Do "vício" da rua fez-se poesia

É como uma droga. Basta um segundo para cair, mas uma vida pode não chegar para se reerguer. O ex-jornalista Daniel Horta Nova viveu quatro anos consecutivos nas ruas do Porto. Em 2008 criou um movimento para ajudar sem-abrigo como ele. Este mês lançou o livro de poesia Farrapos de Alma e venceu o "vício" da rua. Do seu T0 vê o mundo

Quase dez anos depois do despiste, daquela "curva inesperada" que o pôs a viver na rua, Daniel Horta Nova continua sem conseguir explicar o que sentiu naquela noite - a noite mais negra da vida dele, a primeira em que dormiu na rua. Angústia, medo, pânico, revolta. Os sentimentos regressaram todas as noites durante uma década, regressarão hoje, ainda que a rua fique do lado de lá dos muros e que Daniel já não seja um sem-abrigo. Não fosse o passado em ferida que não sara e este poderia ser o primeiro dia do resto da vida dele - depois da primeira renda da casa nova paga e do primeiro livro publicado.

Do "vício" da rua - da mágoa e do negro, do companheirismo e do crescimento dorial - fez-se poesia no livro Farrapos de Alma. Há dias, os amigos encheram o restaurante onde apresentou pela primeira vez a obra sobre os quatro anos em que viveu nas ruas do Porto e os exemplares vendidos pagam agora a primeira renda do T0 onde vai viver nos próximos meses. "Foram os meus amigos que me tiraram da rua, é por eles que estou aqui hoje", diz Daniel, fato e gravata impecavelmente engomados e 52 anos cumpridos. Nos próximos meses, o ex-jornalista vai dedicar-se à comercialização do seu livro, já com várias apresentações marcadas, e vai continuar a ajudar os que vivem na rua.

Daniel sabe que o passo que deu é apenas isso: um passo. "Deixei de ser um homem que vive na rua, é essa a definição do sem-abrigo - um homem como os outros mas que não tem tecto. O resto é igual..." O resto é um caminho longo a ser percorrido, como longa é a luta contra uma dependência: "A rua é um vício muito grande, a seguir à droga e ao álcool tem a mesma gravidade." Não se permanece na rua porque se gosta, mas conseguir sair pode ser um processo complexo. Palavra de quem por lá viveu durante quatro anos consecutivos e de quem criou, em 2008, o Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo (MASA): "O que nos faz não conseguir sair é a falta de esperança, é o não acreditar em nada."

Para lá ir parar é preciso muito menos. Uma "curva inesperada" basta, garante Daniel, que caiu na rua quando estava profissional e pessoalmente equilibrado. "Achava que estava no auge da minha vida." Tinha constituído com um amigo uma "sociedade à base da confiança" na sua área de formação, Comunicação Social, e tudo corria bem. Até que um dia chegou a Lisboa, depois de uma breve ausência, e "não tinha nada".

Foi pouco depois, num fim-de-semana em que foi buscar a filha mais nova para passar o dia com ela, que o clique se deu. "Ela pediu-me um pastel de nata e não tinha 50 cêntimos para lhe dar o bolo." A partir daí fechou-se para o mundo. Percebeu que quase todos os amigos que tinha não eram amigos, entregou tudo o que tinha. Foi viver para a rua.

Trocou Lisboa pelo Porto para fugir das perguntas de sempre, da família, dos amigos. "É um misto de vergonha e de revolta. Mas sobretudo de vergonha." Foi isso que o fez afastar-se das três filhas, com quem apenas falava esporadicamente e por telefone. "Inventava mentiras. Estava a trabalhar em Espanha, em Faro... Estava sempre tudo bem." Só em 2008, quando Daniel Horta Nova foi a um programa da televisão para apresentar o MASA, é que as filhas souberam que não estava tudo bem: o pai era um sem-abrigo.

O Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo foi também a plataforma de apoio que Daniel Horta Nova precisava. Estávamos no dia 31 de Dezembro de 2007. Nos Aliados, com 13 companheiros de rua e vários cartazes com palavras de ordem, pressentiu que havia espaço para criar algo. "Senti que a sociedade ainda se sensibilizava com a questão. Havia pessoas a tirarem roupa para nos darem, deixaram mais de 300 euros, várias garrafas de champagne." Levado pela euforia, pegou num cartaz e escreveu "Aqui nasce o MASA", ainda "sem saber bem o que aquilo significava". Definiu depois o que queria fazer: "Tudo menos alimentar, queria apoiar, preparar as pessoas para sair da rua, não iludir, reintegrar." Em dois anos de trabalho conseguiram fazê-lo com nove pessoas.

Daniel recompôs-se também. Fez um pé-de-meia em França, onde trabalhou durante um ano, e regressou a Portugal para fazer uma revista chamada Há Noite, com apoios do fundo desemprego. Um dia, nas apresentações periódicas que tinha de fazer na junta de freguesia da zona de residência, disseram-lhe que o projecto tinha sido cancelado. "Dizem que tive duas faltas, mas nunca provaram nada, nunca me mostraram a carta registada que dizem ter enviado." Daniel fez barulho, protestou, foi a pé a Lisboa para entregar papéis na Assembleia da República. "Nada resultou." De um momento para o outro, viu-se de novo a viver na rua.

Dessa vez não foi sozinho. Levou consigo um cartaz para explicar o que o tinha levado até ali: "O IEFP [Instituto de Emprego e Formação Profissional] pôs-me a viver na rua." A polícia apreendeu-o pouco depois. Mais tarde, dias antes de conseguir sair da rua, uma operação de limpeza dos serviços da Câmara Municipal do Porto levou tudo o resto.

O Instituto Nacional de Estatística apresenta os números do último Censo para afirmar que, em todo o país, há 696 sem-abrigo. Mas, para quem conhece de perto as ruas, a realidade é outra: "Apercebi-me que tudo estava pior. Todos os dias chega gente nova à rua."

Há tempos, Daniel Horta Nova pediu a ajuda do 112 para tirar da rua um homem que dormia a céu aberto, debaixo de tempestades. Na mesma altura entrou pela urgência do Hospital de Sto. António, no Porto, para exigir uma cadeira de rodas que levasse para dentro um homem que estava sentado à porta do hospital há três dias, após ter tido alta 24 horas depois de ter um AVC. Não sabe se foi a sociedade que endureceu ou se a indiferença se tornou uma arma.

Sabe que é preciso fazer mais e, sobretudo, fazer diferente, diz o fundador do MASA, que espera reerguer o movimento nos próximos meses. "Não há um projecto de reinserção social em Portugal", lamenta Daniel Horta Nova, que acusa algumas associações de apoio ao sem-abrigo de serem "um negócio que alimenta muita gente". As afirmações polémicas já lhe valeram alguns dissabores, mas o ex-sem-abrigo não se coíbe de as repetir. "Há IPSS que usam os sem-abrigo para recolherem dinheiro. E convém manter as pessoas nas ruas, se saírem das ruas a taxa de desemprego aumenta 4 ou 5%."

Daniel lembra-se perfeitamente do dia em que a Segurança Social chegou à Praça de Lisboa, no Porto, "em grande aparato", e retirou mais de 30 pessoas da rua. "Pegavam nas pessoas e alojavam-nas, a Estratégia Nacional [para a Integração de Pessoas Sem-Abrigo], da qual fiz parte, gastou 75 milhões de euros. Mas ninguém está pronto para sair da rua e ir viver para um quarto. Essas 30 pessoas estão na rua hoje."

Nos próximos dias, Daniel Horta Nova vai consultar a sua psiquiatra. Da primeira vez que saiu da rua, em 2008, esteve também 15 dias internado num hospital psiquiátrico. Só assim é possível resolver o "vício", ou pelo menos aprender a viver com ele: "Tratando a saúde mental." Só assim se pode ultrapassar esse estranho sentimento que o puxava para a rua mesmo quando já tinha uma casa, porque a solidão de quatro paredes parecia mais assustadora que o assustador mundo da rua. "Já senti saudades da rua. Sei que quando me deitar hoje vou pensar nisso." É inexplicável, admite Daniel. Tão inexplicável como aquela primeira noite entranhada para sempre. "Na rua cheguei a acordar com gente a pôr-me fogo em cima, com uma faca apontada a exigir que lhes entregasse tudo. Eu que não tinha nada."

Com o livro, a casa e o renascimento do MASA, Daniel Horta Nova acredita que vai reintegrar-se de vez também. E ganhar coragem para voltar a sonhar, um sonho de cada vez: "Gostava muito de ser feliz e de voltar a ser eu. E vender livros, claro, muitos livros."