A Europa “está a trilhar caminhos muito perigosos” em Chipre, avisa Cavaco

Em Roma para a missa que inaugura o pontificado de Francisco, o Presidente português disse esperar que “o bom senso volte aos líderes europeus”.

Cavaco Silva visitou à Igreja de Santo António dos Portugueses
Foto
Cavaco Silva visitou à Igreja de Santo António dos Portugueses Luís Filipe Catarino/Presidência da República

Dois dias depois da aprovação de um empréstimo a Chipre que prevê a cobrança de taxas sobre os depósitos bancários, o Presidente português avisou que “a Europa está a trilhar caminhos perigosos”.

“Parece-me que a Europa está a trilhar caminhos perigosos, às vezes até penso que o bom senso emigrou para outras paragens. Esperemos para ver o que é que os próximos dias se decide sobre essa matéria”, afirmou Cavaco Silva, comentando a decisão de sábado dos ministros das Finanças da União Europeia. O chefe de Estado português falava aos jornalistas no final de uma visita à Igreja de Santo António dos Portugueses, no centro de Roma.

À notícia da aprovação da taxa seguiu-se uma corrida dos cipriotas às caixas de levantamento automático. “É preciso muito bom senso quando se trata de pilares que são fundamentais num sistema bancário, de todos os países da Europa e não só. Por isso, é um caminho muito perigoso aquele que a União Europeia está a trilhar, muito, muito perigoso. Eu espero que o bom senso volte aos líderes europeus”, disse ainda o chefe de Estado português, em resposta a uma pergunta colocada pela Rádio Renascença nesta segunda-feira à tarde, dia em que se soube que os bancos cipriotas continuarão fechados até quarta-feira e que o Governo de Nicósia está a tentar alterar a taxa, de forma a salvaguardar os pequenos depositantes.

Questionado em seguida sobre se o que está a acontecer em Chipre pode contaminar outros países europeus, o Presidente insistiu nos alertas: “Os livros ensinam-nos que quando há falta de confiança num sistema bancário não há nenhum país, ou quase nenhum país, que escape. Porque um dos pilares de um sistema financeiro é a confiança, as pessoas entenderem que podem colocar as suas poupanças, aquilo que prescindiram de consumir e, às vezes, até se sacrificaram ao longo dos anos e colocaram num banco, que é visto como uma caixa forte. Até no passado tinham aquelas grades para projectar solidez”.

O que está a acontecer em Chipre não é apenas perigoso, é inédito. “Foi algo que não me recordo de alguma vez ter acontecido na Europa. E, por isso, eu espero que algumas correcções sejam feitas”, disse também Cavaco Silva, antes de deixar a Igreja onde estivera a convite do clero português em Roma, num momento de convívio com parte da comunidade católica portuguesa na capital italiana, acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas.

Antes, Cavaco Silva comentara a eleição do Papa Francisco, considerando que o Papa que veio da Argentina “tem condições para marcar uma nova era da vida da Igreja”. “É isso que se sente no contacto com os cidadãos, em particular com as pessoas mais simples”, disse o Presidente português aos jornalistas. Essa nova era, acrescentou, já se antevê nos gestos e nas palavras do recém-eleito Papa. “Pela proximidade que ele parece revelar em relação aos cidadãos e ele disse duas vezes ‘os pobres, os pobres’”, sublinhou Cavaco Silva. “No mundo actual, um Papa que coloca na primeira linha essa preocupação em relação aos mais fracos, aos que estão em situação de pobreza, é um sinal, e é um sinal que será benéfico para o mundo.”

Já ministro português dos Negócios Estrangeiros, que se encontra em Roma em representação do Governo, instado a comentar as declarações de Cavaco Silva, disse compreender “as preocupações que o presidente da República já expressou quanto à segurança dos depósitos e quanto à confiança no sistema”.

Paulo Portas escusou-se, porém, a prestar outras declarações por estar em “representação externa de Portugal”.

Sobre o novo Papa, Paulo Portas, citado pela Lusa, disse estar “emocionado” com a eleição e elogiou a opção do líder da Igreja Católica pelos mais pobres.