"Se Toscanini tivesse visto Bernstein a dirigir, matava-o!"

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Herbert Blomstedt fotografado na Gulbenkian Miguel Manso

Aos 85 anos Herbert Blomstedt mantém uma invejável vitalidade e uma atitude moderna perante a música. Em Lisboa para dirigir a Orquestra Juvenil Gustav Mahler (hoje e amanhã na Gulbenkian), partilhou memórias de uma longa carreira

Figura de referência da direcção de orquestra há mais de meio século, Herbert Blomstedt mantém-se em plena forma aos 85 anos, continuando a dirigir vários concertos por ano em diferentes partes do mundo. Em Lisboa, na qualidade de maestro convidado da Orquestra Juvenil Gustav Mahler (OJGM), em residência na Gulbenkian entre os dias 7 e 17 de Março, é capaz de passar mais de três horas de ensaio sem se sentar, mostrando uma energia e um entusiasmo inesgotáveis. Nasceu nos Estados Unidos, mas os seus pais mudaram-se para a Suécia (o seu país de origem) quando Blomstedt tinha dois anos, pelo que foi na Europa que realizou a sua formação inicial. O estudo do violino, do órgão e da direcção de orquestra cruzou-se mais tarde com os caminhos da musicologia, da música antiga (em Basileia) e da música contemporânea (em Darmstadt). Aluno dos lendários Igor Markevitch e Leonard Bernstein, Herbert Blomstedt construiu uma carreira de peso como titular de orquestras tão prestigiadas como a Filarmónica de Oslo, a Staatskapelle Dresden, a Sinfónica de São Francisco e a Gewandhaus de Leipzig. Hoje e amanhã (às 18h), dirige dois programas com a OJGM na Gulbenkian, respectivamente dedicados a Beethoven e Bruckner.

Quais são as suas primeiras memórias musicais?

A minha família tinha muitas raízes musicais, especialmente do lado da minha mãe, que era pianista profissional, nascida e formada na América, mas filha de suecos. Era uma excelente pianista, mas infelizmente ficou com artrite muito cedo. Estudou no conservatório de Chicago pelo que na minha primeira digressão aos EUA com a Staatskapelle Dresden resolvi averiguar se ainda existia o conservatório. Consegui aceder aos arquivos e ter acesso ao programa do seu recital de estreia em 1921. Tocou Schumann, Liszt e Chopin. Também guardo o seu diploma. O meu avô materno era agricultor, mas tocava guitarra clássica. Ainda guardo a guitarra dele, que era um instrumento de dez cordas e não de seis como é habitual. Tinha quatro cordas adicionais no registo grave. O seu repertório incluía sobretudo arranjos de ópera italiana. Lembro-me de o ouvir tocar a Abertura da ópera Guilherme Tell de Rossini a metade da velocidade [canta]. E o meu bisavô, que também tinha uma quinta, tocava violino e clarinete em festas, casamentos, bailes, funerais. A sua profissão era a vida no campo, mas faziam sempre música.

Em que momento da sua vida decidiu tornar-se músico profissional?

O meu instrumento era o violino. Tocava as Sonatas e Partitas de Bach de cor quando estava na escola, eram a minha Bíblia musical. Frequentei uma escola estatal e todas as manhãs, às 8h, tínhamos de participar num breve serviço religioso. No início havia um coral e o órgão era tocado por um aluno. O meu professor incentivou-me a aprender a tocar órgão. Apaixonei-me pelo instrumento e mais uma vez por Bach. Toquei toda a sua obra para órgão. Mas no momento de escolher uma via profissional não sabia bem o que fazer, pois tinha muitos outros interesses: matemática, línguas, filosofia, inclusive teologia, pois o meu pai era pastor. Acabei por ir para o conservatório de Estocolmo, mas não tinha o sonho de me tornar maestro. Imaginava-me como organista ou violinista de um quarteto de cordas. Foi depois de dirigir dois andamentos do Requiem, de Brahms, numa cerimónia montada à última hora devido ao falecimento de um membro da família real que percebi que ser maestro podia ser uma coisa maravilhosa.

Estudou na Juilliard School de Nova Iorque, mas também música contemporânea em Darmstadt e música antiga em Basileia. No seu percurso mostra grande curiosidade por áreas que estão muitas vezes separadas...

Um diploma de maestro não permite um salto imediato para a vida profissional. As ofertas no início da minha carreira não eram muito interessantes e comecei a estudar musicologia. Por outro lado, de um jovem maestro espera-se que dirija a música da sua geração. Com tantos maestros mais experientes quem me iria contratar para dirigir a Nona Sinfonia de Beethoven? Dirigi muita música contemporânea e tinha muitos amigos compositores. Foi uma excelente experiência. Muita música composta na década de 1960 é bem mais moderna do que a que se escreve hoje!

Na Schola Cantorum de Basileia estudei com August Wenzinger [1905-1996], especialista em viola da gamba. Era um intérprete extraordinário, ouvi-o muitas vezes tocar viola da gamba em quarteto. Algo como o que Jordi Savall faz hoje, só que Wenzinger foi pioneiro, estávamos nos anos 50. Marcaram-me também muito as aulas sobre música da Renascença com Ina Lohr. Nesse campo ela ocupava um estatuto semelhante ao da Nadia Boulanger na música moderna.

Tendo em conta esse conhecimento da música antiga por que razão nunca se dedicou a dirigir orquestra com instrumentos de época?

A minha primeira orquestra, nos anos 50 e 60, tinha 30 instrumentistas e fazíamos muito Bach, Haydn, Mozart e o Beethoven da primeira fase, mas em instrumentos modernos. Depois passei para a Filarmónica de Oslo e tive de aprender novo repertório: Richard Strauss, Mahler, Wagner, Bruckner. Era algo muito absorvente. Foi precisamente nessa altura que o movimento da música antiga em instrumentos originais começou a ficar na moda e a tornar-se interessante com Harnoncourt e muitos outros. Só que eu já estava noutro caminho. Quando fui para Leipzig [como maestro da Gewandhaus], tocava-se imenso Bach em instrumentos modernos. A descoberta dos instrumentos originais foi muito importante por nos mostrar o mundo sonoro e aspectos de estilo - eu próprio tenho dois violinos barrocos -, mas não me arrependo por ter ficado pela orquestra moderna. É possível tocar muito bem Bach com os instrumentos do nosso tempo, se o soubermos fazer. Foi isso que tentei transmitir aos músicos da Gewandhaus. Convidei também especialistas como Harnoncourt, Norrington e Herreweghe para trabalhar com eles. Pouco a pouco aprenderam as noções de estilo.

Estudou com Markevitch e Bernstein, dois maestros míticos.

Igor Markevitch era um professor fantástico. Eu precisava daquele tipo de disciplina. Bernstein não era um bom professor, mas era uma pessoa fascinante e podíamos aprender muito a partir da sua maneira de fazer música. Mas ele nunca me ensinou técnica, nem como ensaiar uma orquestra. Markevitch não era tão carismático, mas era mais metódico.

Que outras personalidades o marcaram?

Tive a sorte de passar um ano em Nova Iorque, entre 1952 e 1953. Era a última temporada de Toscanini e ia assistir a todos os ensaios dele. Aprendi muito. Era de uma grande clareza e perfeccionismo técnico. Se ele tivesse visto Bernstein a dirigir, matava-o! Também assisti a muitas interpretações de Bruno Walter, ele ia muito à Suécia, assim como Fürtwangler. São maestros muito diferentes mas admiro-os muito. Toscanini era um mágico. Nunca explicava nem dizia: "Quero assim ou daquela maneira." Simplesmente dirigia e vociferava! Fazia: "Huumm...ooomm... again!" E os músicos percebiam! Bruno Walter era o meu ideal, era um músico muito carismático, mas sempre muito amável, modesto, afectivo, honesto, trabalhador incansável e nunca maltratava um músico. Fürtwangler e Toscanini podiam ferir com as palavras, diziam coisas terríveis. Toscanini quando estava zangado gritava: "Asino, Asino [burro]!" E guinchava.

Mais tarde foi a sua vez de se tornar professor de direcção. É uma arte muito, muito pessoal...

É uma arte relativamente nova. A maneira como hoje se ensina violino não é muito diferente da usada pelo pai do Mozart [Leopold], mas a arte do maestro é recente [do século XIX] e não desenvolveu uma técnica específica. É algo complexo, não basta bater os tempos. A técnica básica pode ser ensinada, mas a atitude e a personalidade de cada um tem um papel enorme. Por outro lado, quando faltam as qualidades necessárias, elas podem ser compensadas por outras. Por exemplo, Yehudi Menuhin não era de todo um maestro, mas dirigia imenso porque todos o respeitavam como violinista, era um músico maravilhoso. O facto de estar no pódio fazia as pessoas quererem tocar para ele o melhor possível.

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