Encosta acima, a bombear oxigénio até ao radiotelescópio ALMA

Para o dia da inauguração do supertelescópio guardou-se uma novidade científica: a explosão no nascimento de estrelas deu-se mais cedo na história do Universo.

Foto
Como orelhas gigantes, as antenas do radiotelescópio inaugurado ontem escutam o Universo MARTIN BERNETTI/AFP

Duas horas é o tempo máximo que os visitantes podem ficar no planalto, cinco mil metros acima do mar, na companhia das 57 antenas já instaladas do radiotelescópio ALMA, grandes pratos que reluzem ao sol enquanto escutam as profundezas do Universo. Ouve-se o aviso dos paramédicos: "Geralmente, vão ter dores de cabeça, náuseas e pensam lentamente, porque não estão habituados." Depois, é a partida de autocarro do Centro de Operações do ALMA, a 2900 metros, com uma ambulância atrás.

San Pedro de Atacama, uma vila no Norte do Chile, de casas de tijolos de barro e palha, ruas de terra batida e pouca iluminação, muito procurada pelos turistas, fica mais abaixo, a 2300 metros de altitude, num planalto a perder de vista matizado de cores de terra. Vegetação quase não há, afinal aqui é o deserto de Atacama, um dos locais mais secos do planeta.

Só quem "passou" no exame médico é que pode subir até as antenas do ALMA, o que significa uma pressão arterial abaixo dos 9-16, para lá disso a viagem fica completamente interdita. Quem "passou", mas à conta, recebe atenções redobradas dos paramédicos que seguem no autocarro, que vão distribuindo por todos latas de oxigénio e medindo os seus níveis no sangue com um aparelho posto num dedo. Abaixo dos 75% de oxigénio, há que recorrer às latas de spray, para que o coração não bata cada vez mais depressa. Discretamente, aconselham ainda uma mezinha menos convencional, para relaxar e ter energia: folhas de coca.

E é assim a bombear oxigénio e, nalguns casos, a mascar folhas de coca que os visitantes seguem até ao ALMA, o maior radiotelescópio da Terra, inaugurado ontem. Os ouvidos dão sinais da altitude, o ar nem sempre chega para os pulmões e há prenúncios de tonturas. Vagarosamente, o autocarro vence a encosta despida de vegetação e deixa um rasto de pó. Este não é um deserto de areia, é de terra. Plantas, resistem algumas, ainda que rasteiras, e a certa altura os cactos destacam-se na paisagem. Um burro perdido também. De resto, tirando alguns homens a manobrar máquinas para infra-estruturas do telescópio, não há vivalma. Ao longe, curva sim, curva não, vê-se a capa branca no topo do vulcão Licancabur, a 6700 metros de altura.

Quarenta minutos depois, o planalto de Chajnantor aparece por fim no horizonte. Está-se nas alturas e sob o sol forte do final da manhã, o brilho das antenas contrasta com o encarniçado do terreno. Como orelhas gigantes, as antenas escutam o Universo, mais especificamente a radiação milimétrica e submilimétrica, situada entre as ondas rádio e o infravermelho. O vapor de água na atmosfera absorve-a e distorce-a, daí a ideia de pôr o radiotelescópio o mais alto que se pôde.

Através dessa radiação, cuja distância de uma crista da onda a outra é de milímetros ou menos, o ALMA - um projecto de mil milhões de euros dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa (via Observatório Europeu do Sul), do Japão e Taiwan, com colaboração do Chile - será usado para olhar o Universo enquanto jovem. As primeiras galáxias e estrelas estão entre os seus alvos. Pretende-se também olhar para dentro das nuvens escuras, carregadas de gases e poeiras, onde nascem as estrelas e os planetas. É difícil descortinar o que se passa dentro das poeiras, mas deixam passar a radiação milimétrica e submilimétrica. O ALMA - Atacama Large Array Millimiter/submillimiter - é o primeiro supertelescópio a explorar esta radiação. Outro grande objectivo é a procura no espaço interestelar de moléculas complexas, que são ingredientes da vida.

Para a inauguração guardou-se, aliás, a revelação das últimas descobertas do ALMA desde que começou a funcionar em Setembro de 2011, mesmo sem estar concluído. Os nascimentos mais vigorosos de estrelas aconteceram mais cedo na história de 13.700 milhões de anos do Universo: foram há cerca de 12.000 milhões de anos, o que é mil milhões antes do que se pensava, diz a equipa de Joaquin Vieira, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, na revista Nature desta semana, que estudou 26 galáxias cheias de reservatórios de gases e poeiras.

Mas o que estarão agora a escutar as 57 (serão 66 até ao final do ano) antenas do ALMA? Cada uma é um monstro com mais de cem toneladas. Aproximamo-nos, a pé. O vento é forte, as mãos gelam, respirar tornou-se mais difícil. Os visitantes, jornalistas de vários países, andam lentamente e quase cambaleiam. Movimentos bruscos implicam tonturas maiores.

A astrofísica chilena Laura Ventura, do Observatório Europeu do Sul, organização europeia de 14 países, incluindo Portugal, faz de guia. Via rádio, comunica com o Centro de Operações a 2900 metros, o cérebro do radiotelescópio: "Avisa o operador da sala de controlo para mover as antenas. Câmbio." E elas movem-se graciosamente como bailarinas, levantando-se e rodopiando. Lars-Ake Nyman, chefe de operações científicas, diz que o ambiente é difícil para as pessoas e também para as antenas, que têm de aguentar temperaturas negativas. "Nós não pensamos bem, temos de usar ckeck lists. Acontece ligarmos cabos ao lado errado ou esquecermo-nos de certas coisas."

Antes da descida até ao Centro de Operações, visita-se o edifício que alberga o supercomputador mais rápido do mundo, como os responsáveis do ALMA gostam de dizer, e é aqui que a imensidão de informações das antenas é processada e enviada para um arquivo. Quem trabalha cá em cima não fica mais de oito horas. O monstro informático - com uma potência equivalente a três milhões de notebooks - espalha-se por várias filas de "armários", luzinhas verdes piscam a toda a hora. Nada é armazenado aqui: a atmosfera é tão fina que isso não é bom para as hard-drives. O que estará a ver o ALMA? A que distância? Haverá alguém noutro lado do Universo a procurar o mesmo? "O ALMA é muito sensível para olhar para galáxias até com 500 milhões de anos. Mas para isso é preciso que tenha a sensibilidade total", diz Lars-Ake Nyman.

Agora que estamos numa sala, no edifício do supercomputador, onde há oxigénio como se estivéssemos a 3000 metros de altitude, com vista panorâmica para as antenas que dançam novamente, a sonolência e a moleza atacam. Nas mãos, corre um formigueiro, a cabeça lateja, há quem se queixe de náuseas, a pele ressente-se do sol.

Estes engenheiros põem antenas a ouvir o Universo e a captar coisas tão pequenas como moléculas, identificando-as, e até lidam com o supercomputador mais rápido do mundo. É de supor que resolvam problemas num banal computador de um visitante. Se há sítio no mundo para recuperar informação que tanto se quer e que ficou presa dentro de um, este deve ser um deles. Mas nem aqui, como se descobre no regresso ao Centro de Operações do ALMA, as máquinas obedecem. As altitudes elevadas do deserto de Atacama podem ter consequências irreversíveis nos computadores. Lá se vai a sonolência do excesso de oxigénio, lá se vai o efeito das folhas de coca. À cabeça vem o que está escrito na cabine do telefone de emergência lá em cima, no planalto, à entrada do edifício do supercomputador. "Alma SOS." Não foi preciso usá-lo, mas vontade não faltou.