Raul Brandão já não está disperso

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Raul Brandão e a sua mulher, Maria Angelina, com quem manteve uma grande cumplicidade criativa. Na página seguinte, imagem de O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira dr

Está completa a reunião dos textos dispersos que Raul Brandão escreveu ao longo de mais de 40 anos de produção literária. A Pedra ainda Espera Dar Flor (Quetzal) são 500 páginas, resultado de dez anos de pesquisa de Vasco Rosa

Foram precisos quase dez anos para chegar a estas 500 páginas que reúnem os textos dispersos de Raul Brandão, o escritor português que faria hoje 146 anos e que deixou uma das obras mais diversificadas na história da literatura portuguesa. Jornalismo, romance, viagem, teatro, história e sempre uma atenção ao efeito estético da palavra. "É profundamente injusta a desatenção de que tem sido alvo um autor tão marcante da literatura portuguesa", desabafa ao PÚBLICO Vasco Rosa, o investigador literário e organizador do volume que a Quetzal acaba de lançar com o título A Pedra ainda Espera Dar Flor. "É uma frase dele, um título mágico, perfeito, que é um elogio extraordinário à vida, a vida que custa, e à qual ele sempre esteve muito atento em todas as suas manifestações."

Vasco Rosa não sabe falar de Raul Brandão de forma desapaixonada. Autor de antologias de textos de Alexandre O"Neill e, mais recentemente, de Vitorino Nemésio - em concreto a produção literária publicada pelo escritor açoriano quando tinha 20 anos e a ser editado em breve -, Rosa aponta o dedo à academia que, afirma ele, "não se ocupa com um trabalho de fundo que contemple aqueles que se podem chamar os autores do cânone". "Há um trabalho de interpretação, mas não um trabalho que abrace toda a obra." Foi neste quase vazio que em 2004 se pôs à procura de tudo o que Brandão escreveu e que andava disperso pelos jornais, meio perdido para a leitura, naquele a que chama um trabalho de "arqueologia literária" com o qual quer ajudar a entender a biografia literária do escritor. Como grande auxiliar, apenas Vida e Obra de Raul Brandão, a biografia que em 1979 Guilherme de Castilho dedicou ao homem natural da Foz do Douro, no Porto, que viveu parte da vida numa aldeia chamada Nespereira, em Guimarães, e morreria em Lisboa em 1930. "Não há nada mais recente que possa substituir essa biografia", lamenta o investigador, que desde então já publicou dois livros resultado de uma longa busca por jornais velhos e arquivos microfilmados: Lume sob Cinzas e Paisagens com Figuras (Ambar, 2006).

Os dois títulos são "os pais", como lhe chama, deste A Pedra ainda Espera Dar Flor, a colectânea que culmina a sua investigação brandoniana ("sabe-se lá, à procura de outras coisas ainda posso dar com um texto de Brandão", ri Vasco Rosa), acrescenta 50 "novos textos velhos" e é um exemplo da diversidade de escrita do autor de Húmus (1917) - romance a partir do qual Herberto Helder haveria de construir um poema (Húmus Poema Contínuo) tendo como inspiração palavras, frases, imagens e metáforas usadas por Brandão - ou As Ilhas Desconhecidas, o título publicado em 1926 que resultou de uma viagem feita aos Açores e à Madeira em 1924 e que é considerado um dos mais originais exemplares da escrita de viagem. Uma diversidade não apenas temática, de género ou estilo, mas também geográfica. "Ele publicou em quase todos os jornais, não importa de onde eram, regionais, locais, nacionais." Fez apenas uma pausa. Dez anos em que se dedicou à Seara Nova, um movimento que quis "refundar" e no qual se dedicou quase em exclusivo á investigação histórica.

Coca-bichinhos

Em cerca de 40 publicações, com datas entre 1891 - ano da estreia literária - e 1930 - o ano da morte -, Vasco Rosa encontrou memórias, cartas, crítica literária, esboços de peças de teatro, textos onde se pode encontrar uma proximidade com a reportagem, todos a evidenciarem, por um lado, a atenção à condição humana, mas também um lirismo marcante. "Nele, estas duas características são perfeitamente compatíveis", conclui Vasco Rosa, que fala de um autor difícil de catalogar. "Acho que há uma dificuldade em abordá-lo. Às vezes é muito pesado, muito duro. Veja-se o Húmus. Mas ao mesmo tempo tem aquilo que a literatura deve ter: impacto sobre as pessoas, e esse impacto foi tendo variantes conforme as estéticas de cada leitor e resistiu." Como pôde, acrescenta-se, numa altura em que Brandão volta a ser falado e relido, ainda que quase nunca tenha deixado de ser visto no teatro.

"Não é fácil", nota Vasco Rosa, mas há sempre a descoberta de um "enorme humanismo e isso é muito recompensador", sublinha. Não é fácil também digerir o capítulo a que chamou Lisboa Negra, com textos sobre a dureza da vida na chamada cidade branca. Em Setembro de 1902, escreve para O Dia: "Lisboa, à noite, oferece libertinagens boémias, desperta ao noctâmbulo prazeres de vagabundo e acorda delírios misteriosos de observação flagrante. Sob o clarão do sol, pelos bairros pobres, há máscaras doentias, arrastando-se, tonturas, embriaguez de luz, que pervertem os bustos, derreando-os, e lhes tira a insaciável, perversa ânsia de uivarem a desgraça."

Numa Lisboa diferente, mas com a luz também a escassear, Vasco Rosa fala desse negrume para dizer que Brandão também tem luz, e que o trabalho de recolha de textos não foi depressivo. Ao contrário. Quando muito obsessivo, tal como "Brandão era obsessivo, fosse na descrição de uma paisagem ou na reconstituição da vida numa viela". Diz também que o modo como construiu o livro seguiu os preceitos de Raul Brandão, ou seja: "Na distribuição dos capítulos, tentei ser o máximo possível fiel aos temas fulcrais dele. Tentei jogar o jogo dele para que as pessoas percebam que tudo se encaixa na obra em todos os seus cambiantes. Por exemplo, no capítulo a que chamei A Voz do Homem - que é também uma expressão dele - destaco um texto sobre o sacerdócio católico, escrito numa época em que os padres viviam como banqueiros, de uma maneira totalmente não espiritual. Ele vem dizer que a espiritualidade faz parte da vida."

Como no capítulo Os Pescadores está toda a génese do que viria a ser o livro com o mesmo título, uma relação com o mar muito próxima e sempre presente. Raul Brandão nasceu e cresceu na Foz, já se disse, e, filho "de gente do mar", descreveu a vida de quem partilhava com ele esse universo, "a atracção por essa vastidão", como salienta Vasco Rosa. "Ele foi, de certeza, quem trouxe o mar para a literatura portuguesa nesse sentido, a vida no mar."

Muda de tom quando é para pôr em evidência a relação do escritor com os jovens poetas do Porto, outro capítulo, onde cultiva uma poética que haveria de o contaminar desde o início, desde que escreveu com eles o manifesto Nefelibatas (ou habitantes das nuvens), para definir o simbolismo e o decadentismo. Entre esses poetas estava António Nobre, como Brandão natural da Foz. "O que o impressiona arrepia-lhe a alma até o dolorir - dum arrepio histérico, próprio dos que vivem uma vida interior, a seguir uma Ilusão, curvados. Tudo o fere: é um tímido, sem nada de expansivo, e deve estar mal diante do seu Amigo: a sós respira, e dobrado, a olhar para dentro, vive com o seu sonho", escreve em Só, por António Nobre, uma das crónicas desta colectânea onde fica clara também a admiração por Camilo Castelo Branco num texto que começa de forma imperativa, dirigido aos alunos da então 4.ª classe e que faz parte do Livro de Leitura para as escolas de instrução primária (1903). "Decora este nome. Pertence a um dos maiores escritores do teu país. Poucos, raríssimos como ele, manejaram, nos tempos modernos, a língua portuguesa; nenhum como ele encheu as páginas dos seus livros de tanto riso, de tantas lágrimas."

Numa perspectiva estética colocou-se ao lado de pintores. Escreveu e falou e conviveu de perto com Columbano Bordalo Pinheiro. Não deixou de se irritar com alguma da sua pintura, ele que também pintava, e chegou a comparar a sua escrita a pinceladas. Vasco Rosa pega na ideia e diz que este é um livro onde convergem todas as pinceladas das suas grandes obras.

Durante os mais de 40 anos da produção literária de Brandão são raras as citações, a referência a inspirações, embora seja notória a influência de Dostoiésvki, ou mesmo "de Goya", conforme lembra Vasco Rosa que sublinha, no entanto, a singularidade como grande marca de Brandão, o escritor que viveu "numa época de gigantes" - Eça, Garrett, Camilo. E que se inconformou com o teatro. Primeiro na crítica, depois passando à prática, com a escrita de peças que levavam ao palco o seu olhar sobre uma sociedade "dura para com o homem", uma das quais a meias com Teixeira de Pascoaes, escritor com quem conviveu de perto, e outra recentemente adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra, onde mais uma vez é notório o seu questionar dos modos de representar o real. Essa é outra marca de Brandão. "Pegando nesse texto, Oliveira mostrou como se pode falar de uma forma contemporânea de um autor intemporal, injustamente remetido para um plano secundário", salienta o responsável por esta colectânea que não se pretende substituir a nenhuma leitura de Brandão. "Não é esse o objectivo. Apenas o de ajudar a entender um homem e a sua obra, situando-os no seu tempo."