Analistas dizem que Presidente escreveu prefácio auto-justificativo

A popularidade de Cavaco Silva mantém-se em baixa e a contestação social em alta, apontam politólogos e comentadores.

Este sábado, completam-se dois anos da tomada de posse de Cavaco Silva no segundo mandato
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Este sábado, completam-se dois anos da tomada de posse de Cavaco Silva no segundo mandato Daniel Rocha

Com a divulgação do prefácio ao novo livro Roteiros VII, no dia em completa dois anos do segundo mandato, o Presidente da República Cavaco Silva expõe o limite da sua actuação – através do Memorando de Entendimento com a troika – responde aos que não compreendem os seus silêncios e salienta a importância e a razão de ser da sua acção na sombra; não se demarca do todo mas também não subscreve cada política do Governo.

Se o texto pretendia contrariar tendências – da popularidade do Presidente em baixa e da contestação social em alta – esse desígnio falhou, consideram os analistas ouvidos pelo PÚBLICO, havendo quem, como o escritor e cronista Pedro Mexia, classifique o prefácio de “muito frustrante”, sobretudo para quem esperava do Presidente “ser um actor e não um mero espectador” num momento de crise.

“O prefácio é uma mistura de confissão da incapacidade de agir – porque há um memorando com a troïka – e de acção fantasmática”, diz Pedro Mexia. “É um prefácio muito auto-justificativo, muito a pensar num lugar na História mas muito frustrante para quem esperava alguma coisa.”

O que se poderia esperar era que o Presidente fosse “alguém para quem as pessoas olhassem neste mundo”. “E isso não me parece”, diz Pedro Mexia. O Presidente entende que tem pouca margem de manobra, diz o cronista, para quem o contexto não explica essa posição antes impõe outra: “Porque o programa [do Governo] é violento, porque a contestação é muito forte, porque há uma série de realidades preocupantes, como o desemprego, o Presidente tinha de funcionar como uma válvula de escape.”

Já o politólogo e doutorado em Ciência Política Carlos Jalali lembra que nunca, desde que existem, os índices de popularidade do Presidente estiveram tão baixos. E aponta como razão a percepção popular de que Cavaco Silva “não estar a agir o suficiente”.

O prefácio mostra consistência com aquilo que tem sido a linha da sua acção – dar ênfase à governabilidade e à estabilidade política e explicar os efeitos das várias opções económicas, considera o analista. E fá-lo sem pender para um ou outro lado: se por um lado, Cavaco Silva rejeita a opção de reestruturação da dívida, que poria em causa a credibilidade do Governo português e a sua capacidade em cumprir compromissos, alerta de novo para os riscos de uma espiral recessiva.

Resultados pouco visíveis

Até aqui, diz Carlos Jalali, não há surpresas num texto em que o Presidente procura justificar a sua acção política, mais nos bastidores do que no palco mediático, em nome da estabilidade governativa e da coesão social. Mas, para o politólogo, não é certo que essa opção presidencial esteja a ter efeito. Se estiver, “ela não é muito visível”. Porque na realidade, “o consenso alargado e a coesão social estão a esbater-se” e não são claras as inflexões na acção do Governo que a acção presidencial possa ter gerado, nota Jalali. “Os sintomas que temos não sugerem o efeito da intervenção presidencial”, conclui.

Os efeitos na popularidade do Presidente serão praticamente nulos, considera o politólogo e professor de Política do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa António Costa Pinto.

Esse recuperar da imagem junto da opinião pública “só poderia passar por uma atitude de demarcação mais radical relativamente ao Governo”. E isso não se espera de um Presidente que tem a estabilidade política “como o seu valor primeiro”. “O Presidente da República está perfeitamente convencido de que, independentemente da conjuntura ser muito grave, a estabilidade política é o mais importante.”

Por outro lado, a sua margem de manobra é limitada, considera Costa Pinto, porque está perante um Executivo com maioria absoluta e “porque, embora demarcando-se daquilo que tem sido a prática governamental, pertence, no fundamental, à mesma área política” do Governo.

Críticas renovadas a Sócrates

Para Raúl Vaz, comentador político da Antena Um, com o prefácio do Presidente ao novo livro, o cidadão comum “fica com a ideia de que Cavaco Silva está muito preocupado com a crise política mas que não pode evitar uma crise que se instalou na sociedade portuguesa”.

Em declarações à Antena Um, Raúl Vaz considerou, por outro lado, que “se depender do Presidente da República este Governo terminará a legislatura”. Mais: “Cavaco Silva liga de forma claríssima o seu testamento político, ou seja aquela que será a avaliação dos portugueses destes dois mandatos, à acção que o Governo conseguir em termos de resultados práticos.”

Depois da crítica “muito dura” que fez à actuação do anterior Governo, liderado por José Sócrates, no prefácio do anterior livro, Roteiros VI, lembra Raúl Vaz, neste mostra que “ainda não digeriu bem a sua relação” com o ex-primeiro-ministro e “retoma essa matéria dizendo que o que levou Portugal a esta situação foi a gestão das contas públicas no período em que José Sócrates foi chefe do Governo”. "E isto", conclui, “também ajuda este Governo”.

Já Ricardo Jorge Pinto, comentador da RTP, diz que com estas críticas renovadas a Sócrates, Cavaco Silva "coloca-se ao lado do Governo" para prevenir "qualquer eventual ataque que venha do Partido Socialista relativamente a imputar a este Executivo a única e exclusiva responsabilidade sobre uma situação que seja inultrapassável". O comentador acrescentou à RTP que "como institucionalista", Cavaco Silva "fará tudo para que esta legislatura vá até ao fim". Mas ressalvou: "Tudo tem limites e o limite é, por exemplo, a incapacidade de o Governo resolver problemas de índole económica que ele considera que têm vindo a agravar-se."