Jean-Claude Juncker: os demónios da Europa "estão apenas adormecidos"

O primeiro-ministro do Luxemburgo aponta episódios recentes que deixaram "feridas profundas" entre alguns Estados e lamenta o regresso a uma lógica mais nacional e menos europeia

Jean-Claude Juncker quando esteve em Portugal em 2011
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Jean-Claude Juncker quando esteve em Portugal em 2011 Enric Vives-Rubio

Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo, foi presidente do Eurogrupo durante oito anos, até há dois meses. Numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel desta semana diz que os velhos demónios que no passado levaram países europeus a entrar em guerra “não desapareceram”. “[Os demónios] estão apenas adormecidos, como as guerras na Bósnia e no Kosovo mostraram”, diz. E confessa que o assusta ver as semelhanças entre as circunstâncias da Europa de há 100 anos e o contexto actual europeu.

Juncker enumera exemplos de recentes episódios que deixaram “feridas profundas” ou que o chocaram: a forma como alguns políticos alemães atacaram a Grécia quando o país entrou em crise e os cartazes em protestos de rua em Atenas mostrando Angela Merkel de uniforme nazi. “Sentimentos que pensávamos estar, enfim, relegados para o passado vieram à superfície”, diz Juncker.

Concorda que ninguém duvida seriamente que existe paz e amizade na Europa mas também avisa: “Quem pensar que a eterna questão da guerra e da paz na Europa é uma questão que desapareceu para sempre, pode estar muito enganado.”

Juncker encontra hoje a mesma “complacência” baseada na “ideia de que a paz está garantida para sempre” que existia há 100 anos, em vésperas da I Guerra Mundial. "Arrepia-me ver como são semelhantes as circunstâncias da Europa em 2013 e as de há 100 anos."

“Em 1913, muitas pessoas acreditavam que nunca mais haveria uma guerra na Europa. As grandes potências do continente tinham fortes ligações económicas e a convicção geral era a de que simplesmente não podiam permitir-se entrar em conflitos militares.” O ex-líder do Eurogrupo diz que a razão de ser da “união monetária sempre foi consolidar a paz”. Mas lamenta ver hoje como “demasiados europeus estão a voltar a um espírito regional ou nacional”.

Europa em perda no mundo
Por outro lado, sobre a perda de influência de uma Europa em crise, considera que apenas “unida” a Europa poderá continuar a contar para o mundo. Os sinais são vários: em meados deste século, a Europa só terá 7% da população mundial e, já hoje, mais de 80% do crescimento económico é referente as outras regiões do globo, diz Juncker.

“Uma Europa unida é a única hipótese de o nosso continente não ser excluído do radar do mundo”, diz. E acrescenta: “Os chefes do Governo da Alemanha, França e Reino Unido também sabem que a sua voz só é ouvida internacionalmente porque falam através do megafone da União Europeia.”

Aos 58 anos, aquele que foi uma espécie de "presidente informal da união monetária europeia”, não revela a ambição de chegar a um outro lugar de na União Europeia, mas diz excluir a hipótese de suceder a Herman Van Rompuy no cargo de presidente do Conselho Europeu.

Tem a certeza absoluta sobre isso porque diz que, para ele, não faria sentido assumir um cargo que poderia ter assumido em 2009, quando vários chefes de Estado e de Governo o abordaram para o fazer mas “aparentemente algumas pessoas” não o quiseram. A chanceler alemã Angela Merkel? O então Presidente francês Nicolas Sarkozy? Nesta questão em particular, Jean-Claude Juncker não respondeu ao jornalista da Der Spiegel.
 
 

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