O mistério das plantas de Sintra

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Numa tarde de chuva, fomos até Sintra para conhecer as plantas medicinais que crescem nos muros, nos caminhos e nos jardins. Comemos algumas que nem suspeitávamos terem sabor e, pelo meio, o sol acabou por aparecer. Maria João Lopes (texto) e Enric Vives-Rubio (fotos)

O dia não prometia grandes passeios. O céu estava cinzento e carregado de nuvens, mas Fernanda Botelho, especialista em plantas medicinais, manteve-se firme no propósito de guiar o grupo pelos caminhos e plantas de Sintra. Não querendo dar parte de fracos, vestimos o casaco com capuz e lá fomos. O sol acabaria por aparecer pouco tempo depois e, nessa altura, já estávamos mais do que entretidos a mascar pequenas folhas das quais nem sabíamos bem o nome.

Fernanda Botelho organiza vários destes passeios, assim como cursos. Para além disso, tem guias, agendas e livros infantis, tudo sobre a mesma temática: plantas medicinais e aromáticas. Natural do Magoito, Tojeira, concelho de Sintra, mudou-se aos 17 anos para Londres onde, entre outras, fez formações sobre plantas medicinais.

"Fui para lá nos anos 1970, atrás dos Beatles", conta, entre risos. Nessa altura, trabalhou numa ervanária, na Neal"s Yard Remedies. Membro da Herb Society UK, regressou às origens em 1997, quando começou a sentir saudades do campo e quando Londres começou a ficar "muito grande e barulhenta". Hoje, com 53 anos e um jardim com um grande sabugueiro e uma velha figueira, dedica-se, entre outros, a vários projectos de educação ambiental junto de escolas, associações culturais e câmaras municipais.

Para nós, ver ao vivo e a cores as plantas que, muitas vezes, só conhecemos já embaladas, é uma novidade. Alecrim, alfazema, louro, tomilho, artemísia... Sentir o sabor de algumas, o cheiro de outras. Ao longo da tarde, Fernanda Botelho dá-nos várias dicas sobre como usar estas e outras ervas. Para além dos usos medicinais, há mil e uma formas de as experimentarmos no prato e, claro, numa chávena de chá.

Durante o percurso, cheio de mistério devido ao nevoeiro que envolvia os palacetes de Sintra, visitámos alguns canteiros municipais, devidamente cultivados, mas a maior parte do tempo passámo-lo à volta de "autênticas farmácias espontâneas", a olhar para os muros, para o chão, para as pedras dos caminhos medievais de Sintra.

Volta e meia, quando passávamos por algum curso de água, a guia pedia-nos "dois minutos de silêncio" para ouvir. Caminhadas destas servem também para desentorpecer as pernas depois de uma semana sentados, para andar a pé, respirar um pouco de ar puro e apreciar a natureza em redor. "Reparem nesta árvore. É uma oliveira velha, velha, velha", diz Fernanda Botelho. Apontando também para um sobreiro, chama-nos a atenção para os líquenes que exibe, "indicadores de ar puro". "Cheira tão bem, Sintra, não cheira?", pergunta.

Enquanto provávamos flores de alecrim, ficámos a saber que o alecrim "é uma grande planta da memória" que combate ainda a queda de cabelo e ajuda à circulação. Os orégãos, que nos habituamos a usar apenas na culinária, são também "um bom anti-séptico" e podem ajudar a combater alguns problemas respiratórios.

Fernanda Botelho detém-se diante de um conchelo e come-o (nós também): "É bom para a hidratação em caminhadas", diz. Já o funcho, acrescenta, é indicado, entre outros usos, para quem está a amamentar e para quem sofre de flatulência: "Pode pôr-se na sopa, porque o funcho ajuda a combater o que causa flatulência nas leguminosas", explica.

Rebolar nas urtigas

"Quem é que se quer rebolar nestas urtigas? É bom para as dores nas articulações!", garante Fernanda Botelho. Está a brincar e a falar a sério. Sobre as urtigas diz maravilhas: "São boas para estados de convalescença, para quem tem anemia, para infecções urinárias. Pode-se pôr na sopa, em saladas. É para usar e abusar no Inverno. Podíamos quase viver só de urtigas no Inverno, não precisávamos de comer mais vegetal nenhum", defende.

Mais à frente vamos ficar a conhecer a erva de São Roberto que é indicada para problemas do fígado e do sangue e, ainda, o cardo, que "é muito usado no Alentejo". Pode comer-se "picadinho como feijão-verde" ou "picadinho nas omeletes". Apesar de não ser vegetariana, Fernanda Botelho inclui mesmo na sua dieta diária várias destas plantas. Faz muitas omeletes "verdes", com urtigas e erva-cidreira, que também pode ser aplicada directamente sobre herpes labiais.

Mas as sugestões gastronómicas não se ficam pelas omeletes: a guia conta-nos que faz urtigas panadas, panquecas de urtigas, põe bagas de sabugueiro no crumble de maçã, frita flores de sabugueiro e come-as panadas com açúcar e canela. No grupo, já bastante conhecedor de todos estes segredos culinários, havia quem fizesse também esparregado de urtigas.

Até silvas podem ser usadas nas saladas: "Podem comer as folhinhas das extremidades. São boas para tratar diarreias. E para pôr nas saladas, mas só as pontinhas que não têm picos", esclarece.

Somos agora desafiados a olhar para o chão: "Vejam a quantidade de caroços de abacate que estão aqui." Instintivamente, olhámos logo para cima, para o abacateiro. "O abacate baixa o colesterol, não engorda e o óleo que se extrai do caroço é óptimo para a pele", diz-nos, garantindo que as folhas de abacateiro, quando aplicadas externamente sobre a testa, também podem ajudar a baixar a febre.

Que mais ficamos a saber? Entre as dezenas de plantas às quais fomos apresentados, recordamo-nos ainda que a morugem branca, muito vendida na Idade Média nas ruas de Londres como planta gourmet, é "deliciosa" nas saladas. E que a calamintas, também conhecida como erva-das-azeitonas, que cheirava bem e tinha um sabor fresco, é boa para fazer chá e indicada para quem tem problemas nas vias respiratórias.

O grupo estava mais familiarizado do que nós com estes segredos, cheiros e usos. Luís Élye (47 anos), por exemplo, que participou no passeio, anda mesmo no terreno a fazer um levantamento para um guia de campo sobre as plantas selvagens medicinais e comestíveis de Portugal continental. "Sou um grande apreciador de plantas. Ando sempre no campo", diz.

Dinova Xavier, 37 anos, é veterinária homeopática. Tirou uma licenciatura em veterinária convencional, mas especializou-se depois em homeopatia, acupunctura e fitoterapia para animais. Fez o percurso porque lhe interessa "o reconhecimento visual" de plantas que normalmente lhe chegam ao consultório já "embaladas".

Por esta altura, já tínhamos ultrapassado as três horas previstas para a caminhada e a lua já se erguia no céu de Sintra. Um pouco beliscados pela fome, e à falta de sopa de urtigas ou de omeletes de cidreira, fomos antes dar umas dentadas nas queijadas de Sintra. Mas esta semana - não passa desta semana -, vamos experimentar em casa as receitas verdes que aprendemos.

Sopa de urtigas

Receita tirada do livro infantil Sementes à Solta, com texto de Fernanda Botelho e ilustrações de Sara Simões:

Ingredientes

4 cebolas

2 folhas de louro

6 batatas médias

2 cenouras

4 chávenas de folhas de urtiga

2 pitadas de sal grosso

3 colheres de azeite;

4 colheres de flocos de aveia (opcional).

Preparação

Refogam-se as cebolas em azeite com o louro, deixando alourar durante 10 minutos. Acrescenta-se 1 litro de água, as batatas descascadas e cortadas em pedaços. Deixa-se cozer durante meia hora. Adicionam-se as folhas de urtiga e deixa-se cozer mais 10 minutos. Tritura-se com a varinha mágica.

Informações

Mais dados sobre outros passeios, cursos e workshops em malvasilvestre.blogspot.pt

Tel.: 912183904

Custo dos passeios: 5 euros