Portugal, o último sítio para ser feliz

PEDRO CUNHA/ ARQUIVO
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PEDRO CUNHA/ ARQUIVO

Um país a caminho da vala comum: é assim que Miguel Real vê Portugal no momento em que lança mais um ensaio, Nova Teoria da Felicidade, de onde os políticos não saem ilesos.

Com a contundência que o caracteriza, Miguel Real é frontal na forma como faz a crítica política da situação de Portugal. "Portugal tem caminhado para ser uma máquina infernal de infelicidade", garante o escritor em conversa com o Ípsilon dias antes do lançamento do seu novo ensaio, Nova Teoria da Felicidade, que a D. Quixote põe à venda já na segunda-feira. "Neste momento, Portugal é o último sítio para ser feliz. A prova é que cem mil pessoas por ano emigram e o próprio primeiro-ministro as convida a emigrarem", argumenta. Uma solução que, diz, delapida o país, pois "em Portugal ficam os piores, os mais passivos" e "os melhores, os mais activos, os que têm menos medo, emigram".

Descrevendo como vê a evolução recente do país, Miguel Real sustenta que "a máquina de impostos é patológica", enquanto "as pessoas têm uma atitude de submissão no trabalho". E considera que "Portugal está em regressão de carácter totalitário", ao nível das atitudes e dos comportamentos. O autor de Nova Teoria da Felicidade exemplifica: "Um ministro faz um decreto, saem um milhão de pessoas à rua e o decreto continua." Tal inversão - "o ministro, que é um funcionário, tem mais poder do que um milhão de pessoas" - acontece porque o poder voltou a assumir um "carácter totalitário", permitindo o regresso da "humilhação do pobre" e a instalação de "uma sociedade de medo" em Portugal: "Toda a gente vive em equilíbrios de força e medo, cada um tenta equilibrar a sua força e o medo e não o tenta ultrapassar, porque sabe que quem está por cima esmaga."

O regresso da vala comum

É a definição do que é hoje a felicidade, que em Portugal diz estar a ser dificultada pela gestão política, bem como a análise da evolução histórica desse mesmo conceito ético, que Miguel Real faz no seu novo livro, escrito "na sequência" da obra Nova Teoria do Mal, lançada há um ano. Este pensador português, que além de escritor é também crítico literário e professor de filosofia, explica que passou do "conceito mais nefasto da ética para o melhor", subiu "da base para o topo da pirâmide".

Da análise que faz sobre a actualidade, diz que "há uma crise fundamental nos valores éticos em Portugal e na Europa". E explica que "a Europa não tem a crença puritana dos americanos: a Europa fez a crítica da crítica, fez a crítica da família, fez a crítica da Igreja, fez a crítica das empresas", pelo que "já não há mais crítica a fazer, há aquilo que é a filosofia das suspeitas".

Sobre o que é a felicidade hoje, questiona: "Que sentido tem a vida? É nesse sentido que a felicidade podia aparecer, atribuída à construção da nossa vida. Mas Portugal está a falhar." Analisando a situação do país, explica: "Um primeiro nível de felicidade é aquele em que afastamos a possibilidade de as quatro partes do medo - a carência física, a carência económica, a dor e o sofrimento psíquico e a morte - acontecerem no curto prazo. Quando isso está resolvido, temos o primeiro nível de satisfação." Isso expressa-se pelo facto de as pessoas terem "rotina, inserção nas instituições, trabalho": é "a normalização".

Ora, acrescenta Miguel Real, "em Portugal há dois ou três milhões que não atingem este primeiro nível, estão desempregados, têm reformas abaixo da sobrevivência". Assim também os "reformados, que ou comem ou tomam os remédios". Indo mais longe, este pensador sustenta: "Com os problemas que existem no Serviço Nacional de Saúde, não sei se terão direito a uma morte decente."

Levando às últimas consequências a análise da situação que se vive em Portugal, Miguel Real afirma: "No futuro, não sei se se vai voltar à vala comum. Agora está proibida, mas é bom lembrar que Camões foi para a vala comum, assim como devemos lembrar todos os portugueses que foram no passado para a vala comum por não terem dinheiro para o enterro. Hoje há pessoas que não tem dinheiro para o enterro - e quando morrem, os seus filhos também não têm."

Mas a gravidade da situação em Portugal não se fica, segundo Miguel Real, pelo que está a acontecer aos mais desfavorecidos. "Há um segundo nível de felicidade, que é o da classe média, o da vida realizada, que se atinge pela realização profissional, pela realização familiar e pela realização social". Era, defende, "o nível que a Europa tinha atingido e que em Portugal o 25 de Abril tinha permitido". E acusa: "O Governo, este e o anterior, está a destruir a possibilidade de vida realizada que o país conseguiu nos últimos 30 anos. E a classe média está a voltar ao nível da sobrevivência."

Negro retrato, com Presidente ao fundo

É por isso que, em Nova Teoria da Felicidade, Miguel Real faz um negro retrato do que têm sido os governantes em Portugal desde o início do século XXI. "O Estado português é, desde os primeiros anos do nosso século, uma máquina implacável e aterrorizante de generalização de infelicidade, individual e colectiva", escreve o autor na apresentação do livro, prosseguindo: "Como referi em Nova Teoria do Mal, [é] uma classe política culturalmente ignorante (como prova a anulação de feriados históricos, como o do dia da independência e o da implantação da República) e socialmente oportunista (ocupação de cargos por apropriação carreirista, sem mérito próprio)". (pp. 14/15)

Mas o ataque à classe política feito por Miguel Real sustenta ainda que esta tem dirigido o país "com a mente aprisionada por ditames éticos maximamente individualistas (quebrando o sentimento comunitário presente na colectividade portuguesa desde a Idade Média), dividindo americanamente os portugueses entre "vencedores" e "vencidos"". Uma elite que, sendo "totalmente desprovida do princípio cristão da solidariedade e do princípio humanista da igualdade, assenhoreou-se do Estado português, depreciando a prática do bem comum e hipostasiando uma política fiscal "psicopata" (Carlos César, ex-presidente do Governo regional dos Açores)" (p. 15).

Prosseguindo na sua caracterização dos governantes portugueses, o escritor considera que se trata de "uma classe política enriquecida à custa de benesses e subsídios do Estado, presumindo-se americana, classificando arrogantemente o povo português de "piegas", incentivando descaradamente a população jovem a emigrar, declarando guerra oficial ao bem comum e aos valores permanentes de Portugal" (p. 15).

Miguel Real afirma ainda que os governantes portugueses têm governado "acentuando de um modo calamitoso desigualdades sociais, estendendo a mancha de pobreza para além de dois milhões de habitantes", para concluir que se está perante "uma classe política própria de um país de Terceiro Mundo, autênticos "coronéis" brasileiros, dominando as máquinas partidárias regionais e nacionais" (p. 15).

O pensador passa então à crítica personalizada em Cavaco Silva: "Com medidas draconianas, acima de toda a sensatez, esta classe política, dirigida por um Presidente da República que se encontra no activo há 25 anos, responsável por erradas opções desenvolvimentistas, enfatizando a construção e o consumo contra a formação e a produção (porventura o pior presidente desde a instauração da República em 1910), lançou a dissensão, o conflito, e a perturbação entre a população, criou um clima de quase guerra civil."

Cavaco Silva, conclui, é responsável por uma liderança política que tornou "Portugal um país onde medra o chico-espertismo, o oportunismo, o carreirismo e onde muito, muito dificilmente se consegue ser feliz, nem mesmo realizado".

O outro como destino

No seu novo livro, Miguel Real afirma que "aqueles que sempre serão felizes" são os que, "em qualquer época, buscam novas formas de existência, exploram alternativas e anseiam por novas experiências de vida, não se submetendo às formas institucionais de existência." (p. 165)

Criticando o actual estado do pensamento europeu, aponta como alternativa que "o outro deve estatuir-se como o destino de cada um" e apela ao recriar de uma solidariedade e de um comunitarismo que combata o actual estado das coisas "num mundo varrido pelo neoliberalismo, pela decadência das antigas potências políticas e a emergência de novas, arrasado pelo esgotamento dos recursos naturais, pela diferenciabilidade social pavorosa entre ricos e pobres" - "um mundo criado segundo os padrões de produção, conforto e consumo das décadas americanas de 1950 e 60; um mundo em plena mutação de valores, descristianizando a totalidade da Europa, mas igualmente repleto de poderosas virtualidades científicas e técnicas, que, em breve, alterarão a vivência humana sobre a terra" (p. 34).

Uma concepção de sociedade futura que Miguel Real baseia no que é a avaliação da individualidade e da realização das pessoas em sociedade: "Não é possível a existência de um sentimento de felicidade sem a aceitação do que no outro existe de Outro", defende, sublinhando que "ser o Outro significa que não se tenta dominá-lo, possuí-lo, manipulá-lo, convertê-lo a teses próprias ou modos de existência pessoal. Significa, portanto, aceitar o outro como o Outro." Por isso considera que "a única relação ética conducente à felicidade existente entre dois sujeitos de acção só pode firmar-se na çiberdade. Outra situação que não a da liberdade significa sempre manipulação do outro, negando-lhe a possibilidade de ser verdadeiramente Outro" (p. 29).

Daí que o pensador vaticine que, "tal como o utilitarismo resgatou o conceito de prazer de 2000 anos de críticas negativas, também no futuro, para a filosofia humanista, será necessário resgatar o conceito clássico de razão e de moralidade (sem fundamento religioso)". Isto para que possa "ser superada uma existência reduzida ao domínio da tecnocracia. Nesse sentido, ser-se-á obrigado a seguir o ditame ético: O outro é o destino de cada um" (p. 72).