Papa ainda não falou das acusações de cumplicidade com a ditadura

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O Papa no momento de pagar a conta na residência onde esteve hospedado durante o conclave OSSERVATORE ROMANO/REUTERS

O Vaticano descreve uma campanha "caluniosa" e de "matriz anticlerical". Hoje, Francisco tem uma audiência com jornalistas e espera-se que apresente a agenda do seu pontificado

Um Papa fala sempre ao mundo. Na quarta-feira, quando surgiu na varanda depois de ser eleito, Francisco começou por desejar "boa-noite" e despediu-se com votos de "bom descanso", mas o que disse pelo meio foi a sua primeira bênção Urbi et Orbi (à cidade e ao mundo). Nos últimos dois dias, rezou sozinho, presidiu a uma missa e falou aos cardeais - e aproveitou esses momentos para dizer tanto quanto pôde. Hoje de manhã, o Papa fala a todos os jornalistas em Roma, sabendo que dele se espera que anuncie a agenda do seu pontificado.

"Seria muito bonito se o primeiro gesto do Papa argentino fosse convidar a Roma as Mães da Praça de Maio", escreveu anteontem Roberto Saviano, o napolitano autor de Gomorra e ameaçado de morte pela máfia, numa referência à parte do passado de Jorge Mario Bergoglio que mais tem agitado o mundo.

Ontem, o porta-voz do Vaticano desmentiu as acusações de proximidade à junta militar que impôs o terror na Argentina entre 1976 e 1983. "Devemos tomar em consideração as declarações de Pérez Esquivel, que exclui qualquer comprometimento do cardeal Bergoglio com a ditadura", afirmou Federico Lombardi, descrevendo uma campanha "caluniosa" de "matriz anticlerical". O agora Papa "foi interrogado uma vez pela justiça enquanto pessoa informada sobre os factos", mas "nunca foi alvo de nenhuma acusação credível".

"Há muitos testemunhos que mostram como Bergoglio tentou proteger muitas pessoas durante a ditadura militar. O seu papel foi muito claro", disse também Lombardi. Mais: quando se tornou bispo, o agora Papa promoveu "pedidos de perdão da Igreja na Argentina por não ter feito o suficiente" para ajudar tantos argentinos vítimas do regime de Jorge Videla.

Às acusações - atravessou a ditadura próximo das Forças Armadas, foi cúmplice com o ditador, conheceu e calou o que sabia sobre o plano sistemático de roubo dos bebés que nasciam nos centros de detenção e tortura, nada fazendo para salvar dois sacerdotes sequestrados por celebrar missa em povoações pobres, aos quais teria até retirado a licença eclesiástica - começam a suceder-se, aos poucos, as defesas e os esclarecimentos.

Lombardi pede que se tenham em conta as palavras do Prémio Nobel da Paz de 1980. Esquivel diz que "houve bispos cúmplices da ditadura" e que Bergoglio não foi um deles.

"Exijo ver os arquivos"

"Exijo que abra todos os arquivos do episcopado. Que fale, que diga por que é que calou", roga por seu turno a Jorge Bergoglio a família de Estela de la Cuadra, tia de uma bebé roubada e filha de uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio.

"A minha família tinha uma longa relação com os jesuítas. Os meus irmãos que estavam no exílio foram ver o general superior Pedro Arrupue, que se comprometeu a falar com o líder dos jesuítas na Argentina", recorda Estela à agência de notícias alemã DPA, citada pelo El Mundo. "O papá foi falar com Bergoglio, e este deu-lhe uma carta para que a levasse a Mario Picchi [bispo auxiliar de La Plata], que por sua vez contactou o general Rospide, que tinha sido aluno dos jesuítas. Rospide averiguou e disse-lhe: "A menina está bem, está a ser criada por gente de bem, mas a situação é irreversível.""

Elena, irmã de Estela, foi sequestrada em 1977, grávida de sete meses. Meses depois, a família soube que nascera um bebé a quem Elena chamara Ana. Estela recorda que quando Bergoglio foi ouvido pela justiça argentina, em 2010, disse que só tinha sabido do roubo de bebés "há dez ou 15 anos". "É mentira. Como é que se calou? Por que é que não fez nada? A quem serviu o silêncio de Bergoglio? Aos militares, a nós não."

Hoje, Estela quer dizer ao Papa: "Exijo-te que te submetas à justiça, que possamos aceder a todos os arquivos."

Bergoglio respondeu às perguntas dos procuradores e dos advogados há três anos, durante quatro horas. Segundo Sam Ferguson, professor no Centro Schell para os Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Yale (EUA) que consultou a transcrição do testemunho, boa parte do tempo foi passada a discutir o caso dos dois sacerdotes, passado também em 1977, quando Bergoglio tinha 37 anos.

As licenças revogadas

O arcebispo, descreve Ferguson num artigo na revista New Republic, contou ter feito o que pôde para proteger os padres, acabando por assegurar a sua libertação, cinco meses depois.

De acordo com a acusação, Bergoglio avisou os padres para deixarem o seu trabalho junto dos pobres, uma actividade "subversiva"; eles recusaram e ele ter-lhes-á dito para abandonarem a ordem, o que os militares poderão ter percebido como um sinal de que estavam sem a protecção da Igreja. Bergoglio diz que os apoiou, apesar dos riscos, e que resistiu a pressões internas para os transferir de diocese. À justiça disse ainda que pediu a vários militares a sua libertação, tendo chegado a encontrar-se com Videla, e que depois, quando os padres reapareceram, os ajudou a fugir do país.

Sam Ferguson nota que a grande questão é perceber por que é que Bergoglio nunca disse o que sabia antes de ter sido interrogado. O arcebispo admite nunca ter apresentado queixas nem ter feito declarações públicas, mas garante que nenhum dos padres lhe pediu "mais do que aquilo que eu fiz".

Assunto fechado

"Não tenho razões para pensar que ele tenha feito nada pela nossa libertação", afirmou sobre Bergoglio um deles, Orlando Yorio, que entretanto já morreu. "Não posso assumir nenhuma posição sobre o papel de Jorge Mario Bergoglio. Estou reconciliado com aqueles acontecimentos e o assunto para mim está fechado", fez saber agora o segundo jesuíta sequestrado, Francisco Jalics.

Ferguson identifica contradições no testemunho do agora Papa: Bergoglio tanto insiste que nunca lhes retirou as licenças eclesiásticas como sugere que eles já estariam a trabalhar sem elas: "Eu disse-lhes que podiam celebrar missa. Deixei que ficasse um bocadinho à interpretação deles", disse. Um irmão de Yorio, Rodolfo, recorda que Bergoglio deu permissão a Yorio para continuar o seu trabalho depois de a licença ter sido revogada.

"Alguns criticam-no porque supostamente os deixou sozinhos. Mas outros, com muito mais autoridade para falar, como uma das principais fundadoras de um dos grupos mais importantes na Argentina [coordenadora permanente dos Direitos Humanos], conheceram-no bem antes da ditadura e deram o seu testemunho. Asseguram que ele sempre se preocupou com estes sacerdotes e com tantos outros em sarilhos. Que lutou pela sua libertação", afirma numa entrevista ao Vatican Insider o argentino Sergio Rubio, autor de El Jesuita, a biografia de Bergoglio.

Hoje se saberá se Francisco considera que as palavras de Lombardi são suficientes para que os seus esclarecimentos estejam dados, sendo certo que o tema não se esgotará. Estela continuará a pedir-lhe para ver os arquivos, mesmo que o Papa convide as Mães da Praça de Maio a vir a Roma.