Obama visita Israel e Cisjordânia sem um plano de paz para o Médio Oriente

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Obama não é o Presidente mais popular em Israel e na Palestina JEWEL SAMAD/AFP

Primeira visita vai ter muitos momentos simbólicos. Analistas consideram que lhe falta substância.

Barack Obama aterra nesta terça-feiraem Jerusalém, para a sua primeira visita presidencial a Israel e à Cisjordânia, sem uma proposta concreta para reactivar as negociações sobre o processo de paz no Médio Oriente. A própria Casa Branca tem vindo a baixar as expectativas: há dias, quando explicou os pormenores da viagem do Presidente americano aos jornalistas numa conferência telefónica, Ben Rhodes, conselheiro de política externa de Obama, referiu-se ao processo de paz como um tópico entre muitos outros a abordar com o Governo israelita, em particular o Irão, a guerra civil na Síria, e a segurança de Israel.

A aparente estratégia da Casa Branca é que a ausência de uma proposta leve os dois lados a falar abertamente sobre o que exigem para voltar às negociações. "Esta viagem é uma oportunidade para o Presidente ouvir os líderes sobre o que pensam ser os próximos passos", disse Ben Rhodes. "Ter estas discussões permitir-nos-á fazer um balanço e ponderar o que havemos de fazer para avançar este processo."

Mas especialistas no Médio Oriente têm vindo a questionar o interesse de Obama no processo de paz israelo-palestiniano. Muitos acreditam que dificilmente haverá progressos durante os próximos quatro anos da sua presidência. Escrevendo sobre a viagem de Obama a Israel no New York Times há uma semana, Thomas Friedman notou que "o conflito israelo-palestiniano deixou de ser uma necessidade para passar a ser um passatempo para os diplomatas americanos".

Obama visita a região com um objectivo em mente: reafirmar a relação "inquebrável" entre os EUA e Israel e o apoio americano à Autoridade Palestiniana. Mas o Presidente é visto com desconfiança tanto por israelitas como palestinianos.

Os palestinianos estão desapontados com a oposição de Obama à candidatura da Palestina a Estado-membro das Nações Unidas. O Presidente americano vai encontrar-se com os líderes da Autoridade Palestiniana em Ramallah, mas ao contrário da sua agenda em Israel não vai fazer um discurso para o povo palestiniano - um sinal, escrevia anteontem o Washington Post, de quanto o seu estatuto caiu entre os árabes.

Para os israelitas, Obama é o menos pró-Israel dos presidentes americanos de que há memória, uma suspeita que persiste desde que ele fez o seu famoso discurso no Cairo em Junho de 2009, no qual defendeu uma nova relação com o mundo islâmico. Alguns analistas vêem esta viagem como uma tentativa de reparar as falhas diplomáticas dessa primeira viagem ao Médio Oriente, quando Obama visitou a Turquia, a Arábia Saudita e o Egipto, mas não Israel. No seu discurso no Cairo em 2009, Obama reafirmou o apoio americano a Israel através de uma referência ao Holocausto. A seguir, viajou para o campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, onde mais uma vez sublinhou o sofrimento dos judeus. Mas Obama foi criticado porque, para os israelitas, o Holocausto não é a única justificação para a existência de Israel, e o Presidente americano não faz qualquer menção à presença histórica dos judeus na região.

Parte do programa da visita de Obama a Israel foi desenhada para corrigir essa impressão. Amanhã, ele visita o Museu de Israel, onde se encontram os Manuscritos do Mar Morto, que são a versão mais antiga que se conhece de um texto bíblico e testemunho da ligação antiga dos judeus a Israel. Na sexta-feira, Obama irá colocar uma grinalda de flores no túmulo de Theodor Herzl, fundador do sionismo moderno.

Obama, que viajará acompanhado do secretário de Estado John Kerry, irá encontrar-se com o Presidente israelita, Shimon Peres, e com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. As relações entre Obama e Netanyahu são notoriamente frias - o primeiro-ministro israelita não escondeu a sua preferência pelo republicano Mitt Romney nas eleições do ano passado. Os dois terão um encontro bilateral esta tarde, seguido de uma conferência de imprensa e de um jantar de trabalho. Antes, Obama visitará uma bateria do sistema de mísseis israelita conhecido como Iron Dome (Cúpula de Ferro), financiado pelos EUA.

Amanhã, o Presidente americano irá a Ramallah, para um encontro bilateral com o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, seguido de uma conferência de imprensa e de um almoço de trabalho. A seguir, Obama encontra-se com um grupo de jovens, acompanhado do primeiro-ministro palestiniano, Salam Fayad.

Olhando para a agenda, é inegável o esforço de replicação, de um lado e do outro - os encontros bilaterais com Netanyahu e com Abbas terão exactamente a mesma duração. Em Israel e na Cisjordânia, Obama visitará marcos culturais - como a Igreja da Natividade, em Belém, que no ano passado se tornou o primeiro local palestiniano a ser classificado de Património Mundial pela UNESCO.

Em Israel como na Cisjordânia, Obama irá falar com jovens, mas as duas ocasiões não serão inteiramente equivalentes: o encontro com os jovens palestinianos será a título informal ao passo que o encontro com estudantes israelitas tem sido descrito como um momento central da sua visita, em que Obama aproveitará para falar directamente aos israelitas. Esse discurso decorrerá amanhã, no Centro Internacional de Convenções de Jerusalém, e não no Knesset, o Parlamento israelita, que costuma ser o local tradicional para discursos de chefes de Estado estrangeiros. A Casa Branca viu-se obrigada a explicar que o gesto não era uma demonstração de despeito pelo Parlamento israelita.

Thomas Friedman escreveu que, sem um plano de paz para o Médio Oriente, a visita de Obama arrisca-se a não ser mais do que "uma viagem de turismo".