“Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco”

O encontro com os jornalistas foi breve, com muitos aplausos e sorrisos. Descontraído e bem-disposto como o novo Papa.

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O Papa na audiência com os jornalistas, em Roma Paul Hanna/AFP
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O Papa Francisco selecionou oito cardeais para o ajudarem na reforma da Cúria
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Papa preocupado com a fome e o desperdício
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A audiência faz parte da tradição: em 2005, Ratzinger já recebera os jornalistas que trabalham habitualmente no Vaticano e todos os que aqui tinham vindo para acompanhar a sua eleição. Desta vez eram ainda mais, mas o Vaticano garantira que haveria lugar para todos – e convidara até os jornalistas acreditados a trazerem amigos.

Muitos vieram com a família e, assim, a Aula Paulo VI, edifício ao lado da Basílica de São Pedro mas apenas parcialmente dentro do território do Vaticano, encheu-se de gente adulta e também de crianças e de bebés de colo.

Foi num ambiente muito descontraído que aconteceu esta audiência, um encontro que juntou mais de 6000 pessoas numa sala de 12 mil lugares e que durou quase meia hora certa, entre muitos aplausos, sorrisos, palavras e cumprimentos, com a assistência dividida entre os que tiravam notas e os que tiravam fotografias ao Papa ou a si mesmos, com o Papa em pano de fundo.

“Caros amigos, estou contente por vos encontrar no início do meu magistério na cadeira de Pedro, a vocês que trabalharam aqui em Roma neste percurso intenso, iniciado com o surpreendente anúncio do meu venerado predecessor Bento XVI, no último 11 de Fevereiro. Saúdo cordialmente a cada um de vocês”, disse Francisco, sentado no centro do palco do auditório, a ler as notas que segurava nas mãos.

“O lugar dos mass media foi crescendo sempre nos últimos tempos, tanto que se tornou indispensável para narrar ao mundo os acontecimentos da história contemporânea. Um agradecimento especial a vocês, pelo vosso qualificado serviço nos últimos dias. Vocês trabalharam, eh? Trabalharam...”, disse Francisco, levantando os olhos das notas para olhar os jornalistas e se rir com eles. Como também riu, ao ouvi-lo, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, que tantas conferências de imprensa deu nas últimas semanas, como riram e aplaudiram os jornalistas que tanto trabalharam nos últimos dias. “Quero-vos bem”, disse ainda o Papa.

Verdade, bondade e beleza
“Para o vosso trabalho são precisos estudos, sensibilidade, experiência, como em tantas outras profissões, mas é precisa uma grande atenção à verdade, à bondade e à beleza, e nisto estamos próximos porque também a Igreja existe para comunicar a verdade, a bondade a beleza”, afirmou Francisco. “Deve ficar bem claro que somos todos chamados não a comunicar nós próprios, mas esta tríade existencial que é formada pela verdade, a bondade e a beleza.”

Sabia-se que a audiência seria descontraída, informal mesmo. Mas antecipava-se igualmente que o novo Sumo Pontífice aproveitasse para explicar, uma vez mais, ao que vem.

“Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres”, disse Jorge Mario Bergoglio. “A Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, é essencialmente espiritual: é o povo de Deus”, continuou.

Como já fizera nos dois dias anteriores, os seus primeiros dias como Papa, Francisco quis sublinhar a centralidade de Cristo: “Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam”. E a seguir quis proferir mais umas palavras destinadas a evocar Bento XVI, que irá visitar daqui a uma semana a Castel Gandolfo. “Como repetiu várias vezes Bento XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. O protagonista, em última análise, é sempre o Espírito Santo. Ele inspirou a decisão de Bento XVI para o bem da Igreja; Ele falou na oração e na eleição aos cardeais”.

Francisco quis depois explicar pela sua própria voz a escolha do nome, uma escolha que tantas análises e comentários suscitou desde quarta-feira à noite. “Na eleição tinha o meu lado o arcebispo emérito de São Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero, Cláudio Hummes, um grande amigo que quando a coisa se tornava um pouco perigosa me confortava. Aos dois terços houve o aplauso e ele abraçou-me e beijou-me e disse-me ‘não te esqueças dos pobres’. Aquela palavra entrou aqui”, contou Francisco, tocando na sua cabeça. “Os pobres, os pobres.”

Homem da pobreza e da paz
“Alguns não sabiam por que tinha escolhido o nome Francisco, e interrogavam-se se seria por Francesco Saverio [jesuíta expulso das colónias espanholas, conhecido como Francisco Xavier], Francisco de Sales [bispo de Génova] ou Francisco de Assis. Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco. Depois, enquanto o escrutínio prosseguia, pensei nas guerras, e assim surgiu o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa”, disse.

“Muitos disseram que me deveria chamar Adriano para ser um verdadeiro reformador, ou Clemente, em vingança contra [o Papa] Clemente XIV, que aboliu a Companhia de Jesus”, acrescentou o jesuíta. “Francisco de Assis, homem da pobreza e da paz”, preferiu o arcebispo de Buenos Aires.

Filhos de Deus
No fim, o Papa levantou-se e partilhou o palco com alguns jornalistas que saudou, um a um. Entre eles estava Giovanna Chirri, a jornalista da agência italiana ANSA que foi a primeira a dar a notícia da renúncia de Bento XVI, anunciada pelo agora Papa emérito sem aviso, no meio de uma intervenção em latim. Depois de noticiar a decisão de Ratzinger, contou entretanto Giovanna Chirri, a jornalista chorou. Nesta manhã, sorriu enquanto estendia a mão ao Papa e os colegas aplaudiam.

Houve aplausos fortes para Giovanna Chirri e também para o último homem da fila, cego, com um cão pela mão. Francisco cumprimentou o jornalista e depois deu uma festa ao cão. Seguiu-se um longo aplauso e depois chegou o momento das despedidas.

Antes de deixar a Aula Paulo VI, acompanhado de um longo aplauso, o Papa quis deixar uma “bênção não solene”, para que “cada um a receba na consciência”, crentes e não crentes. “O coração dá este bem a cada um, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus.”