Maria jantou bacalhau antes de a ajudarem a morrer na Suíça

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A associação suíça Dignitas é uma organização que promove o suicídio assistido

A história da primeira doente terminal portuguesa auxiliada no suicídio por dois amigos e uma organização suíça é contada num livro com prefácio de Maria Filomena Mónica que hoje chega às livrarias

Esperou demasiado tempo para iniciar os tratamentos, mas os prazos foi a médica a estipular-lhos. Quando finalmente começou a quimioterapia já não havia muito a fazer: o cancro no estômago alastrara ao fígado.

A história da primeira portuguesa a morrer com a ajuda da associação suíça Dignitas, organização que promove o suicídio assistido, é contada no livro Morte Assistida, que hoje chega às livrarias. O caso remonta a 2009, mas mesmo assim a jornalista Lucília Galha, autora do trabalho, preferiu não desvendar o verdadeiro nome de nenhum dos intervenientes no processo, para evitar eventuais penalizações legais. Maria, como lhe chamou, foi ajudada a pôr fim ao seu sofrimento por dois amigos portugueses que a acompanharam a Zurique. Morreu com 67 anos. Era divorciada, não tinha filhos e reformara-se anos antes da empresa de telecomunicações onde trabalhara. Morava sozinha numa casa com um grande terreno que gostava de semear.

Tinha-lhe sido dado um ano de vida quando tomou a decisão. "Estava convencida de que já não teria tanto tempo", descreve Lucília Galha. "Dormia durante grande parte do dia porque era a única forma de resistir às dores." Pediu à associação suíça que lhe respondesse com urgência, que não conseguia esperar mais: "Não se desinteressem por respeito de quem sofre e quer morrer com dignidade." Não aceitava "morrer aos bocados".

Ana e o marido, João, uma técnica administrativa e um agente comercial, nunca tinham ouvido falar em suicídio assistido até a amiga lhes pedir ajuda. Pensaram que serviriam apenas de intérpretes, uma vez que Maria não falava inglês. "Só quando receberam os primeiros papéis da Dignitas perceberam (...) que eram precisas duas testemunhas para presenciar o acto", conta o livro. "Ao perceberem no que estavam envolvidos, a primeira reacção foi de terror. Mas, apesar da violência psicológica que essa escolha implicava, nunca pensaram em desistir." Quatro anos passados continuam a guardar segredo - como se tivessem cometido um crime. Maria preenchia as condições requeridas pela organização suíça: sofria de uma doença terminal que lhe causava dores insuportáveis, facto comprovado pelos médicos. Três dias antes da data marcada partiu com os amigos para Basileia, onde visitou o jardim botânico e o zoológico da cidade. "Os amigos perguntavam-lhe constantemente: "Estás cansada?" A resposta era sempre a mesma: "Não, ainda aguento.""

A parte pior, conta a jornalista, era a das refeições: nem Maria nem Ana gostavam da comida. "Procuraram na Internet um restaurante português, alugaram um carro e atravessaram a fronteira para a Alemanha. Nessa noite, Maria deliciou-se com um bacalhau com batatas a murro." Horas depois ingeria o líquido fatal, pentobarbital de sódio, num apartamento da Dignitas nos arredores de Zurique. O suicídio teve de ser filmado para comprovar à polícia que havia agido de livre vontade. Como tinha vindo a acontecer nos últimos tempos de vida, o abdómen inchou-lhe outra vez logo a seguir à morte: "Era impossível distinguir a cabeça dos pés."

Lucília Galha descreve os casos de vários outros doentes terminais. Se ficarem em Portugal não poderão escolher a forma como vão acabar os seus dias. "É dos poucos países da Europa que não tem uma associação que defenda a liberdade de escolha no fim da vida", nota a autora. No prefácio de Morte Assistida, Maria Filomena Mónica explica como a morte e a doença de familiares próximos lhe dissiparam as dúvidas que ainda pudessem restar-lhe: "Quando o próprio está lúcido e, por qualquer razão - normalmente por se encontrar paralisado -, não consegue, como desejava, pôr fim à vida, a pessoa que o ajuda não deve ser penalizada." Aos cidadãos deve caber a última palavra sobre a questão, defende a socióloga, antecipando a polémica que a questão irá necessariamente levantar: "Não vai ser fácil legislar, porque o tema da morte assistida é complicado. Suspeito que haverá resistências por parte dos sectores mais conservadores, nomeadamente a Igreja Católica."

A história de Maria foi finalmente contada, como ela queria. Para que um dia as pessoas a passar pelo mesmo pudessem morrer com dignidade.