No século em que elefantes caminhavam por Lisboa

O elefante Salomão foi representado diversas vezes na arte do século XVI, como nesta estatuetaAnnemarie Jordan visitou Portugal pela primeira vez em 1982 para estudar a corte portuguesa
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O elefante Salomão foi representado diversas vezes na arte do século XVI, como nesta estatuetaAnnemarie Jordan visitou Portugal pela primeira vez em 1982 para estudar a corte portuguesa miguel manso

Entre 1500 e 1580, Portugal vivia um apogeu devido às Descobertas.

Annemarie Jordan fala-nos da "quinta avenida" do século XVI, a Rua Nova dos Mercadores. Ficava em Lisboa, atrás do que hoje é o Terreiro do Paço, entre o início da Rua do Ouro e da dos Fanqueiros. Lá era possível comprar tudo o que vinha das Ásias, Áfricas, Américas. Ourivesaria indiana, porcelana chinesa, araras do Brasil, escravos: a capital portuguesa era o vértice das rotas comerciais, que vinham dos outros continentes, e entravam na Europa.

Lisboa competia com Veneza e a população acostumou-se a ver naus chegarem com maravilhas, mas talvez não adivinhasse que, dentro dos palácios da corte, cresciam jardins cada vez mais extravagantes com fauna e flora exótica que causavam a inveja das outras cortes europeias. Mas estas menageries espalharam-se pelo continente, graças a Lisboa. É isso que Annemarie Jordan veio contar, na conferência marcada para ontem com o título Os Paquidermes do Rei D. Manuel I. Elefantes e outra exótica na menagerie da corte portuguesa, na Fundação Calouste Gulbenkian.

A conferência da investigadora e historiadora norte-americana faz parte do ciclo de conversas que vai decorrer até 15 de Maio no contexto da exposição sobre ciência patente no museu da Gulbenkian 360º Ciência Descoberta, que mostra como portugueses e espanhóis deram novos mundos à Europa.

A nova natureza revelada em cada terra foi parte desse novo conhecimento, mas antes de tudo causou espanto e admiração quando chegou. Os monarcas aproveitaram-se imediatamente disso. "Os reis adoravam estes animais exóticos nas suas colecções reais e fizeram jardins zoológicos ao lado dos palácios reais [as chamadas menageries] para mantê-los", explica Annemarie Jordan.

A investigadora licenciada em História de Arte passou as últimas décadas a investigar arquivos históricos, primeiro portugueses e depois europeus. "Queria estudar a corte portuguesa e cheguei a Lisboa em 1982 com uma bolsa Fulbright. Fiquei apaixonada pela história portuguesa. Fiz uma tese sobre as colecções reais. O que me interessa não é a história de arte pura, mas a história da cultura material. Como os reis viveram, o que eles comeram, os animais que tinham e como decoraram os palácios, os recheios, o coleccionismo", diz.

Entre mestrado e doutoramento e anos de arquivos europeus, a norte-americana encontrou uma série de documentação sobre a rainha Catarina de Áustria - mulher de D. João III, o sucessor de D. Manuel I - uma apaixonada pelo coleccionismo, que controlava a partir de Lisboa a importação de animais exóticos e objectos de luxo por todo o império e depois distribuía-os pela sua família da casa de Habsburgo. "Catarina de Áustria tinha uma família muito alargada, especialmente na Áustria e na Flandres e toda a gente lhe enviava listas a pedir animais: papagaios, chitas. Ela enviou dois elefantes para a Europa central", refere a investigadora. Estas histórias estão contadas no livro que publicou em 2010 na Suíça The Story of Süleyman: Celebrity elephants and other exotica in renaissance Portugal.

No livro, a história do bestiário do século XVI português arranca em 1515, quando D. Manuel I recebe de um sultão do Noroeste da Índia um rinoceronte-indiano, que acabou por ser desenhado em Portugal e redesenhado pelo pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), que o transformou numa imagem icónica europeia. Há documentação que mostra que nesse século chegaram a Lisboa 13 elefantes acompanhados pelos tratadores indianos. Muitas vezes estes elefantes partiam da ilha de Ceilão, o actual Sri Lanka, com poucos anos de vida. Eram necessários quilos de arroz para uma viagem de pelo menos seis meses e manteiga de coco para espalhar e proteger a pele dos elefantes das condições do mar alto.

Na Lisboa de D. Manuel I, estes paquidermes ficavam confinados nos jardins do Palácio de Estaus, um edifício que não sobreviveu ao terramoto de 1755, situado onde hoje está o Teatro D. Maria II. O rei costumava fazer procissões que vinham do palácio real até à Sé, em ritmo lento, com cinco elefantes e uma chita em cima de um cavalo, que deixava os transeuntes boquiabertos.

"Era pura propaganda", explica Annemarie Jordan. "O rei D. Manuel I fez um marketing fantástico perante todas as cortes europeias, especialmente com o Vaticano, para mostrar que ele era o dominus mundi, o homem global. Falamos de globalidade hoje em dia, Portugal naquela época não era menos global. Imagine-se ter um rinoceronte enviado por um sultão e poder-se enviar esse rinoceronte ao Papa, em Roma. Esta é uma sociedade em que a imagem é muito importante, não é muito diferente da de hoje", defende.

Era uma demonstração de poder, era a capacidade de ter num mesmo aviário papagaios de África e falcões de caça holandeses, reunindo o velho e o novo mundo num jardim português. A propaganda deu resultado, fez com que monarcas da Europa quisessem ter menageries semelhantes, causou inveja. Francisco I da França enviou um agente a Lisboa para adquirir animais.

Mas como seriam estas menageries portuguesas? "Não encontrei nenhuma informação sobre isso", diz a investigadora. "Posso imaginar que eram jardins como as quintas antigas do século XVII e XVIII, com fontes, aves, plantas exóticas e domésticas. Uma espécie de pequeno paraíso."

No Paço da Ribeira, o palácio real que envolvia o actual Terreiro do Paço, havia um jardim junto do torreão que estava do lado do Cais do Sodré. "Há uma iluminura do século XVI que mostra esta vista de Lisboa e mostra um jardim bastante grande", diz Annemarie Jordan, que explica ter encontrado documentação onde estava referido a existência de um jardim baixo e de um jardim alto com laranjeiras, limoeiros, plantas do tabaco e "talvez tivesse animais pequenos" como os gatos-almiscarados africanos, parentes das ginetas que produzem uma secreção muito apreciada para o boticário da altura.

A rainha Catarina de Áustria teria ainda nos aposentos femininos do palácio muitos animais. "A rainha estava louca pelos papagaios [que falavam], as araras grandes, e arranjou gaiolas com decorações", descreve a historiadora. "Era divertido ter papagaios numa corte com estruturas muito rígidas, com etiqueta e cerimonial, ou ter um macaco que podia fazer truques e ser maroto."

Apesar da população lisboeta ter visto animais a serem vendidos na rua, estes jardins paradisíacos com espécies exóticas, provavelmente só seriam visitados por "diplomatas, pessoas de alto estatuto", diz-nos a investigadora. Não há sequer documentação sobre o número de animais que terão chegado a Lisboa nesse século dourado. Essa contabilização terá sido perdida durante a catástrofe de 1755. Mas é neste contexto que surge o elefante-indiano hoje chamado Salomão, que é também o protagonista do livro de José Saramago A Viagem do Elefante.

"Ele fez uma longa viagem. Veio do Ceilão como presente para D. Catarina, com quatro ou cinco anos. Chegou a Lisboa em 1542", conta a investigadora, que foi recolhendo informação sobre esta história ao longo dos anos. D. Catarina oferece depois o elefante ao neto D. Carlos, que vivia em Espanha, em 1549. Salomão faz o trajecto a pé até perto de Burgos. Mas o paquiderme revelou-se um verdadeiro fardo naquele clima frio. O arquiduque Maximiliano II de Habsburgo, sobrinho de Catarina de Áustria e futuro rei da Boémia, vivia naquela altura em Espanha com Maria de Áustria e afeiçoou-se ao elefante e acabou por tornar-se no seu novo dono. Em 1552, quando o arquiduque e a sua corte voltaram para Viena, Salomão faz também a viagem.

"O coitado do elefante vai a pé de Toledo a Barcelona. Em Barcelona, mete-se num navio e é quase raptado por piratas franceses. Vai para Génova, e atravessa a pé os Alpes no Inverno. Depois é metido num barco para fazer a sua entrada real em Viena. Calculei que o elefante, contando com a viagem da Índia, fez 15.000 quilómetros", conta a historiadora.

Um ano depois, a 18 de Dezembro de 1553, o elefante morreu. A sua viagem poderia terminar ali, mas o rei Maximiliano II manda empalhar Salomão. Décadas mais tarde, oferece-o ao duque Alberto V da Baviera. O animal, empalhado, ficará em Munique até à II Guerra Mundial. Aí, conta Annemarie Jordan, é guardado num armazém a salvo das bombas, a pele ganha mofo e num paradoxo histórico incrível, a pele é utilizada para fazer solas de sapato no pós-guerra. "It"s fun history", considera a investigadora, saltando do português para o inglês. É história divertida, que parece ultrapassar a ficção. Mas é também um reflexo, o fruto de uma época de novidade, exotismo e espanto que passa desde o primeiro momento por Portugal.