Uma série de ficção tão arriscada nunca se viu no horário nobre

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Tiago Guedes (à esquerda), Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington, os criadores de Odisseia Rui GaudÊncio

Odisseia, série de Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes, jogou com as regras do humor e da TV e chega hoje ao fim na RTP

Foi há exactamente uma semana (e alguns episódios depois de mudar do horário de domingo para sábado) que surgiu a notícia: a RTP tinha cancelado Odisseia. Ou melhor: decorria o sexto episódio quando os telespectadores viram a equipa de filmagem de Odisseia a avisar os seus actores principais - Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington (co-criadores de Odisseia com o realizador Tiago Guedes) - de que a sua série tinha sido cancelada.

Na verdade, este tinha sido apenas mais um dos grandes gestos que vieram a caracterizar esta viagem: dois actores, interpretando-se a si próprios, a fugirem das suas vidas em Lisboa e perderem-se nas estradas de Portugal para se verem interrompidos, a cada episódio, pela irrealidade do seu imaginário. Ou melhor, interrompidos por eles próprios, sentados numa secretária, em Lisboa, a decidir que rumo dar à escrita da sua própria série.

Bruno Nogueira explica-nos: "Chegámos à conclusão que o ideal seria fazer oito episódios. E como o normal era fazer 13, achámos que a melhor maneira seria fazer o gosto às pessoas que vão pensar que a série foi mesmo cancelada." Uma reacção que não é de espantar: provavelmente nunca se viu uma série portuguesa de ficção tão arriscada (e rica) no horário nobre da nossa televisão.

"Ao brincarmos com a verdade de fazermos de nós próprios, e de a própria série brincar com as concepções da realidade, sempre achámos que seria um produto que teria um destino semelhante", diz Tiago Guedes. Um gesto de quem sabe que uma série que oferece um discurso crítico sobre si e o olhar do espectador não encontra um espaço fácil na nossa televisão. E que as melhores criações são aquelas que, precisamente, não dão aquilo de que o espectador está à espera. Jogar com as expectativas do espectador "fez parte de todo o ponto de partida", explica Tiago Guedes, que co-realizou com Frederico Serra a longa-metragem Coisa Ruim. "Fazíamos isso em cada episódio, e por isso é que são todos diferentes. Quando temos a sensação de que compreendemos, vamos para um episódio que nos diz o contrário."

Odisseia recusa uma linha narrativa clássica e opta por se alimentar das referências que nos rodeiam - filmes, canções e o uso da língua portuguesa (com uma homenagem ao "deus" António Variações) - para criar algo que fica na nossa memória: um objecto cultural que reflecte as nossas vidas e que abre caminho para novas formas de olharmos para ela. Por outras palavras, pela pura criação de um imaginário, logo, a ambição de ser intemporal. Diz Waddington: "Estamos a chegar a uma fase de excesso em que se misturam todo o tipo de formatos e de informação numa coisa só. Apesar de usarmos a metalinguagem, há uma ironia na sua utilização que é antiga, e isso permitiu-nos perceber que podíamo-nos esticar para níveis de exagero que justificassem o "cancelamento". Não tínhamos filtro, lançávamos ideias e ninguém disse "não" a nada." Bruno Nogueira salienta: "As referências que temos são muito idênticas, e queríamos fazer aquilo de que gostamos enquanto espectadores, mas sempre com um cuidado: que quem não as tivesse não encravasse por causa disso." Ou como, quando Waddington e Nogueira recriam uma cena de O Caçador (1978) de Michael Cimino, os próprios desconhecem os nomes das personagens do filme pelas quais se começam a tratar.

Exemplo de serviço público

Na infinita discussão sobre que forma deve tomar o serviço público na televisão portuguesa, Odisseia responde da melhor forma: é aquele que respeita a inteligência e o olhar do espectador. "Sempre me fez confusão partir do princípio que sabemos o que é que as pessoas querem", diz Tiago Guedes. "A diferença está em tratarmos as pessoas com a inteligência que achamos que têm em vez de as tratarmos como básicas ou explicarmos tudo. Se não tivermos um serviço público a apostar no que se faz de novo, nunca vamos ter estes objectos."

Para Gonçalo Waddington, Odisseia "é um trabalho de autor, e apostar em séries de ficção que não são importadas, em vez de séries mais enlatadas ou muito vistas, é serviço público. Podemo-nos lembrar da aposta [da BBC] nos Monty Python ou em Ricky Gervais." Bruno Nogueira acrescenta: "Queríamos sair da zona de conforto. É como dar um pontapé numa colmeia, provocas reacções fortes. As pessoas colocam-se num sítio e, depois, a série não corresponde às expectativas delas, mas [essas expectativas] nunca foram as nossas." Do mesmo modo, "é importante haver produtos para as grandes massas, mas esses produtos têm um prazo de validade muito curto. Outros só têm espaço na RTP e têm um prazo de validade maior". "Não podemos ter uma RTP que viva simplesmente para as audiências; se não, matamos os projectos de autor à nascença. E o evento da Odisseia é raro, há que expressar o agradecimento por apostarem num projecto que nem sabíamos bem o que viria a ser."

Talvez fosse esta a única regra consciente na criação desta viagem: quebrar os limites. Assim, Odisseia ultrapassou não apenas aqueles que impomos, por hábito, em cada género de ficção (a série recria, por vezes, a mesma cena como cinema, telenovela portuguesa, etc.), mas soube ver, no humor, uma forma rica de reunir as situações mais díspares: a amizade, o amor, o suicídio ou a depressão.

"O humor faz parte dos momentos trágicos, é transversal a tudo", diz Tiago Guedes. "É uma boa plataforma para dizer coisas às pessoas que, naturalmente, não podemos dizer na cara. E, quando nos servimos disso, temos a oportunidade de saltar para outras plataformas pela fabulação. E obriga-se o espectador a pensar, [porque] um humorista tem um ponto de vista crítico sobre tudo", considera Wadding.

Para Bruno Nogueira, "qualquer pessoa é um potencial humorista e tem uma opinião sobre como é que [os limites] devem ser ou não". Contudo, "a eterna discussão sobre quando é que se foi longe de mais é algo que não existe - não é por brincar com uma coisa trágica que se está a tirar-lhe importância". "É uma lente que se põe e podemos ver a mesma coisa de maneiras diferentes. É mais fácil aceitar aquilo que nos faz chorar [pelo humor]."

No meio do pântano, criar

Mas o humor de Odisseia esconde outra sofisticação: um olhar sobre o nosso país, o seu trabalho e, também, a política. "Há uma homenagem às pessoas do cinema, do teatro, e da televisão." A equipa de filmagem participa na narrativa. "Lutam por algo, neste momento, que é como o mito de Sísifo: empurram uma pedra que está sempre a cair-lhes em cima", diz Waddington. "Pode ser uma alegoria do que se passa hoje em dia: de repente, tens a equipa de rodagem, literalmente, a pagar a série. E estamos a pagar Portugal." Bruno Nogueira lembra: "Ou de repente, há uma seta na estrada que aponta para Lisboa e outra para Grândola. Mas isso já foi sorte."

A maior importância de Odisseia acaba por ser essa: construir algo que enriquece o nosso olhar numa altura em que um país tende a desistir de arriscar. Waddington: "Temos essa metáfora: dentro do pântano em que estamos a viver, há uns tipos a empurrar o barco, bem ou mal." E iremos ver mais objectos como este? "As ideias vão continuar a existir, não acredito que as pessoas deixem de pensar fora da caixa", diz Nogueira. "Não depende tanto de quem cria, mas de quem acolhe e financia. Tem de haver alguém que seja capaz de entender que tem de existir um departamento de projectos mais alternativos."

"Há um crescimento muito grande em poder fazer isto, é algo pelo qual fico feliz. Por outro lado, angustia-me pensar que pode não repetir-se muitas vezes", diz Waddington. Mas é em resposta a essa dificuldade que deveremos todos criar. "É uma odisseia seres português hoje em dia", comenta Gonçalo Waddington - uma frase que todos nós partilhamos. Esperemos que a odisseia continue.