "confisca" parte desses depósitos. Pela primeira vez, a Europa aceita implicitamente (e até aplaude) que um país europeu, membro da União e do euro, se vire para Moscovo à procura de socorro, esquecendo-se que, se esse socorro vier, terá um altíssimo preço político. É verdade que o arrependimento chegou depressa e foi de tal ordem que assistimos um patético exercício de "passa culpas" entre os governos e as instituições europeias. Ninguém quer ficar com a responsabilidade da decisão, nem Berlim, que acusa a Comissão, nem a Comissão que acusa o FMI e Berlim, nem o BCE, que acusa não se sabe bem quem, enquanto todos acusam o Governo de Nicósia.

Mas o mal está feito. O perigo de ver um país do euro entrar em bancarrota voltou a estar em cima da mesa. O risco de ver os depositantes pensar duas vezes sobre se o mesmo pode acontecer em Portugal ou na Espanha e agir em conformidade, não está totalmente afastado. As autoridades europeias apressam-se a dizer que Chipre é um caso único e que não há o menor risco de contágio. O problema é que há precedentes. Primeiro era só a Grécia. Depois, dois pequenos países periféricos, Portugal e a Irlanda. Depois, a Espanha e a Itália ficaram debaixo de fogo, alterando as regras do jogo e obrigando o BCE a intervir. Entretanto, a crise do sistema financeiro transformou-se numa crise económica e social de dimensões alarmantes. Chipre dá-lhe uma nova dimensão política. Até agora, os programas de ajustamento dos países em dificuldades, fossem quais fossem as consequências, foram aceites porque apresentados como a única alternativa ao desastre. Desta vez, como já se viu com o chumbo do resgate no Parlamento de Nicósia, o argumento do medo pode não funcionar.

"Os líderes europeus ficaram sem crédito", escreve Gideon Rachman na sua coluna do Financial Times. Crédito político, naturalmente. A confiança na Europa levou mais uma tremenda machadada. De cada vez que virmos, como voltámos a ver em Nicósia, o rosto da chanceler alemã pintado com símbolos nazis, é a Europa que está em causa. De cada vez que, em Haia ou em Berlim, os países do Sul forem descritos como caricaturas de si próprios, é a Europa que está em causa. É por isso que a crise está longe de ter sido ultrapassada. Arrisca-se a regressar, não se sabe ainda com que consequências.