E as antenas apontaram-se ao centro da Via Lactea

O arranque oficial do maior radiotelescópio do planeta contou com um "bailado" das 57 antenas gigantes instaladas no deserto de Atacama, no Chile, ao som da banda sonora do "Cinema Paraíso".

Segundos antes, o Presidente do Chile, Sebastian Piñera, na tenda no Centro de Operações do ALMA, a 2900 metros de altitude, comunicava com um astrónomo chileno no planalto de Chajnantor, tendo as antenas como cenário. “António, preciso que ponhas em marcha esta grande aventura da humanidade chamada ALMA.” Dali, via rádio, o astrónomo comunicou cá para baixo, com a sala de controlo no Centro de Operações: “Atenção, sala de controlo: apontar o ALMA ao centro galáctico.” E ele, que resultou da junção de 18 países, ficou a escutar o centro da nossa galáxia, a Via Láctea, visto apenas do hemisfério Sul.

Além da parte mais teatral da cerimónia, Piñera deixou claro para uma assistência de astrofísicos de todo o mundo e de ministros de vários países envolvidos no ALMA, incluindo Nuno Crato, ministro português da Educação e Ciência, como a astronomia é importante para o Chile. Aqui estão alguns dos melhores telescópios do mundo, a que o ALMA agora se junta, e os planos futuros incluem mais. “Queremos fazer do Chile a capital mundial da astronomia e um dos pontos de turismo astronómico. O Chile vai concentrar 60% da capacidade de observação do Universo”, referiu Piñera, que começou por se dirigir à plateia como “amigos e amigas da ciência, da astronomia, do progresso”.

O director do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização europeia de astronomia que é  um dos principais parceiros do ALMA, que custou mil milhões de euros, assinalou o momento com uma referencia a um livro de ficção de Fred Hoyle, o astrofísico britânico que avançou na compreensão de como os elementos pesados (como o carbono e o oxigénio) são formados dentro das estrelas a partir do hidrogénio e hélio; e foi o inventor, já agora, da expressão Big Bang. Mas também escrevia ficção e num dos seus livros, “The Inferno”, de 1973, no qual imaginou uma catástrofe iminente devido a um quasar, fala da instalação de um radiotelescópio na Austrália.

A personagem principal, no entanto, aponta outro local: “Sugere que o telescópio fosse no Chile”, disse o director do ESO. Tudo isso se passa muito antes de se falar sequer em construir o ALMA, o radiotelescópio mais poderoso da Terra, com um “staff” próprio de 45 cientistas. “No dia de hoje, esta visão tornou-se realidade”, rematou Tim de Zeeuw, referindo-se ‘a imaginação de Fred Hoyle. 

As reportagens no Chile são financiadas no âmbito do projecto Público Mais.